pequenos prazeres

cinquenta livros

Comprei alguns cadernos novos e organizei, na estante, alguns livros que decidi estudar com profundidade ao longo deste ano. Como o Princípios de Neurociências, do Kandel e Desenvolvimento Humano, da Papalia e Martorell. Alguns são extensos, passam de mil páginas, e muitos custaram bem caro. Existe em mim um código moral muito claro: eu não consigo consumir nada que seja fruto de pirataria. Trabalhar e estudar cansa, exige tempo, esforço, renúncia, e justamente por isso eu não consigo me apropriar do trabalho de alguém sem reconhecer esse esforço de alguma forma. Talvez por isso eu tenha comprado mais livros do que poderia, mais do que seria razoável naquele momento.

Foi então que percebi que estava na hora de mudar de lógica. Em vez de continuar acumulando, resolvi parar e, finalmente, estudar de verdade. Estudar a fundo, com tempo, com cuidado, com presença. Agora, sinto vontade de me recolher um pouco, de viver os livros com o corpo e com a mente: tocá-los, lê-los com calma, fazer resumos em um caderno, anotar frases em outro, desligar as telas, caminhar, ler deitada numa rede ouvindo música, permitir que o estudo volte a ser uma experiência sensível, e não apenas uma obrigação digital.

Faço duas faculdades (Psicologia, Psicopedagogia) e duas pós-graduações ao mesmo tempo (Neuropsicologia Clínica e Educação Especial) e, como os campos dialogam entre si, isso não me cansa como poderia cansar. O que realmente me esgota é o excesso de tempo diante das telas. Ainda assim, sigo nesse ritmo porque estou me preparando para o Mestrado em Psicologia, e isso dá sentido a tudo. Durante muito tempo, eu quis estudar Teoria Literária, porque foi uma das coisas mais bonitas e intensas que já aprendi. Mas a Psicologia me atravessou de um modo ainda mais profundo. Ela toca diretamente a vida das pessoas, suas dores, seus limites, suas possibilidades. Estudar Clarice Lispector é, sim, fundamental e transformador, mas estudar a mente humana me pareceu ainda mais urgente, mais próximo da minha realidade.

Estudar sempre foi a coisa que eu mais gostei de fazer. Foi isso que me permitiu conhecer mundos diferentes, atravessar realidades, passar em vestibulares, concursos, abrir caminhos e construir uma vida que considero boa. Hoje, mais do que nunca, entendo que estudar não é acumular conteúdos, títulos ou livros, mas criar vínculos com o conhecimento, com o mundo e comigo mesma. É isso que esses cinquenta livros representam para mim: não quantidade, mas profundidade, não acúmulo, mas sentido.

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