O caso de Henry Molaison, conhecido na literatura científica pelas iniciais H.M., é um dos mais importantes da história da neurociência por ter demonstrado o papel fundamental do hipocampo na formação de novas memórias.
H.M. sofria de epilepsia grave desde a infância. Em 1953, aos 27 anos, foi submetido a uma cirurgia realizada pelo neurocirurgião William Beecher Scoville, que removeu bilateralmente partes do lobo temporal medial, incluindo grande parte do hipocampo, a amígdala e estruturas adjacentes. O objetivo era reduzir as crises epilépticas, e a cirurgia de fato diminuiu sua frequência.
Entretanto, após a operação, H.M. desenvolveu uma condição chamada amnésia anterógrada grave, tornando-se incapaz de formar novas memórias declarativas de longo prazo. Ele conseguia manter informações por alguns segundos ou minutos, desde que continuasse prestando atenção a elas, mas esquecia rapidamente eventos recentes quando sua atenção era desviada. Por exemplo, podia conversar normalmente com uma pessoa e, poucos minutos depois, não se lembrar de tê-la encontrado.
Curiosamente, suas memórias anteriores à cirurgia permaneceram em grande parte preservadas, especialmente as mais antigas. Além disso, sua inteligência, linguagem e personalidade continuaram relativamente intactas. Outro aspecto surpreendente foi que H.M. conseguia aprender novas habilidades motoras, como desenhar olhando para um espelho, mesmo sem se lembrar de ter praticado a tarefa antes. Esse achado demonstrou que existem diferentes sistemas de memória: a memória declarativa (fatos e eventos) e a memória procedimental (habilidades e hábitos).
O estudo de H.M., conduzido por décadas pela neuropsicóloga Brenda Milner, revolucionou a compreensão científica da memória. Antes dele, muitos pesquisadores acreditavam que a memória estava distribuída de forma homogênea pelo cérebro. Seu caso mostrou que o hipocampo é essencial para a consolidação de novas memórias declarativas, mas não para o armazenamento de habilidades motoras já aprendidas nem para a memória de trabalho.
Assim, o caso H.M. forneceu evidências fundamentais de que a memória não é uma função única, mas um conjunto de sistemas distintos que dependem de diferentes estruturas cerebrais (Milner, Corkin & Teuber, 1968; Gazzaniga, Ivry & Mangun, 2018).
Referências:
MILNER, Brenda; CORKIN, Suzanne; TEUBER, Hans-Lukas. Further analysis of the hippocampal amnesic syndrome: 14-year follow-up study of H.M. Neuropsychologia, v. 6, n. 3, p. 215–234, 1968.
GAZZANIGA, Michael S.; IVRY, Richard B.; MANGUN, George R. Neurociência Cognitiva: a biologia da mente. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
LENT, Roberto. Cem bilhões de neurônios? Conceitos fundamentais de neurociência. 3. ed. São Paulo: Atheneu, 2019.