projeto cem anos

amizade

Meu Projeto Cem Anos me faz pensar profundamente sobre a relação entre o cuidado de si e aquilo que Jean-François Lyotard chama de “maquinificação” do corpo. Quero viver muitos anos, mas não quero transformar meu corpo em uma máquina que precisa estar permanentemente sendo corrigida, controlada e aperfeiçoada. Quando estabeleço metas para minha alimentação, meu peso, meu sono, meus exercícios e minha saúde, existe o risco de transformar o cuidado em cobrança. Posso começar a enxergar meu corpo apenas por meio de números: quilos, calorias, horas de sono, passos, medidas, exames. Nesse momento, o projeto de viver cem anos poderia se transformar justamente naquilo que Lyotard critica: uma tentativa de administrar o corpo como uma máquina, buscando torná-lo cada vez mais eficiente. Mas não é isso que quero para o meu Projeto Cem Anos. Quero que a longevidade seja consequência de uma vida mais consciente, e não de uma guerra contra o meu próprio corpo. Quero cuidar dele porque desejo permanecer viva, ativa, curiosa, capaz de estudar, trabalhar, caminhar, dançar, amar, escrever e experimentar o mundo. Por isso, para mim, envelhecer bem não significa impedir que meu corpo envelheça. Significa aceitar suas transformações e, ao mesmo tempo, oferecer a ele as melhores condições possíveis para atravessar o tempo. Quero comer bem sem transformar cada refeição em uma prova de disciplina; fazer exercícios sem considerar meu corpo insuficiente; dormir porque preciso descansar, e não apenas porque quero melhorar algum indicador; emagrecer, se isso fizer sentido para minha saúde, sem transformar meu peso em medida do meu valor. Meu Projeto Cem Anos, então, pode ser uma espécie de resistência à “maquinificação” do corpo. Em vez de perguntar apenas “como posso tornar meu corpo mais eficiente?”, quero perguntar “como posso habitar melhor o meu corpo durante os muitos anos que espero viver?” Quero chegar aos cem anos não como uma máquina perfeitamente conservada, mas como uma pessoa que viveu. Um corpo que envelheceu, mudou, ganhou marcas, perdeu capacidades e desenvolveu outras. Um corpo que não precisa ser perfeito para continuar sendo digno de cuidado. Para mim, viver cem anos não deveria significar vencer o envelhecimento. Deveria significar fazer amizade com o tempo.

A sociedade nos ensina a associar juventude a beleza, produtividade, desejo e valor. Por isso, o medo de envelhecer pode aparecer muito antes da velhice. Talvez envelhecer melhor também exija questionar a ideia de que só somos valiosos enquanto permanecemos jovens.

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