Com exceção dos bolos de aniversário que eu comia (nos dias de aniversário), eu sou usualmente vegana. Não sei explicar a alegria que é me alimentar sem ferir outros seres. Há uma felicidade muito particular quando uma escolha alimentar deixa de ser apenas uma questão de dieta e passa a se ligar aos nossos valores. Talvez o que eu sinta seja justamente a sensação de coerência entre aquilo em que acredito e aquilo que faço todos os dias. Alimentar-me sem participar da morte ou da exploração de outros animais produz uma espécie de paz íntima: “estou vivendo de uma maneira que se aproxima do que considero certo”. Acho até que, no próximo aniversário, eu farei um bolinho vegano para mim. Então, eu me lembrei que, na religião grega antiga, o sacrifício animal ocupava um lugar central. Em muitos rituais, um animal era morto e oferecido aos deuses, especialmente em ocasiões públicas, festividades e banquetes rituais. O sacrifício estabelecia uma relação entre humanos e divindades: uma parte do animal era destinada aos deuses, enquanto outra era consumida pela comunidade. Assim, comer carne podia estar integrado a uma prática religiosa coletiva. Ao preparar os bolinhos veganos, eu quero fazer, em sentido quase inverso, uma escolha que também possui uma dimensão simbólica: em vez de entender o animal como um ser que pode ser morto para alimentar ou beneficiar os humanos, eu vou retirar, da minha alimentação, a morte ou o sofrimento de um animal. É isso. A minha maior alegria cotidiana, além do amor à minha mãe e aos meus bichinhos, é ser vegana. Quero que essa alegria se espalhe também sobre uma data tão importante quanto o aniversário de alguém.
Existe uma idade imaginária para tudo: formar-se, casar, ter filhos, prosperar, comprar uma casa, encontrar um propósito. Mas a vida real raramente respeita calendários. Talvez você não esteja atrasado. Talvez esteja vivendo uma trajetória que não cabe no roteiro que lhe ensinaram.