psicologia do trabalho - sociologia

Como se deu o processo civilizador e a disciplina do trabalho moderno?

Para Norbert Elias, o processo civilizador caracteriza-se por uma transformação gradual da maneira como os indivíduos regulam seus comportamentos, emoções e impulsos. Nas sociedades medievais, muitas condutas eram expressas de forma mais imediata, com menor controle das paixões, dos gestos e das reações. À medida que as sociedades europeias se tornaram mais complexas, com o fortalecimento dos Estados, a expansão das cidades e o aumento da interdependência entre as pessoas, tornou-se necessário um nível cada vez maior de autocontrole. Em vez de depender apenas da coerção externa (como a força, o castigo ou a vigilância direta), os indivíduos passaram a incorporar normas de conduta que orientavam espontaneamente suas ações. Controlar a raiva, moderar a linguagem, disciplinar os desejos, respeitar horários, planejar o futuro e adiar gratificações tornaram-se disposições interiorizadas. Em outras palavras, aquilo que antes era imposto de fora passou, progressivamente, a ser exercido pelo próprio sujeito sobre si mesmo.

Esse movimento é descrito por Elias como uma internalização dos controles sociais. As normas deixam de atuar apenas como obrigações externas e transformam-se em mecanismos psicológicos relativamente automáticos. O indivíduo moderno aprende a observar a si mesmo, a antecipar as consequências de seus atos e a ajustar continuamente sua conduta às expectativas sociais. Por isso, Elias afirma que o autocontrole é uma das principais conquistas do processo civilizador, pois torna possível a convivência em sociedades altamente interdependentes e complexas (ELIAS, 1994).

Entretanto, com a Revolução Industrial, esse autocontrole adquire uma nova função. Se, para Elias, ele é resultado de um longo processo histórico de civilização, para autores como Michel Foucault e Harry Braverman, a organização industrial passa a utilizar essa capacidade já desenvolvida pelos indivíduos como um recurso produtivo. A fábrica exige trabalhadores pontuais, previsíveis, disciplinados, capazes de repetir movimentos com precisão, controlar o cansaço, regular emoções e subordinar seus ritmos biológicos ao ritmo das máquinas. Assim, o autocontrole deixa de ser apenas uma condição da vida em sociedade e converte-se também em um instrumento de organização do trabalho.

Michel Foucault amplia essa análise ao mostrar que as instituições modernas, como escolas, quartéis, hospitais e fábricas, produzem sujeitos disciplinados por meio de técnicas de vigilância, normalização e avaliação contínuas. O objetivo já não é apenas obedecer a uma ordem quando ela é dada, mas desenvolver a capacidade de vigiar permanentemente a própria conduta. O trabalhador passa a controlar seus gestos, sua produtividade, seu tempo e até mesmo suas emoções, mesmo quando não está sendo observado diretamente. O controle externo torna-se mais eficiente justamente porque é incorporado pelo próprio indivíduo (FOUCAULT, 1987).

Na psicodinâmica do trabalho, Christophe Dejours demonstra que esse fenômeno permanece atual. Nas organizações contemporâneas, a supervisão direta muitas vezes é substituída por metas, indicadores de desempenho e avaliações constantes. O trabalhador passa a monitorar continuamente seu próprio rendimento, buscando corresponder às expectativas organizacionais. Essa internalização das exigências pode favorecer o desempenho, mas também aumentar o sofrimento psíquico quando elimina espaços de autonomia, criatividade e reconhecimento (DEJOURS, 2015).

Assim, pode-se compreender uma importante continuidade histórica: o processo civilizador descrito por Norbert Elias formou indivíduos capazes de exercer elevado autocontrole; posteriormente, o capitalismo industrial e as modernas formas de gestão transformaram essa capacidade em um elemento central da organização da produção. O autocontrole deixa de ser apenas uma condição para a convivência social e torna-se também uma tecnologia de gestão do trabalho.

Referências bibliográficas:

DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 6. ed. São Paulo: Cortez-Oboré, 2015.
ELIAS, Norbert. O processo civilizador: uma história dos costumes. v. 1. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 43. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
BRAVERMAN, Harry. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. 3. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1987.
SENNETT, Richard. O artífice. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.



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