O primeiro capítulo de Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental, intitulado “A cicatriz de Ulisses“, constitui uma das mais importantes reflexões de Erich Auerbach sobre a história da literatura ocidental. Nele, o autor compara duas narrativas fundadoras da tradição europeia: o episódio do reconhecimento de Ulisses por sua ama Euricleia, no canto XIX da Odisseia de Homero, e a narrativa do sacrifício de Isaac, no capítulo 22 do Gênesis. A partir dessa comparação, Auerbach demonstra que essas obras não representam apenas estilos literários distintos, mas também duas formas radicalmente diferentes de compreender e representar a realidade (AUERBACH, 2021).
Segundo Auerbach, a narrativa homérica caracteriza-se por uma extraordinária transparência. Quando Euricleia reconhece Ulisses pela cicatriz em sua perna, Homero interrompe momentaneamente a ação para explicar detalhadamente a origem daquela marca: um acidente ocorrido durante uma caçada ao javali, na juventude do herói. Essa longa digressão ilustra um dos traços fundamentais da epopeia homérica: nada permanece oculto ao leitor. Todos os acontecimentos são plenamente iluminados, descritos em detalhes e apresentados em primeiro plano. Os personagens expressam claramente seus pensamentos e emoções, e a narrativa evita lacunas ou ambiguidades. Como observa Auerbach, “os acontecimentos são totalmente exteriorizados, apresentados em primeiro plano, uniformemente iluminados; pensamentos e sentimentos são expressos; os acontecimentos desenrolam-se lentamente e com poucos elementos de tensão” (AUERBACH, 2021, p. 9).
Em contraste, o relato bíblico do sacrifício de Isaac adota uma estratégia narrativa inteiramente diversa. O texto é extremamente conciso e deixa inúmeras questões sem resposta. O leitor não conhece os sentimentos de Abraão ao receber a ordem divina, tampouco os pensamentos de Isaac durante a caminhada até o monte Moriá. Também não recebe explicações sobre as razões pelas quais Deus submete Abraão a uma prova tão extrema. Essa economia narrativa produz uma intensa densidade dramática e convida o leitor a interpretar aquilo que permanece silenciado. Para Auerbach (2021), o texto bíblico não procura explicar tudo; ao contrário, constrói sua força precisamente por meio das lacunas, dos silêncios e da tensão que atravessa a narrativa.
Essa diferença revela, para Auerbach, duas concepções distintas de realidade. Na epopeia homérica, o mundo apresenta-se como uma superfície completamente visível, em que cada acontecimento encontra sua explicação dentro da própria narrativa. Não há mistério nem profundidade oculta: tudo pode ser plenamente conhecido pelo leitor. Já a narrativa bíblica aponta continuamente para uma realidade que transcende os fatos imediatamente narrados. Os acontecimentos adquirem significado porque se inserem em um plano histórico e espiritual mais amplo, cuja totalidade jamais é completamente revelada. A verdade da narrativa bíblica não reside apenas na descrição dos fatos, mas na abertura para um sentido que ultrapassa o texto e exige constante interpretação.
Essa característica produz também uma diferença decisiva na construção das personagens. Os heróis homéricos aparecem delineados com grande nitidez desde sua primeira apresentação. Sua personalidade manifesta-se diretamente em suas ações e discursos, permanecendo relativamente estável ao longo da narrativa. Em contrapartida, as personagens bíblicas revelam uma profundidade histórica e existencial muito maior. Abraão, por exemplo, não é definido apenas por seus atos, mas pela relação dinâmica que estabelece com Deus ao longo de sua vida. Sua identidade permanece em desenvolvimento, marcada por dúvidas, provações e transformações sucessivas. Embora Auerbach não utilize o conceito de “interioridade” como categoria teórica nesse capítulo, sua análise permite perceber que a tradição bíblica introduz uma representação da experiência humana mais aberta, complexa e historicamente situada do que aquela encontrada na epopeia homérica (AUERBACH, 2021).
Essa oposição entre Homero e a Bíblia inaugura um dos temas centrais de Mimesis: a evolução histórica das formas de representar a realidade. Ao longo da obra, Auerbach acompanha como essas duas matrizes (a clareza descritiva da tradição homérica e a profundidade histórica da tradição bíblica) dialogam, entram em tensão e se transformam na literatura europeia. Autores como Dante, Shakespeare, Cervantes, Montaigne, Balzac, Flaubert, Stendhal, Proust e Virginia Woolf são analisados como momentos sucessivos desse longo processo, no qual a representação da experiência humana torna-se cada vez mais complexa e capaz de incorporar tanto a vida cotidiana quanto a dimensão histórica e espiritual da existência (AUERBACH, 2021).
Além de sua importância para a teoria literária, “A cicatriz de Ulisses” revela o próprio método crítico de Auerbach. Em vez de formular sistemas abstratos, o autor constrói sua interpretação por meio da leitura minuciosa de passagens específicas, mostrando como escolhas aparentemente formais, como a quantidade de detalhes, a presença ou ausência de explicações e o modo de construir as personagens, expressam diferentes concepções de realidade. A história da literatura, para Auerbach, não consiste apenas na sucessão de estilos ou escolas, mas na transformação das maneiras pelas quais os seres humanos representam a si mesmos, o mundo e sua experiência histórica. É por isso que Mimesis permanece uma obra fundamental da crítica literária contemporânea: ao investigar a evolução das formas de representação, Auerbach demonstra que cada grande obra literária oferece também uma maneira singular de compreender a condição humana.
Referências bibliográficas:
AUERBACH, Erich. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. Tradução de George Bernard Sperber. 8. ed. São Paulo: Perspectiva, 2021.
A BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. Nova ed. rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 2002.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Carlos Alberto Nunes. São Paulo: Editora 34, 2015.