Aos poucos, a minha avó foi perdendo a capacidade de andar e de sustentar-se em pé, mas ainda podia falar e se mexer, abraçar e fazer carinho, entender o que todos estavam dizendo e conversar. Depois, ela parou de falar fluentemente, mas ainda o fazia trocando algumas palavras. Depois, perdeu os movimentos da deglutição e passou a se alimentar com uma sonda, mas compreendia linhas e entrelinhas, e podíamos expressar o nosso amor e ter a certeza de que éramos compreendidos. Agora, estamos felizes porque a minha avó fixou o olhar em alguma coisa ou movimentou os dedinhos do pé. Estamos felizes porque ela respira e sente o carinho do tato e as cócegas no pé. Minha avó vai aos poucos, bem aos poucos, nos preparando para quando estivermos sozinhos da sua grande companhia. Por enquanto, ela respira e gosta muito de música. E nos ensina a agradecer por um único piscar de olhos. Ela vai nos mostrando tudo o que somos e tudo o que temos de tão valioso na vida.