A história que não deu certo

rita apoena

1.

Eu sei que vocês estão muito curiosos para saber como eu sou, mas eu não sou. É, eu não sou. E eu vou tentar explicar da melhor maneira possível. Bem… deixe-me ver: eu não tenho os cabelos vermelhos e o meu vestido não é amarelo. Eu não tenho sardas. Eu não uso um aparelho nos dentes. Eu não sou baixinha. Eu não sou banguela. Eu não faço tranças no meu cabelo. Eu não sou magra. Eu não uso óculos. Eu não tenho o nariz arrebitado. Eu não tenho um sinalzinho de nascença na testa. Eu não tenho covinhas nas bochechas. Eu não tenho nada disso. Eu sou só uma menina invisível, o mais invisível que vocês nunca viram. E, agora, eu estou deitada num jardim, olhando para as nuvens do céu. No meio dessas nuvens, que estão desenhadas neste papel, há um menino vestido de super-herói, vocês estão vendo? Pois bem, é aquele ali mesmo. Aquele é o menino do desenho. O nome dele é Caetano.
Eu sei que eu sou apenas uma menina invisível, não tenho poderes mágicos, nem nada, mas eu estou até agora tentando encontrar uma maneira de libertar o Caetano. Afinal, ele sempre está preso num único instante, o instante em que ele foi desenhado.
Estão vendo? Ele não mexe os bracinhos. Ele não mexe as perninhas. Ele não voa e nem dá um giro no ar. Ele não chora nem dá um sorriso. Ele não conversa com a gente. Ele nem sequer pisca os olhinhos. Olhem bem para ele, podem olhar. Ele está sempre do mesmo jeito. Quero dizer: se você virar esta página, ele vai continuar lá, desenhado no meio das nuvens. Se você fechar este livro e abri-lo de novo, ele vai continuar do mesmo jeito, desenhado no meio das nuvens. Se você dormir e acordar no outro dia, ir para a escola, voltar, abrir o livro naquela página, ele vai continuar igualzinho, desenhado no meio das nuvens. Se você for até o final do livro e depois voltar, ele vai estar no mesmo lugar, desenhado no meio das nuvens. Se você virar o livro de cabeça para baixo e chacoalhar as páginas, ele não vai cair nem se mover, ele vai continuar ali, desenhado no meio das nuvens.

Caetano é um menino visível, ou seja, todos podem vê-lo, mas, em compensação, ele está sempre preso dentro daquele desenho, preso num único instante, o instante em que ele foi desenhado. Eu, ao contrário, sou uma menina invisível, ninguém pode me ver nessas páginas, mas eu sou tão livre quanto a sua imaginação. Querem ver? Se eu disser que eu estou usando um vestido amarelo esvoaçante, e que tenho os cabelos vermelhos e bem compridos, também esvoaçantes, e que estou correndo por um campo repleto de girassóis, é exatamente assim que vocês vão me imaginar, não é mesmo? Pois é, eu sou livre, mas o Caetano, o menino do desenho, ele não é.

2.

Ah, vocês não sabem. Aconteceram muitas coisas desde que o Caetano veio parar naquela folha. Certo dia, um balão muito colorido, que subia aquelas nuvens, com dezenas de crianças gritando e chamando, teve de desviar o caminho, pois não fazia parte daquele desenho. Foram barradas na entrada da folha. As crianças tentaram argumentar de várias maneiras, dizendo que tinham um recado muito importante para o Caetano, o menino do desenho, que o recado era urgente, que era questão de vida e morte, mas o moço da segurança não mudou de opinião:

– Não, não, não, deixe-me ver aqui nesta lista… Bem, aqui está escrito que o desenho já foi feito, a folha já foi impressa na gráfica, o livro já está pronto, aguardando os leitores nas prateleiras da estante e, nele, não há nenhum desenho de balão, não. Vocês terão de ir embora desta folha. Eu sinto muito, adeus. Passar bem. – ele disse.

– Mas, como!? – as crianças do balão perguntaram – Nós temos um recado muito importante para entregar ao Caetano, o menino do desenho! Isso pode mudar todo o rumo da história! A história pode até ser uma outra! Deixe-nos entrar nessa folha, por favor! É urgente, Seu Guarda!

– Não, não, não. Eu sinto muito. São as regras dos livros infantis: o que não está escrito, não está escrito; o que não está desenhado, não está desenhado e ponto final. Se querem uma história de balão e aventuras, terão de escrever um outro livro, com as suas próprias palavras. Favor não insistirem. Adeus. Passar bem. – o segurança repetiu. Depois, fez meia-volta e entrou por uma guarita invisível, ao pé desta página. Estão vendo? Não, não estão vendo. A desenhista não a desenhou porque era uma guarita invisível.

Puxa, então, aquele balão tão colorido teve de fazer uma volta e sair desta história. Não, definitivamente, não era a história de crianças voando num balão. Poderia ter sido uma história muito emocionante, cinco semanas dentro de um balão, u-lá-lá, o Caetano entre as crianças, pendurando-se no cesto, quase caindo do céu, agarrando-se nas nuvens e outras aventuras mil, mas o balão não tinha sido desenhado naquela folha. E teve de ir embora deste livro. E teve de ir embora desta história. E a história não ficou tão legal como poderia ter sido. Uma pena, não é mesmo? Pois é, eu também lamentei as escolhas da escritora.

Depois, lá pelas tantas, apareceu um avião teco-teco, soltando fumaça, cruzando os ares da nossa imaginação. Ele trazia uma longa faixa, acoplada às asas, com uma linda declaração de amor para o Caetano, o menino do desenho. Era de emocionar qualquer um, especialmente, os mais românticos. Mas, assim como o balão colorido, ele teve de mudar a rota, pois também não tinha sido desenhado naquela folha.
– Ei, espere um momento! Deixe-me entrar nessa história! – o aviador indignado pedia ao segurança da história – Se eu não entrar naquela folha com o meu avião, o menino do desenho não verá a declaração de amor que eu preciso mostrar para ele. Ele continuará triste. Todos sabem que o amor faz bem a qualquer um. Além disso, veja bem, o serviço já foi contratado por uma admiradora secreta, ela já pagou as parcelas, fez um pix e tudo, eu preciso mostrar a declaração de amor para o Caetano, o menino do desenho. Deixe-me entrar nesta história! É urgente, por favor! Isso pode mudar os rumos da narrativa! Não vê como ele está triste, deprimido? – o aviador implorou.

– Não, não, não, eu sinto muito – o segurança da história respondeu – o desenho já foi feito, e nele não há nenhum avião teco-teco, não. Definitivamente, esta não é uma história romântica, fofinha, de amorzinho, coraçõezinhos espalhados pela página, não. Desde que a escritora foi trocada por uma mulher mais jovem, ela não quer nem ouvir falar de histórias de amor. Acredite em mim: só há um menino vestido de super-herói em meio às nuvens do céu e mais nada. Nenhum balão, nenhum avião teco-teco, nenhum coraçãozinho, nada. Passar bem, adeus. – o segurança respondeu.

– Puxa vida, por essa eu não esperava! – o aviador exclamou cabisbaixo – Se o senhor soubesse como foi complicado chegar até aqui e encontrar o Caetano, o menino do desenho! Eu tive de enfrentar muitos perigos, dragões soltando fogo pelas ventas, querendo queimar as bordas do papel, monstros enganchando-se na contracapa, querendo comer a numeração das páginas, a ira de Zeus e dos outros deuses gregos, os raios e as trovoadas do mundo da imaginação… Foi muito complicado! Além disso, a minha declaração de amor poderia mudar os rumos desta história! Não vê como o Caetano se sente solitário? Não vê como ele está triste? Puxa, agora, eu vou ter de cancelar o serviço para a admiradora secreta, vou ter de fazer uma transferência bancária, ai, ai, ai, vai ser uma complicação danada! Eu nem sei onde guardei o meu cartão do banco… – lamentou o aviador, saindo de fininho desta história.

Mas vocês acham que isso parou por aí? Não, isso não foi tudo, não. Passou algum tempo, veio outra tentativa. Dessa vez, era um pombo-correio, que vinha voando de fora da imagem, voando a toda velocidade, mas quando se aproximava da borda do desenho, ele batia o bico e caía para fora do livro. Era um reboliço, o pombo-correio rolava pelo chão, comia poeira, mas se levantava, chacoalhava as peninhas, ajeitava o corpinho, enrolava o bilhete de volta no bico, abria as asas e levantava o voo. Puxa, ele não desistia! Por várias e várias vezes, ele vinha voando de fora da imagem, batia o bico na borda e caía no chão. Após algumas tentativas, ele já estava meio tonto, mas deixou o bilhetinho flutuando no ar e também foi embora, cabisbaixo. O bilhetinho caiu bem longe deste livro, talvez, no chão de algum outro leitor, talvez, no marcador de página e Caetano não soube o que havia escrito dentro dele. Foi real- mente uma pena. Eu também achei.

– Glu, glu, glu… – o pássaro lamentou baixinho.

Moraes Moreira entrou em contato com o segurança, dizendo que o pombo-correio deveria voar depressa, voar ligeiro para dentro desta história, que ela ficaria muito mais brasileira, muito mais musical, mas o segurança foi implacável:

– Não, não, não. Nem Moraes Moreira nem Michael Jackson podem mudar os rumos desta história. O que está escrito, está escrito! O que está desenhado, está desenhado! Eu sinto muito! – disse o segurança – Nenhum balão, nenhum avião teco-teco, nenhum pombo-cor- reio, nada. Eu sei que o bilhetinho poderia modificar os rumos desta história, mas tudo o que vemos neste livro infantil é um menino vestido de super-herói, no meio das nuvens. São as regras do mercado editorial. Passar bem. Adeus. – ele completou.

E o avião foi tristinho pelos ares, acompanhado ao longe do balão e do pombo-correio. Voaram tão longe que, em pouco tempo, foram esquecidos pela nossa imaginação.

3.

Por tudo isso, Caetano, o menino do desenho, está sempre sozinho no meio daquelas nuvens. Não conversa com ninguém e ninguém conversa com ele. É uma judiação vê-lo desse jeito. Não passa balão, não passa avião, nem pombo-correio, nem Moraes Moreira, nada. Só ele ali, desenhado entre as nuvens. E eu, que sou uma menina invisível, não sei mais o que fazer para ultrapassar a barreira entre os nossos mundos. Eu simplesmente não consigo entrar naquele desenho. Puxa, se as crianças do balão não conseguiram. Se o avião teco-teco também não conseguiu. Se nem o pombo-correio teve sucesso, como é que eu, uma menina invisível, conseguiria chegar até ele? Foi o que passei dias e dias pensando. Até que, numa de minhas viagens ao mundo da imaginação, eu ouvi uma pessoa dizer que uma imagem valia mais do que mil palavras! Vocês já ouviram essa? Pois é.

Então, eu fiquei pensando, pensando muito, fazendo contas na beiradinha do papel, algumas equivalências matemáticas. Se uma imagem valia mais do que mil palavras, então mais de mil palavras equivaliam a uma imagem! É, era isso! Se eu escrevesse mil e uma palavras, eu conseguiria construir uma imagem equivalente! E, se eu conseguisse construir uma imagem equivalente, até que eu não seria tão invisível assim, não é mesmo? “Hum… é alguma possibilidade!”, pensei comigo.

Nossa, mas mil e uma palavras eram palavras que não acabavam mais. Eu teria de trabalhar bastante nesta história. A cada mil palavras que eu escrevesse, a desenhista faria um desenho? Provavelmente, sim. Tudo bem, eu não era preguiçosa: então, arregacei as mangas do meu vestido invisível e decidi enfrentar este grande desafio. Fui para a minha casa invisível, abri a minha oficina invisível, acendi as luzes transparentes e comecei a construir um imenso abraço de palavras. De mil e duas palavras. Para, um dia, entregar ao Caetano, o menino do desenho.

2.

Então, ao abrir a minha oficina invisível, eu tomei um susto com tamanha bagunça! As palavras estavam todas espalhadas pelo chão e, para ler o que estava escrito, eu precisava retirar uma grossa camada de poeira sobre elas. Fazia muito tempo que eu não entrava ali. De repente, eu percebi que a maioria das palavras já tinha caído em desuso, que ninguém as usava mais. Ainda assim, elas ostentavam, com orgulho, alguns acentos fora de moda.

Por isso, depois de algum tempo procurando as palavras, eu cheguei à conclusão de que seria impossível trabalhar naquela desordem. Então, decidi fazer uma grande revisão. Separei as palavras que me seriam úteis daquelas que não me serviriam mais. E, ao final de duas horas, eu já havia separado quatro sacos de lixo para a reciclagem. Como eu não sabia se os coletores ainda levavam palavras escritas com ph, decidi colocá-las num canto. As que estavam quebradas em sílabas, eu as embrulhei várias vezes para que elas não machucassem os coletores. Os coletores eram meninos que sempre recolhiam as palavras da vizinhança, para revender aos homens dos dicionários. Um dos coletores tinha os pensamentos suaves e uma alegria que ninguém via. Certa vez, ele também se machucou com algumas palavras proferidas a ele, e passou vários dias sem recolher as palavras da rua. Quando perguntamos por ele, disseram-nos que as pessoas jogavam os cacos de sílabas diretamente no lixo. E, por isso, os acidentes de trabalho entre eles eram muito frequentes. Então, depois disso, eu nunca mais me esqueci de embrulhar os cacos de palavras e de ser mais suave com tudo o que eu dizia. Algumas palavras podiam ser mesmo cortantes.

Naquele momento, enquanto eu amarrava os últimos sacos de lixo, eu imaginava os pulos de alegria quando os coletores vissem tantas palavras! De certo, poderiam oferecer aos filólogos ou aos homens dos dicionários e, com isso, continuar os seus estudos. Eram tempos muito difíceis para as pessoas do mundo invisível, pois, no mundo dos homens, as pessoas andavam tão ocupadas e apressadas que não tinham mais tempo para a poesia. Com isso, nos últimos anos, os coletores compraram carrinhos invisíveis e viram que o jeito era mesmo catar palavrão.

Com a revisão que eu fiz, tudo ficou um pouco mais organizado, e sobrou bastante espaço por dentro da minha oficina. Perto da janela, amontoei algumas palavras que eu usaria, a fim de enxergá-las melhor. Seria preciso muito cuidado na hora de escolher algumas expressões. Por isso, eu calculei as dimensões do abraço de palavras, o número de encaixes necessários e dei início à minha construção. Puxa, mas eu não imaginava que construir um abraço de palavras fosse algo tão difícil! Primeiro, porque as palavras não vinham perfeitas e eu tinha de observar todas as beiradinhas, para ver se uma se encaixava na outra. Às vezes, eu até conseguia encaixar os pares, mas se eu não tomasse cuidado, eu derrubaria todas as demais. Por exemplo: às vezes, a gente está distraído e encaixa a palavra amigo na palavra mentira. Daí, pronto! A palavra confiança, que estava na base do abraço de palavras, desaba e derruba as demais! E a gente precisa começar tudo de novo! Dessa vez, tentando encaixar a palavra mentira na palavra perdão. E, nossa, como é difícil! Às vezes, elas não se encaixavam de jeito nenhum!

Depois, imagine só encaixar mil e duas palavras sem deixar nenhuma cair! Com medo que a minha construção desabasse de novo, eu só encaixava os sinônimos: carinho com afago, amor com afeição. E eu já estava cansada de tanto juntar e juntar, quando percebi que, dessa maneira, o abraço de palavras não crescia mais. Tentei a palavra “grande” com a palavra “graúdo”. Depois, a palavra “altivo” com a palavra “elevado”. Depois, a palavra “subir” com a palavra “elevar-se”. E nada. A construção não crescia sequer um milímetro. Então, com muito cuidado, eu escolhi duas palavras que, além de sinônimas, rimavam entre si: “altura” e “estatura”. Ah, pronto! Além de não crescer, a construção soltou um suspiro entediado e murchou feito um balão sem gás.

Puxa… que difícil era aquilo! Se eu encaixasse as palavras muito gastas, o abraço só desabava. No entanto, se eu só juntasse as iguais, nenhuma crescia. Tentei mais uma vez e, quando a construção fez sinal de desabar, eu fiquei tão irritada que dei um chute para que ela desabasse de vez… Ops… nesse instante, o abraço de palavras começou a rachar. Algumas palavras caíam por causa dos tremores e os ruídos eram tão fortes que eu me escondi em uma das dobras da oficina invisível. A construção veio abaixo e todas as palavras se espatifaram no chão. Foi um estrondo! As palavras se partiram em milhares de sílabas e só duas ainda rodavam antes de cair. A primeira era “calma”. E a segunda, “paciência”…

3.

– Calma… Hum. Paciência… e quem consegue manter a calma depois de passar o dia inteiro tentando levantar uma construção que desaba a cada cinco minutos? Eu estou tão cansada e a única coisa que eu consegui fazer foi uma bagunça! – eu resmunguei em voz alta.

– Você reclama demais. – uma voz ecoou de dentro das paredes.

– Quem está aí? – perguntei num susto.

– Ora, uma bagunça invisível nem é tanta bagunça assim! – outra voz completou.

– Mas quem são vocês? – perguntei um pouco aflita.

Nenhuma resposta. Olhei em torno e a oficina parecia realmente vazia; no centro, apenas alguns escombros de palavras e uma brisa que entrava pela janela, fazendo algumas sílabas flutuarem.

– Claro que é! – eu respondi – Para uma menina invisível como eu, uma bagunça invisível é muita bagunça, sim!

– É, pode ser… – uma terceira voz respondeu – mas quem manda não colar as palavras?

– Colar as palavras? Como assim? – perguntei sem entender.

– Ai, bobinha. Você passa o dia todo encaixando as palavras umas nas outras, mas se você não cola uma na outra, é claro que elas que vão desabar! As palavras isoladas são soltas, mas para fazerem algum sentido no texto, elas têm de se juntar entre si!
Naquele instante, eu tive a impressão que as paredes da oficina deixaram de ser invisíveis. Ou, então, era eu quem, agora, enxergava e ouvia por suas transparências. Vi o tom amarelado de algumas paredes, preenchidas por linhas horizontais que lembravam as folhas de um imenso caderno. Vi um buraco no teto amassado e tive vontade de subir até lá. Mas as vozes voltaram a falar comigo e eu percebi que elas vinham de dentro das linhas. O espaço entre as linhas era chamado de entrelinhas. Lá, eu guardava todas as coisas que eu queria dizer, mas não dizia diretamente. Era onde eu guardava o significado escondido de algumas palavras. Então, as vozes continuaram:

– … por exemplo, menina: você pega a palavra bola, observa bem as beiradas e encaixa na palavra sabão. Está certo. Só que, lá fora, um menino está jogando futebol e grita: Pedro, chute a bola! Pronto. Lá se foi a palavra bola e todas as que estavam por cima. Palavra sem cola é palavra solta. E todo mundo usa!

– Isso mesmo! Todo mundo usa. Todo mundo usa. – as vozes concordaram.

– Mas como eu vou colar as palavras umas nas outras se elas são invisíveis? – eu perguntei ainda mais intrigada.

– Ora, usando colas invisíveis! Usando colas invisíveis! – elas responderam.

– Uai, e onde eu acho essas colas invisíveis? E mais: que diferença faz colar palavras invisíveis com colas invisíveis? No final das contas, isso é o mesmo que nada, não é? Eu acho que vocês querem me fazer de boba, isso sim! – respondi um pouco irritada.

– Ah, mas isso a gente não precisa fazer não! – e muitas vozes deram risada.

– Silêncio! Deixem-me falar com a menina! – uma voz antiga interrompeu.
Com isso, foi uma chiadeira danada. Todas as vozes diziam shhhh, pedindo silêncio umas às outras. Quanto mais shhhh elas pediam, mais shhhh elas faziam e o barulho crescia ainda mais. Quanto mais o barulho crescia, mais shhhh elas pediam e mais shhhh elas faziam também… Ao final de alguns segundos, havia uma grande gritaria na oficina invisível.

– Silêncio, por favor! – a voz antiga tornou a pedir e, dessa vez, as outras obedeceram.

– Está vendo aquelas linhas desenhadas nas paredes da oficina, menina? São como pequenas prateleiras. Entre elas nós guardamos uma cola de colar as palavras. É transparente e cola com tanta aderência que nem todo mundo consegue enxergar as emendas. Sempre que você encaixar uma palavra na outra, passe um pouco daquela cola nas entrelinhas.

– Só isso? – perguntei.

– Sim, só isso. Não é nada difícil. Mas, diga-me, por que você quer construir um abraço de palavras? – a voz antiga perguntou.

– Porque eu quero entregar um abraço de palavras para o Caetano, o menino do desenho! – eu respondi.

– E por que você quer entregar um abraço de palavras para ele? – ela parecia ainda mais intrigada.

– Porque é a única maneira de entrar naquele desenho. Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras. Então, mil e uma palavra valem um desenho. E, tudo isso, para que ele não se sinta tão sozinho. – eu respondi um pouco sem jeito.

– E como você vai fazer isso? – ela perguntou.

– Eu ainda não sei direito, pois diversas pessoas do meu mundo já tentaram cruzar a fronteira e não conseguiram: um balão repleto de crianças, um avião teco-teco com uma linda declaração de amor e até um pombo-correio… Nenhuma conseguiu atravessar os mundos. Mas eu acho que não posso desistir agora. – respondi.

– Por quê? – ela insistiu.

– Porque eu tenho a leve impressão que, no último desenho, ele também tentou falar comigo. – eu gaguejei.

– E o que você disse a ele? – ela perguntou curiosa.

– Nada… – eu respondi.

Então, ao virar a página, apareceu um segundo desenho na história. Era o Caetano, sentado sobre um ponto de interrogação, tentando se comunicar com alguém através de um telefone de lata, amarrado a uma estrela do céu. Pensando que era comigo, eu tentei responder bem alto! O mais depressa que eu pude! Mas é claro que ele não poderia me ouvir. Afinal, ele estava preso no instante em que fez a pergunta, não podendo ouvir a resposta que eu dei no instante seguinte. Neste segundo desenho, ele nunca ouvirá a minha resposta, pois o desenho é em si uma eterna pergunta. Então, eu bem que tentei descer pelas cordas invisíveis que a desenhista amarrou nas estrelas, mas eu também não consegui. Do mesmo jeito que, no primeiro desenho, o balão teve de desviar o caminho e o avião mudar de rota… eu não pude descer pelas cordas, pois eu não fazia parte daquele desenho…

– Ah! Mas é claro que você faz parte deste desenho! – a voz exclamou.

– Não, eu não faço. Se eu fizesse, estaria com o menino do desenho, ora bolas! – respondi confusa.

– Ai, ai, ai, ela ainda não entendeu! Ela ainda não entendeu! – as vozes disseram impacientes.

– O que eu ainda não entendi? – perguntei confusa. Então, as vozes emudeceram.

– Olha, eu acho que vocês não enxergam. – eu respondi – É, é claro que vocês não enxergam, vocês são vozes invisíveis e não olhos. Mas, se fosse assim, vocês também não escutariam. Afinal, vocês são vozes e não ouvidos. Mas, eu não sei como, vocês escutam e enxergam e respondem e sabem das coisas bem mais do que eu! Será que eu estou escutando vozes porque estou ficando louca? Pois, então, como vocês podem dizer que eu faço parte daquele desenho? Será que vocês estão cegas? Será que vocês não veem que, no segundo desenho, só tem o Caetano e meia dúzia de estrelas penduradas? Além disso, como eu faria parte de algum desenho se eu sou apenas uma menina invisível?

– Ora, ora – e uma das vozes suspirou – mas é por isso, mesmo! Se você é uma menina invisível você pode fazer parte de qualquer desenho! Assim como nós também podemos.

– Não, é o contrário: por ser uma menina invisível, eu não posso fazer parte de nenhum! – eu respondi.

Ao olhar pela janela invisível, eu vi o pombo-correio com o bico engessado. Ele acenou para mim e saiu voando para outros mundos invisíveis.

– Ai, você e essa mania de achar que um desenho termina nas bordas. – a voz antiga continuou – Então, você acha que um poema termina nas palavras que foram escritas? É isso mesmo que você acha? Parece que você só consegue enxergar o que está ali, dentro de um quadrado, feito um bando de cavalos usando aquelas viseiras! Se você acha que nem faz parte deste desenho, não me admira que também não saiba colar as palavras! – ela exclamou um pouco contrariada.

– Mas o que uma coisa tem a ver com a outra? – eu perguntei confusa.

– Tudo! – ela respondeu já um pouco sem paciência – Se você não sabe enxergar o que está desenhado além das bordas de um desenho, por que saberia dizer o que está escrito nas entrelinhas de um poema? Ou de uma história? O que está escondido por trás das palavras? – ela perguntou devagar.

Abaixei a cabeça, um pouco envergonhada. Ela tinha razão: eu não estava buscando os significados ocultos das palavras, eu estava buscando apenas as palavras explícitas em algumas frases. Então, dei alguns passos em volta, enquanto percorria os dedos nas prateleiras da parede invisível. Peguei um tubo de cola, também invisível, e perguntei:

– Mas é só isso? Se eu colar as palavras com essa cola invisível, eu consigo entregá-las ao Caetano, o menino do desenho? – eu perguntei meio sem jeito.

– Não, não é bem assim… – ela respondeu com hesitação – Isso é apenas uma metáfora. Você não sabe o que é uma metáfora? Bem, quando eu digo que você é uma flor, não quero dizer que você tenha pétalas, folhas e caule, mas que você é uma menina delicada ou sensível, por exemplo. Eu peguei o significado de uma palavra ou de uma expressão e fiz um empréstimo desse significado para outras palavras ou expressões, entende? Logo, uma coisa é colar as palavras com colas invisíveis. Outra coisa, bem diferente, é conseguir entregá-las a um menino desenhado.

– Mas como eu faço isso? Vocês disseram que…

– Ora, construindo imagens também! – algumas vozes disseram juntas.

– Mas a escritora, aquela que só sabe escrever, ela realmente só sabe escrever, ela não sabe desenhar nada, nem um palito de fósforo ela sabe desenhar… – respondi tristemente.

– Ai, ai, ai, como sempre, você reclama demais – a primeira voz repetiu e a chiadeira recomeçou. Todas as vozes diziam shhhh, pedindo silêncio umas às outras. Quanto mais shhhh elas pediam, mais shhhh elas faziam e o barulho crescia ainda mais; quanto mais o barulho crescia, mais shhhh elas pediam e mais shhhh elas faziam…

– Não é isso… – aumentei o tom da voz para que elas me escutassem – é que ela nem se atreve a desenhar. E, se ela tentasse, acho que ela me desenharia tão feia e desengonçada que eu teria até vergonha de me apresentar ao menino do desenho. Ele é tão bonito e colorido!

– Hum, estão vendo só? Ela quer ficar bonitinha para o menino do desenho! Ela quer ficar bonitinha para o menino do desenho! – as vozes começaram a caçoar de mim.

– Ai, parece que você não entendeu nada. – a voz antiga continuou – E se esqueceu de um detalhe muito importante. Tudo bem que você seja uma menina invisível, não tenha os cabelos vermelhos e nem um vestido amarelo e nem esteja desenhada nas páginas deste livro, mas você é uma menina imaginável…

– Como assim? – perguntei confusa.

– Ora, se a moça que não sabe desenhar, escrever que os seus cabelos são esvoaçantes e que o seu vestido é amarelo e que, nesse instante, você está rodando e rodando com ele no ar, o que você acha que as pessoas vão imaginar, senão você com seus cabelos ao vento, rodando com seu vestido amarelo? Nem toda imagem é no papel ou na tela do computador.

Quando as pessoas estão sonhando, pensando, fazendo planos ou mesmo quando elas estão se lembrando de algo que aconteceu com elas… o que você acha que elas estão vendo? – a voz antiga perguntou.
– Imagens… – respondi sorrindo.

– Exatamente! – ela respondeu com entusiasmo – Elas estão vendo imagens também. Agora, você está começando a nos entender! E o que estava escrito na cola de grudar as palavras?

– Metáforas – respondi.

– Pois bem! Agora você já sabe como uma menina invisível pode grudar uma palavra na outra e construir imagens no ar…

– Entendi! Muito obrigada! – eu respondi contente. Então, as vozes emudeceram novamente.

5.

Alguns dias se passaram e o abraço de palavras crescia cada vez mais depressa. Finalmente, eu tinha descoberto que o tamanho da construção não dependia da quantidade de palavras encaixadas, e sim do que a voz antiga costumava chamar de “força das metáforas”. A questão não era mais juntar as palavras sinônimas ou antônimas, que rimassem ou não, mas descobrir imagens inusitadas entre duas palavras diferentes, imagens diferentes, originais.

– Ah, eu já sei! – respondi no primeiro dia – “os seus olhos são duas jaboticabas!”.

– É… – elas disseram sem qualquer entusiasmo – é uma metáfora, sim, mas está meio fraca, né?

– Por que essa metáfora está fraca? – perguntei curiosa.

– Ah, porque essas palavras já foram coladas tantas vezes por outras pessoas que as suas beiradas já ficaram muito gastas. E daí, quando alguém tenta colá-las de novo, elas já não têm mais a mesma força para grudarem umas nas outras, entendeu? – uma das vozes respondeu.

– Ah, entendi… – eu respondi pensativa.

– Mas, se você encontrar duas palavras que nunca foram coladas antes e conseguir passar a cola entre elas, o seu abraço de palavras ficará cada vez mais forte!

– Já sei: “os seus olhos são dois buracos negros. ” Melhorou?

– É, melhorou… – elas responderam – Mas o que você quis dizer com isso?

– Eu queria que os olhos do menino do desenho caíssem no buraco negro dos meus.

– Ah, sim. Agora melhorou. Veja como o abraço está crescendo!

– Espere aí, preciso pensar mais um pouco…

Nesse instante, o chão começou a tremer e uma grande confusão se instaurou entre as vozes. Algumas vozes não paravam de cochichar. Outras gritavam sem parar.

– É a tempestade de ideias, pessoal! Protejam-se! Lá vem a tempestade de ideias! A escritora que está escrevendo essa história deve estar imaginando as coisas! – elas gritavam apavoradas.

– Não falei? – disse uma voz com ares de rabugenta – É o tal do aquecimento mental. A moça que só sabe escrever fica esquentando a cabeça para ter novas ideias originais. Depois, no mundo invisível, é a gente quem sofre as consequências.

– Depressa, não temos tempo para teorias… – a outra voz respondeu.

No instante seguinte, eu já estava no meio da oficina, sozinha, sem saber o que fazer.

– Ei! Onde estão vocês? Não me deixem aqui sozinha! – pedi.

Ah, mas era tarde demais. As palavras começaram a chover dentro da oficina. E caíam com tanta força que o chão foi se enchendo de palavras. Elas iam subindo por minhas canelas. Depois, foram chegando aos meus joelhos, aos meus quadris, cobrindo parte dos meus braços até que eu fiquei com elas até o pescoço. Ergui a cabeça um pouco mais e tentei bater as pernas e os braços, a fim de não me afogar naquele mar de palavras. Um peixinho passou nadando entre as palavras. Eu gritei por socorro, mas ninguém parecia me ouvir. Cheguei a engolir alguns sapos.
Depois de algum tempo, as palavras foram baixando e escapando pelo ralo, até que sobraram só algumas, no abraço em construção. As vozes foram exclamando ó. Tirei algumas palavras que ficaram enganchadas na minha roupa invisível, e, quando olhei para cima, vi que o buraco do teto estava todo iluminado. As vozes cochichavam entre si, perguntando-se o que seria aquilo. Subi os degraus, amassados na parede, enfiei a cabeça no vão do teto e olhei ao redor.

– Essa não… – suspirei.

– O que foi? O que foi que você viu lá fora? – as vozes perguntaram. Voltei em silêncio e não tive coragem de responder.

6.

Eu pensava que todas as oficinas invisíveis fossem mesmo redondas. E que todas as paredes fossem feitas de papel, com várias linhas e entrelinhas na parede. Pensei que em todas elas eu encontraria vozes que ora nos ensinariam a construir um abraço de palavras, ora nos irritariam com suas brincadeiras sem graça. Mas eu nunca imaginei que poderíamos estar num lugar como aquele. Como eu contaria às minhas novas amigas que estávamos jogadas no lixo, dentro de uma bolinha de papel amassado? Como é que eu contaria às minhas novas amigas que tínhamos sido descartadas como uma ideia ruim?

– Que cara é essa? – elas perguntaram – O que foi que você viu lá fora?

O que foi que eu vi? – pensei comigo, enquanto eu descia lentamente os degraus de papel, acoplados na parede – Eu vi uma casca de banana. Vi também alguns papéis de bala. Vi outras bolinhas de papel, todas amassadas, com outras personagens dentro. Algumas, até mais interessantes do que a gente, sabe. Vi alguns rabiscos em outras folhas e até a cabeça de um mosquito. Vi o tapete forrando o quarto da moça que escreve. Vi um par de chinelos, jogado ali perto. E vi os seus pés descalços, coçando as canelas. Vi uma televisão ligada ao longe e outras bolinhas de papel, sendo atiradas perto da gente. Vi também um gato dormindo sobre o tapete. E uma caravana de personagens demitidos, indo embora da história. Mas, principalmente, eu vi que a gente não era tão importante quanto a gente pensava, sabe. Foi só isso o que eu vi lá fora…

– Hein, conte! O que foi que você viu lá fora? – elas voltaram a perguntar.

– Eu? Bem, eu vi… Eu… Eu vi que…

– Anda! Conte o que você viu lá fora! – elas perguntaram ansiosas.

– Bem, eu vi que a menina que só sabe escrever está convocando a nossa ajuda porque, no terceiro desenho, o Caetano está correndo perigo! Ela pediu que eu chamasse todas vocês, imediatamente, pois ela não sabe como pode salvá-lo. Ela contou que, agora mesmo, ele está diante de um dragão furioso, que tem uma cauda enorme e o bafo de pimenta! Muitos desenhos já foram devorados e só sobraram os ossos. Ela ainda disse que o menino do desenho está com muito medo, está paralisado pelo medo, segurando uma espada e um escudo de lata. Ela disse que não sabe mais o que fazer para ajudá-lo! Foi isso o que eu vi lá fora… – menti para as minhas novas amigas.

Então, foi aquele alvoroço! Todas as vozes começaram a convocar uma reunião de emergência.

Olhei para o abraço de palavras e notei que tinha acabado de juntar a palavra mentira na palavra amigo. Já a palavra confiança, que estava na base do abraço, começou a tremer, a construção começou a rachar, mas eu passei várias cordas em volta, sem que as vozes percebessem. Depois, eu amarrei as palavras com bastante força. Eu não sabia até quando as cordas aguentariam. Só sabia que tinha então de agir, junto com todas as vozes, para salvar aquela mentira.

7.

O lixo estava abarrotado de histórias que não deram certo e o nosso pequeno tanque de papel estava na borda, sobre dezenas de outras bolinhas amassadas. Na verdade, nós estávamos quase caindo no chão. Precisávamos escapar dali o mais rápido possível, pois eu bem sabia que, todas as tardes, a moça que escrevia, também separava os seus papéis para a reciclagem. No mundo dela, funcionava do mesmo jeito. Os moradores da rua separavam o lixo e os meninos coletores vinham buscar. Isso significava que, em pouco tempo, eu e as vozes seríamos amassadas e prensadas junto com as outras folhas e poderíamos virar qualquer outro tipo de papel, que em breve ela nos esqueceria.

– O que foi? O que foi que você viu lá fora? – elas perguntaram.

– Eu? Er… eu vi o dragão com sua cauda gosmenta tentando prender o Caetano, o menino do desenho! – eu menti.

– Que nojo mesmo, coitadinho! – uma das vozes exclamou.

Então, o abraço de palavras tremeu em suas bases, a palavra confiança estava quase explodindo, mas as vozes estavam tão preocupadas com o dragão gosmento que não perceberam o estado da construção. Eu me apressei em dizer:

– Por isso, acho melhor levarmos a oficina com a gente e para transformá-la num tanque de guerra!

– Tanque de guerra? Para acabar com um dragão cujo único inconveniente é ter o bafo de pimenta? Mas que exagero! – uma das vozes exclamou – Então é essa a sua política externa? Em vez disso, por que não leva o bicho ao veterinário?

– É verdade – a voz antiga concordou – Além disso, vocês estão se esquecendo de um detalhe muito importante!

– Qual? – perguntei.

– Se, no primeiro desenho, o avião mudou de roda porque não foi desenhado, se o balão precisou desviar de caminho porque não fazia parte do desenho, e se até o pombo correio bateu o bico na borda e caiu, digam-me: o que pode fazer um dragão com a metade do corpo para fora da imagem? Nada. Se no terceiro desenho só existe o seu rabo, é claro que ele não vai soltar as labaredas de pimenta pela boca, né?

– Ixi! Piorou! Piorou mesmo! Vocês pensaram no mesmo que eu pensei? Vamos correr, pessoal! A situação do menino é ainda pior do que eu imaginava. Vamos juntar nossas forças e empurrar as paredes da oficina, para transformá-la num tanque de papel!

– Mas como vamos fazer isso se não temos braços? – uma delas perguntou.

– Ah, vocês nunca ouviram a história dos três porquinhos? Se o lobo derrubou as paredes de madeira com a força do seu sopro, é claro que podemos mover uma bolinha de papel!

– Mover o quê?! – elas perguntaram, desconfiadas. Engoli em seco e incolor.

– Quero dizer: mover um tanque de papel… – sorri nervosamente. Elas me olharam um tanto desconfiadas, mas começaram a assoprar:

– Fuuuuu…. Fuuuuu… Fuuuuu….

Assopraram com tanta força que eu tive de me agarrar às linhas para não voar. No entanto, a bolinha não caía do cesto de lixo de jeito nenhum. Desci do teto e fui acordar algumas vozes dorminhocas, que roncavam sem parar. O ronco era tão forte que, ao inspirarem o ar, anulavam todo o esforço que suas colegas faziam para assoprá-lo. Por isso, a bolinha de papel não se mexia.

– Ora, ora, acordem – chamei uma por uma.

Elas acordaram um tanto envergonhadas e se juntaram ao sopro das outras vozes. – Fuuuuu…. Fuuuuu… Fuuuuu… Fuuuuu… Fuuuuuuuuuuuuu…

Dessa vez, a ventania foi tão forte que o nosso pequeno tanque de papel começou a pender para um dos lados; o abraço de palavras foi deslizando até o canto da oficina, fazendo ainda mais peso para que a bolinha tombasse no chão. Tombou. A moça que escrevia a história olhou para trás e fechou a janela. De certo, pensando que a causa fora a corrente de ar.

Para nós, foi um estrondo. A bolinha caiu no chão e capotou várias vezes. As vozes não paravam de gritar e eu rolei várias vezes, batendo a cabeça nas entrelinhas. Levantei, limpei o vestido invisível e olhei pelo buraco do teto. Através dele, vi os olhos traiçoeiros de um gato malhado. Exclamei:

– Essa não! Coloquem o cinto, pessoal! Lá vem o dragão com bafo de pimenta!

– Poxa, não estou sentindo bafo de pimenta, não, cara – a voz rabugenta contestou – Estou sentindo um bafinho de peixe.

Antes que eu pudesse responder, a bolinha capotou de novo e todas nós gritamos. O gato da moça que escrevia esta história, e que também era brasileiro, começou a jogar futebol com a bolinha de papel. Ele a chutava para todos os lados e, quanto mais a bolinha deslizava sobre o piso, mais o gato corria atrás dela, chutando com uma das patas. Pensei que estivéssemos a salvo quando a bolinha parou embaixo do guarda-roupa. Mas o gato não desistia. Ele enfiava a pata cheia de unhas afiadas, tentando pegar a bolinha de papel. Eu comecei a fazer cara de mau e imitar um cachorro. As vozes cochicharam entre si.

– Acho que a menina invisível não está muito legal. – as vozes riram.

A cada vez que o gato enfiava a pata, suas unhas perfuravam a parede do tanque de papel e a gente gritava.

– Essa não! O dragão deixou as unhas crescerem! – gritei.

O nosso tanque voava para todos os lados, mais parecendo uma nave espacial. Batia nos móveis, batia nas paredes e depois caía no chão. O gato mandou a bolinha para a sala, correu para cá, correu para lá, um chute pela esquerda, outro chute pela direita, desviou-se do vaso, driblou o sofá, um olé no sapato, um olé no chinelo e… goooooooooooooool!!! – Voamos apavoradas pela porta da sala.

A bolinha caiu da escada e continuou rolando os degraus abaixo. Rolou no declive e, logo depois, parou no meio da sala. Lá de cima, o gato exclamou:

– Miaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaau!

As vozes levaram um susto:

– Ué… Mas que diabo de dragão é esse? – as vozes perguntaram desconfiadas – Um dragão que mia?

– Er… é, ué. – gaguejei – Um dragão que mia, ora bolas. Qual o problema? Nunca ou- viram falar, não? Nunca ouviram aquela história que, nesse mundo globalizado, os animais também têm de aprender uma segunda língua estrangeira? Pois então, esse é um dragão que mia, ora essa. Aliás, ele não só mia como também late e cacareja. Ele é um dragão poliglota.

– Ah… – uma boca cochichou com a outra, mas não pude entender o que diziam.
Olhei pelo buraco e vi quando o gato se deitou no tapete da sala e se entregou à preguiça dos gatos.

– Ufa, – suspirei – ele se foi.

– Ora, nós não somos bobas. – a voz antiga continuou – Já deu para perceber que fo- mos descartadas da história e que estamos presas numa bolinha de papel amassado.

– Sabem!? E você diz isso com essa calma? E agora, o que nós vamos fazer? – pergun- tei aflita.

– Nada – ela respondeu.

– Como assim nada? – perguntei.

– Nada. Nós somos personagens, e geralmente as histórias têm um final feliz, especialmente, quando são escritas para as crianças. Além disso, há uma brecha que se forma na intersecção dos dois mundos, quando a criatura reinventa o seu criador. E ninguém tem mais certeza de quem é que está criando quem. Será que quando um menino brinca de boneco, no mundo dos bonecos, o boneco também não está brincando de menino? E quando um escritor escreve uma história? Será que, no mundo dos seus personagens, ele não é escrito de volta por eles? E daí, quando acontece alguma coisa que não estava em seus planos, ele chama aquilo de acaso ou imprevisto? Mas, na verdade, foi a história que os seus personagens escreveram para ele? Será que, ao fazer um desenho, o desenhista não é aprisionado, por um instante, no mundo dos desenhos? – a voz antiga perguntou.

– Não sei se estou entendendo muito bem… – perguntei confusa.

– Bem, até então, você só está fazendo cócegas nas palavras porque está levando tudo ao pé da letra. Construir um abraço de palavras não significa esculpir, literalmente, um abraço de palavras encaixadas, com poucos sentidos entre si. Mas significa escrever uma história e criar um laço invisível entre dois personagens. Afinal, se nós não somos nada além do que alguma parte da escritora, ela também não é mais do que alguma parte dentro de nós. Além disso, se eu fosse você, daria uma olhada lá fora. As paredes da sala onde nós estamos, ou achamos que estamos, também está começando a se amassar…

– E o que isso quer dizer? – perguntei aflita.

– Que até a moça que escreve é uma personagem também. E que acabou de virar uma história que não deu certo. E mais: se eu fosse você, daria uma olhada nas páginas seguintes… – a voz antiga sugeriu.

– O que é que tem lá? – perguntei intrigada.

– Acho que o seu abraço de palavras começou a funcionar. A escritora nos amassou em uma bolinha de papel, mas a desenhista resolveu colocar você nos desenhos. Acho melhor você recomeçar esta história…

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *