A história que não deu certo

rita apoena

1.

Eu sei que vocês estão muito curiosos para saber como eu sou, mas eu não sou. É, eu não sou. E eu vou tentar explicar da melhor maneira possível. Bem… deixe-me ver: eu não tenho os cabelos vermelhos e o meu vestido não é amarelo. Eu não tenho sardas. Eu não uso um aparelho nos dentes. Eu não sou baixinha. Eu não sou banguela. Eu não faço tranças no meu cabelo. Eu não sou magra. Eu não uso óculos. Eu não tenho o nariz arrebitado. Eu não tenho um sinalzinho de nascença na testa. Eu não tenho covinhas nas bochechas. Eu não tenho nada disso. Eu sou só uma menina invisível, o mais invisível que vocês nunca viram. E, agora, eu estou deitada num jardim, olhando para as nuvens do céu. No meio dessas nuvens, que estão desenhadas neste papel, há um menino vestido de super-herói, vocês estão vendo? Pois bem, é aquele ali mesmo. Aquele é o menino do desenho. O nome dele é Caetano.
Eu sei que eu sou apenas uma menina invisível, não tenho poderes mágicos, nem nada, mas eu estou até agora tentando encontrar uma maneira de libertar o Caetano. Afinal, ele sempre está preso num único instante, o instante em que ele foi desenhado.
Estão vendo? Ele não mexe os bracinhos. Ele não mexe as perninhas. Ele não voa e nem dá um giro no ar. Ele não chora nem dá um sorriso. Ele não conversa com a gente. Ele nem sequer pisca os olhinhos. Olhem bem para ele, podem olhar. Ele está sempre do mesmo jeito. Quero dizer: se você virar esta página, ele vai continuar lá, desenhado no meio das nuvens. Se você fechar este livro e abri-lo de novo, ele vai continuar do mesmo jeito, desenhado no meio das nuvens. Se você dormir e acordar no outro dia, ir para a escola, voltar, abrir o livro naquela página, ele vai continuar igualzinho, desenhado no meio das nuvens. Se você for até o final do livro e depois voltar, ele vai estar no mesmo lugar, desenhado no meio das nuvens. Se você virar o livro de cabeça para baixo e chacoalhar as páginas, ele não vai cair nem se mover, ele vai continuar ali, desenhado no meio das nuvens.

Caetano é um menino visível, ou seja, todos podem vê-lo, mas, em compensação, ele está sempre preso dentro daquele desenho, preso num único instante, o instante em que ele foi desenhado. Eu, ao contrário, sou uma menina invisível, ninguém pode me ver nessas páginas, mas eu sou tão livre quanto a sua imaginação. Querem ver? Se eu disser que eu estou usando um vestido amarelo esvoaçante, e que tenho os cabelos vermelhos e bem compridos, também esvoaçantes, e que estou correndo por um campo repleto de girassóis, é exatamente assim que vocês vão me imaginar, não é mesmo? Pois é, eu sou livre, mas o Caetano, o menino do desenho, ele não é.

2.

Ah, vocês não sabem. Aconteceram muitas coisas desde que o Caetano veio parar naquela folha. Certo dia, um balão muito colorido, que subia aquelas nuvens, com dezenas de crianças gritando e chamando, teve de desviar o caminho, pois não fazia parte daquele desenho. Foram barradas na entrada da folha. As crianças tentaram argumentar de várias maneiras, dizendo que tinham um recado muito importante para o Caetano, o menino do desenho, que o recado era urgente, que era questão de vida e morte, mas o moço da segurança não mudou de opinião:

– Não, não, não, deixe-me ver aqui nesta lista… Bem, aqui está escrito que o desenho já foi feito, a folha já foi impressa na gráfica, o livro já está pronto, aguardando os leitores nas prateleiras da estante e, nele, não há nenhum desenho de balão, não. Vocês terão de ir embora desta folha. Eu sinto muito, adeus. Passar bem. – ele disse.

– Mas, como!? – as crianças do balão perguntaram – Nós temos um recado muito importante para entregar ao Caetano, o menino do desenho! Isso pode mudar todo o rumo da história! A história pode até ser uma outra! Deixe-nos entrar nessa folha, por favor! É urgente, Seu Guarda!

– Não, não, não. Eu sinto muito. São as regras dos livros infantis: o que não está escrito, não está escrito; o que não está desenhado, não está desenhado e ponto final. Se querem uma história de balão e aventuras, terão de escrever um outro livro, com as suas próprias palavras. Favor não insistirem. Adeus. Passar bem. – o segurança repetiu. Depois, fez meia-volta e entrou por uma guarita invisível, ao pé desta página. Estão vendo? Não, não estão vendo. A desenhista não a desenhou porque era uma guarita invisível.

Puxa, então, aquele balão tão colorido teve de fazer uma volta e sair desta história. Não, definitivamente, não era a história de crianças voando num balão. Poderia ter sido uma história muito emocionante, cinco semanas dentro de um balão, u-lá-lá, o Caetano entre as crianças, pendurando-se no cesto, quase caindo do céu, agarrando-se nas nuvens e outras aventuras mil, mas o balão não tinha sido desenhado naquela folha. E teve de ir embora deste livro. E teve de ir embora desta história. E a história não ficou tão legal como poderia ter sido. Uma pena, não é mesmo? Pois é, eu também lamentei as escolhas da escritora.

Depois, lá pelas tantas, apareceu um avião teco-teco, soltando fumaça, cruzando os ares da nossa imaginação. Ele trazia uma longa faixa, acoplada às asas, com uma linda declaração de amor para o Caetano, o menino do desenho. Era de emocionar qualquer um, especialmente, os mais românticos. Mas, assim como o balão colorido, ele teve de mudar a rota, pois também não tinha sido desenhado naquela folha.
– Ei, espere um momento! Deixe-me entrar nessa história! – o aviador indignado pedia ao segurança da história – Se eu não entrar naquela folha com o meu avião, o menino do desenho não verá a declaração de amor que eu preciso mostrar para ele. Ele continuará triste. Todos sabem que o amor faz bem a qualquer um. Além disso, veja bem, o serviço já foi contratado por uma admiradora secreta, ela já pagou as parcelas, fez um pix e tudo, eu preciso mostrar a declaração de amor para o Caetano, o menino do desenho. Deixe-me entrar nesta história! É urgente, por favor! Isso pode mudar os rumos da narrativa! Não vê como ele está triste, deprimido? – o aviador implorou.

– Não, não, não, eu sinto muito – o segurança da história respondeu – o desenho já foi feito, e nele não há nenhum avião teco-teco, não. Definitivamente, esta não é uma história romântica, fofinha, de amorzinho, coraçõezinhos espalhados pela página, não. Desde que a escritora foi trocada por uma mulher mais jovem, ela não quer nem ouvir falar de histórias de amor. Acredite em mim: só há um menino vestido de super-herói em meio às nuvens do céu e mais nada. Nenhum balão, nenhum avião teco-teco, nenhum coraçãozinho, nada. Passar bem, adeus. – o segurança respondeu.

– Puxa vida, por essa eu não esperava! – o aviador exclamou cabisbaixo – Se o senhor soubesse como foi complicado chegar até aqui e encontrar o Caetano, o menino do desenho! Eu tive de enfrentar muitos perigos, dragões soltando fogo pelas ventas, querendo queimar as bordas do papel, monstros enganchando-se na contracapa, querendo comer a numeração das páginas, a ira de Zeus e dos outros deuses gregos, os raios e as trovoadas do mundo da imaginação… Foi muito complicado! Além disso, a minha declaração de amor poderia mudar os rumos desta história! Não vê como o Caetano se sente solitário? Não vê como ele está triste? Puxa, agora, eu vou ter de cancelar o serviço para a admiradora secreta, vou ter de fazer uma transferência bancária, ai, ai, ai, vai ser uma complicação danada! Eu nem sei onde guardei o meu cartão do banco… – lamentou o aviador, saindo de fininho desta história.

Mas vocês acham que isso parou por aí? Não, isso não foi tudo, não. Passou algum tempo, veio outra tentativa. Dessa vez, era um pombo-correio, que vinha voando de fora da imagem, voando a toda velocidade, mas quando se aproximava da borda do desenho, ele batia o bico e caía para fora do livro. Era um reboliço, o pombo-correio rolava pelo chão, comia poeira, mas se levantava, chacoalhava as peninhas, ajeitava o corpinho, enrolava o bilhete de volta no bico, abria as asas e levantava o voo. Puxa, ele não desistia! Por várias e várias vezes, ele vinha voando de fora da imagem, batia o bico na borda e caía no chão. Após algumas tentativas, ele já estava meio tonto, mas deixou o bilhetinho flutuando no ar e também foi embora, cabisbaixo. O bilhetinho caiu bem longe deste livro, talvez, no chão de algum outro leitor, talvez, no marcador de página e Caetano não soube o que havia escrito dentro dele. Foi real- mente uma pena. Eu também achei.

– Glu, glu, glu… – o pássaro lamentou baixinho.

Moraes Moreira entrou em contato com o segurança, dizendo que o pombo-correio deveria voar depressa, voar ligeiro para dentro desta história, que ela ficaria muito mais brasileira, muito mais musical, mas o segurança foi implacável:

– Não, não, não. Nem Moraes Moreira nem Michael Jackson podem mudar os rumos desta história. O que está escrito, está escrito! O que está desenhado, está desenhado! Eu sinto muito! – disse o segurança – Nenhum balão, nenhum avião teco-teco, nenhum pombo-cor- reio, nada. Eu sei que o bilhetinho poderia modificar os rumos desta história, mas tudo o que vemos neste livro infantil é um menino vestido de super-herói, no meio das nuvens. São as regras do mercado editorial. Passar bem. Adeus. – ele completou.

E o avião foi tristinho pelos ares, acompanhado ao longe do balão e do pombo-correio. Voaram tão longe que, em pouco tempo, foram esquecidos pela nossa imaginação.

3.

Por tudo isso, Caetano, o menino do desenho, está sempre sozinho no meio daquelas nuvens. Não conversa com ninguém e ninguém conversa com ele. É uma judiação vê-lo desse jeito. Não passa balão, não passa avião, nem pombo-correio, nem Moraes Moreira, nada. Só ele ali, desenhado entre as nuvens. E eu, que sou uma menina invisível, não sei mais o que fazer para ultrapassar a barreira entre os nossos mundos. Eu simplesmente não consigo entrar naquele desenho. Puxa, se as crianças do balão não conseguiram. Se o avião teco-teco também não conseguiu. Se nem o pombo-correio teve sucesso, como é que eu, uma menina invisível, conseguiria chegar até ele? Foi o que passei dias e dias pensando. Até que, numa de minhas viagens ao mundo da imaginação, eu ouvi uma pessoa dizer que uma imagem valia mais do que mil palavras! Vocês já ouviram essa? Pois é.

Então, eu fiquei pensando, pensando muito, fazendo contas na beiradinha do papel, algumas equivalências matemáticas. Se uma imagem valia mais do que mil palavras, então mais de mil palavras equivaliam a uma imagem! É, era isso! Se eu escrevesse mil e uma palavras, eu conseguiria construir uma imagem equivalente! E, se eu conseguisse construir uma imagem equivalente, até que eu não seria tão invisível assim, não é mesmo? “Hum… é alguma possibilidade!”, pensei comigo.

Nossa, mas mil e uma palavras eram palavras que não acabavam mais. Eu teria de trabalhar bastante nesta história. A cada mil palavras que eu escrevesse, a desenhista faria um desenho? Provavelmente, sim. Tudo bem, eu não era preguiçosa: então, arregacei as mangas do meu vestido invisível e decidi enfrentar este grande desafio. Fui para a minha casa invisível, abri a minha oficina invisível, acendi as luzes transparentes e comecei a construir um imenso abraço de palavras. De mil e duas palavras. Para, um dia, entregar ao Caetano, o menino do desenho.

2.

Então, ao abrir a minha oficina invisível, eu tomei um susto com tamanha bagunça! As palavras estavam todas espalhadas pelo chão e, para ler o que estava escrito, eu precisava retirar uma grossa camada de poeira sobre elas. Fazia muito tempo que eu não entrava ali. De repente, eu percebi que a maioria das palavras já tinha caído em desuso, que ninguém as usava mais. Ainda assim, elas ostentavam, com orgulho, alguns acentos fora de moda.

Por isso, depois de algum tempo procurando as palavras, eu cheguei à conclusão de que seria impossível trabalhar naquela desordem. Então, decidi fazer uma grande revisão. Separei as palavras que me seriam úteis daquelas que não me serviriam mais. E, ao final de duas horas, eu já havia separado quatro sacos de lixo para a reciclagem. Como eu não sabia se os coletores ainda levavam palavras escritas com ph, decidi colocá-las num canto. As que estavam quebradas em sílabas, eu as embrulhei várias vezes para que elas não machucassem os coletores. Os coletores eram meninos que sempre recolhiam as palavras da vizinhança, para revender aos homens dos dicionários. Um dos coletores tinha os pensamentos suaves e uma alegria que ninguém via. Certa vez, ele também se machucou com algumas palavras proferidas a ele, e passou vários dias sem recolher as palavras da rua. Quando perguntamos por ele, disseram-nos que as pessoas jogavam os cacos de sílabas diretamente no lixo. E, por isso, os acidentes de trabalho entre eles eram muito frequentes. Então, depois disso, eu nunca mais me esqueci de embrulhar os cacos de palavras e de ser mais suave com tudo o que eu dizia. Algumas palavras podiam ser mesmo cortantes.

Naquele momento, enquanto eu amarrava os últimos sacos de lixo, eu imaginava os pulos de alegria quando os coletores vissem tantas palavras! De certo, poderiam oferecer aos filólogos ou aos homens dos dicionários e, com isso, continuar os seus estudos. Eram tempos muito difíceis para as pessoas do mundo invisível, pois, no mundo dos homens, as pessoas andavam tão ocupadas e apressadas que não tinham mais tempo para a poesia. Com isso, nos últimos anos, os coletores compraram carrinhos invisíveis e viram que o jeito era mesmo catar palavrão.

Com a revisão que eu fiz, tudo ficou um pouco mais organizado, e sobrou bastante espaço por dentro da minha oficina. Perto da janela, amontoei algumas palavras que eu usaria, a fim de enxergá-las melhor. Seria preciso muito cuidado na hora de escolher algumas expressões. Por isso, eu calculei as dimensões do abraço de palavras, o número de encaixes necessários e dei início à minha construção. Puxa, mas eu não imaginava que construir um abraço de palavras fosse algo tão difícil! Primeiro, porque as palavras não vinham perfeitas e eu tinha de observar todas as beiradinhas, para ver se uma se encaixava na outra. Às vezes, eu até conseguia encaixar os pares, mas se eu não tomasse cuidado, eu derrubaria todas as demais. Por exemplo: às vezes, a gente está distraído e encaixa a palavra amigo na palavra mentira. Daí, pronto! A palavra confiança, que estava na base do abraço de palavras, desaba e derruba as demais! E a gente precisa começar tudo de novo! Dessa vez, tentando encaixar a palavra mentira na palavra perdão. E, nossa, como é difícil! Às vezes, elas não se encaixavam de jeito nenhum!

Depois, imagine só encaixar mil e duas palavras sem deixar nenhuma cair! Com medo que a minha construção desabasse de novo, eu só encaixava os sinônimos: carinho com afago, amor com afeição. E eu já estava cansada de tanto juntar e juntar, quando percebi que, dessa maneira, o abraço de palavras não crescia mais. Tentei a palavra “grande” com a palavra “graúdo”. Depois, a palavra “altivo” com a palavra “elevado”. Depois, a palavra “subir” com a palavra “elevar-se”. E nada. A construção não crescia sequer um milímetro. Então, com muito cuidado, eu escolhi duas palavras que, além de sinônimas, rimavam entre si: “altura” e “estatura”. Ah, pronto! Além de não crescer, a construção soltou um suspiro entediado e murchou feito um balão sem gás.

Puxa… que difícil era aquilo! Se eu encaixasse as palavras muito gastas, o abraço só desabava. No entanto, se eu só juntasse as iguais, nenhuma crescia. Tentei mais uma vez e, quando a construção fez sinal de desabar, eu fiquei tão irritada que dei um chute para que ela desabasse de vez… Ops… nesse instante, o abraço de palavras começou a rachar. Algumas palavras caíam por causa dos tremores e os ruídos eram tão fortes que eu me escondi em uma das dobras da oficina invisível. A construção veio abaixo e todas as palavras se espatifaram no chão. Foi um estrondo! As palavras se partiram em milhares de sílabas e só duas ainda rodavam antes de cair. A primeira era “calma”. E a segunda, “paciência”…

3.

– Calma… Hum. Paciência… e quem consegue manter a calma depois de passar o dia inteiro tentando levantar uma construção que desaba a cada cinco minutos? Eu estou tão cansada e a única coisa que eu consegui fazer foi uma bagunça! – eu resmunguei em voz alta.

– Você reclama demais. – uma voz ecoou de dentro das paredes.

– Quem está aí? – perguntei num susto.

– Ora, uma bagunça invisível nem é tanta bagunça assim! – outra voz completou.

– Mas quem são vocês? – perguntei um pouco aflita.

Nenhuma resposta. Olhei em torno e a oficina parecia realmente vazia; no centro, apenas alguns escombros de palavras e uma brisa que entrava pela janela, fazendo algumas sílabas flutuarem.

– Claro que é! – eu respondi – Para uma menina invisível como eu, uma bagunça invisível é muita bagunça, sim!

– É, pode ser… – uma terceira voz respondeu – mas quem manda não colar as palavras?

– Colar as palavras? Como assim? – perguntei sem entender.

– Ai, bobinha. Você passa o dia todo encaixando as palavras umas nas outras, mas se você não cola uma na outra, é claro que elas que vão desabar! As palavras isoladas são soltas, mas para fazerem algum sentido no texto, elas têm de se juntar entre si!
Naquele instante, eu tive a impressão que as paredes da oficina deixaram de ser invisíveis. Ou, então, era eu quem, agora, enxergava e ouvia por suas transparências. Vi o tom amarelado de algumas paredes, preenchidas por linhas horizontais que lembravam as folhas de um imenso caderno. Vi um buraco no teto amassado e tive vontade de subir até lá. Mas as vozes voltaram a falar comigo e eu percebi que elas vinham de dentro das linhas. O espaço entre as linhas era chamado de entrelinhas. Lá, eu guardava todas as coisas que eu queria dizer, mas não dizia diretamente. Era onde eu guardava o significado escondido de algumas palavras. Então, as vozes continuaram:

– … por exemplo, menina: você pega a palavra bola, observa bem as beiradas e encaixa na palavra sabão. Está certo. Só que, lá fora, um menino está jogando futebol e grita: Pedro, chute a bola! Pronto. Lá se foi a palavra bola e todas as que estavam por cima. Palavra sem cola é palavra solta. E todo mundo usa!

– Isso mesmo! Todo mundo usa. Todo mundo usa. – as vozes concordaram.

– Mas como eu vou colar as palavras umas nas outras se elas são invisíveis? – eu perguntei ainda mais intrigada.

– Ora, usando colas invisíveis! Usando colas invisíveis! – elas responderam.

– Uai, e onde eu acho essas colas invisíveis? E mais: que diferença faz colar palavras invisíveis com colas invisíveis? No final das contas, isso é o mesmo que nada, não é? Eu acho que vocês querem me fazer de boba, isso sim! – respondi um pouco irritada.

– Ah, mas isso a gente não precisa fazer não! – e muitas vozes deram risada.

– Silêncio! Deixem-me falar com a menina! – uma voz antiga interrompeu.
Com isso, foi uma chiadeira danada. Todas as vozes diziam shhhh, pedindo silêncio umas às outras. Quanto mais shhhh elas pediam, mais shhhh elas faziam e o barulho crescia ainda mais. Quanto mais o barulho crescia, mais shhhh elas pediam e mais shhhh elas faziam também… Ao final de alguns segundos, havia uma grande gritaria na oficina invisível.

– Silêncio, por favor! – a voz antiga tornou a pedir e, dessa vez, as outras obedeceram.

– Está vendo aquelas linhas desenhadas nas paredes da oficina, menina? São como pequenas prateleiras. Entre elas nós guardamos uma cola de colar as palavras. É transparente e cola com tanta aderência que nem todo mundo consegue enxergar as emendas. Sempre que você encaixar uma palavra na outra, passe um pouco daquela cola nas entrelinhas.

– Só isso? – perguntei.

– Sim, só isso. Não é nada difícil. Mas, diga-me, por que você quer construir um abraço de palavras? – a voz antiga perguntou.

– Porque eu quero entregar um abraço de palavras para o Caetano, o menino do desenho! – eu respondi.

– E por que você quer entregar um abraço de palavras para ele? – ela parecia ainda mais intrigada.

– Porque é a única maneira de entrar naquele desenho. Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras. Então, mil e uma palavra valem um desenho. E, tudo isso, para que ele não se sinta tão sozinho. – eu respondi um pouco sem jeito.

– E como você vai fazer isso? – ela perguntou.

– Eu ainda não sei direito, pois diversas pessoas do meu mundo já tentaram cruzar a fronteira e não conseguiram: um balão repleto de crianças, um avião teco-teco com uma linda declaração de amor e até um pombo-correio… Nenhuma conseguiu atravessar os mundos. Mas eu acho que não posso desistir agora. – respondi.

– Por quê? – ela insistiu.

– Porque eu tenho a leve impressão que, no último desenho, ele também tentou falar comigo. – eu gaguejei.

– E o que você disse a ele? – ela perguntou curiosa.

– Nada… – eu respondi.

Então, ao virar a página, apareceu um segundo desenho na história. Era o Caetano, sentado sobre um ponto de interrogação, tentando se comunicar com alguém através de um telefone de lata, amarrado a uma estrela do céu. Pensando que era comigo, eu tentei responder bem alto! O mais depressa que eu pude! Mas é claro que ele não poderia me ouvir. Afinal, ele estava preso no instante em que fez a pergunta, não podendo ouvir a resposta que eu dei no instante seguinte. Neste segundo desenho, ele nunca ouvirá a minha resposta, pois o desenho é em si uma eterna pergunta. Então, eu bem que tentei descer pelas cordas invisíveis que a desenhista amarrou nas estrelas, mas eu também não consegui. Do mesmo jeito que, no primeiro desenho, o balão teve de desviar o caminho e o avião mudar de rota… eu não pude descer pelas cordas, pois eu não fazia parte daquele desenho…

– Ah! Mas é claro que você faz parte deste desenho! – a voz exclamou.

– Não, eu não faço. Se eu fizesse, estaria com o menino do desenho, ora bolas! – respondi confusa.

– Ai, ai, ai, ela ainda não entendeu! Ela ainda não entendeu! – as vozes disseram impacientes.

– O que eu ainda não entendi? – perguntei confusa. Então, as vozes emudeceram.

– Olha, eu acho que vocês não enxergam. – eu respondi – É, é claro que vocês não enxergam, vocês são vozes invisíveis e não olhos. Mas, se fosse assim, vocês também não escutariam. Afinal, vocês são vozes e não ouvidos. Mas, eu não sei como, vocês escutam e enxergam e respondem e sabem das coisas bem mais do que eu! Será que eu estou escutando vozes porque estou ficando louca? Pois, então, como vocês podem dizer que eu faço parte daquele desenho? Será que vocês estão cegas? Será que vocês não veem que, no segundo desenho, só tem o Caetano e meia dúzia de estrelas penduradas? Além disso, como eu faria parte de algum desenho se eu sou apenas uma menina invisível?

– Ora, ora – e uma das vozes suspirou – mas é por isso, mesmo! Se você é uma menina invisível você pode fazer parte de qualquer desenho! Assim como nós também podemos.

– Não, é o contrário: por ser uma menina invisível, eu não posso fazer parte de nenhum! – eu respondi.

Ao olhar pela janela invisível, eu vi o pombo-correio com o bico engessado. Ele acenou para mim e saiu voando para outros mundos invisíveis.

– Ai, você e essa mania de achar que um desenho termina nas bordas. – a voz antiga continuou – Então, você acha que um poema termina nas palavras que foram escritas? É isso mesmo que você acha? Parece que você só consegue enxergar o que está ali, dentro de um quadrado, feito um bando de cavalos usando aquelas viseiras! Se você acha que nem faz parte deste desenho, não me admira que também não saiba colar as palavras! – ela exclamou um pouco contrariada.

– Mas o que uma coisa tem a ver com a outra? – eu perguntei confusa.

– Tudo! – ela respondeu já um pouco sem paciência – Se você não sabe enxergar o que está desenhado além das bordas de um desenho, por que saberia dizer o que está escrito nas entrelinhas de um poema? Ou de uma história? O que está escondido por trás das palavras? – ela perguntou devagar.

Abaixei a cabeça, um pouco envergonhada. Ela tinha razão: eu não estava buscando os significados ocultos das palavras, eu estava buscando apenas as palavras explícitas em algumas frases. Então, dei alguns passos em volta, enquanto percorria os dedos nas prateleiras da parede invisível. Peguei um tubo de cola, também invisível, e perguntei:

– Mas é só isso? Se eu colar as palavras com essa cola invisível, eu consigo entregá-las ao Caetano, o menino do desenho? – eu perguntei meio sem jeito.

– Não, não é bem assim… – ela respondeu com hesitação – Isso é apenas uma metáfora. Você não sabe o que é uma metáfora? Bem, quando eu digo que você é uma flor, não quero dizer que você tenha pétalas, folhas e caule, mas que você é uma menina delicada ou sensível, por exemplo. Eu peguei o significado de uma palavra ou de uma expressão e fiz um empréstimo desse significado para outras palavras ou expressões, entende? Logo, uma coisa é colar as palavras com colas invisíveis. Outra coisa, bem diferente, é conseguir entregá-las a um menino desenhado.

– Mas como eu faço isso? Vocês disseram que…

– Ora, construindo imagens também! – algumas vozes disseram juntas.

– Mas a escritora, aquela que só sabe escrever, ela realmente só sabe escrever, ela não sabe desenhar nada, nem um palito de fósforo ela sabe desenhar… – respondi tristemente.

– Ai, ai, ai, como sempre, você reclama demais – a primeira voz repetiu e a chiadeira recomeçou. Todas as vozes diziam shhhh, pedindo silêncio umas às outras. Quanto mais shhhh elas pediam, mais shhhh elas faziam e o barulho crescia ainda mais; quanto mais o barulho crescia, mais shhhh elas pediam e mais shhhh elas faziam…

– Não é isso… – aumentei o tom da voz para que elas me escutassem – é que ela nem se atreve a desenhar. E, se ela tentasse, acho que ela me desenharia tão feia e desengonçada que eu teria até vergonha de me apresentar ao menino do desenho. Ele é tão bonito e colorido!

– Hum, estão vendo só? Ela quer ficar bonitinha para o menino do desenho! Ela quer ficar bonitinha para o menino do desenho! – as vozes começaram a caçoar de mim.

– Ai, parece que você não entendeu nada. – a voz antiga continuou – E se esqueceu de um detalhe muito importante. Tudo bem que você seja uma menina invisível, não tenha os cabelos vermelhos e nem um vestido amarelo e nem esteja desenhada nas páginas deste livro, mas você é uma menina imaginável…

– Como assim? – perguntei confusa.

– Ora, se a moça que não sabe desenhar, escrever que os seus cabelos são esvoaçantes e que o seu vestido é amarelo e que, nesse instante, você está rodando e rodando com ele no ar, o que você acha que as pessoas vão imaginar, senão você com seus cabelos ao vento, rodando com seu vestido amarelo? Nem toda imagem é no papel ou na tela do computador.

Quando as pessoas estão sonhando, pensando, fazendo planos ou mesmo quando elas estão se lembrando de algo que aconteceu com elas… o que você acha que elas estão vendo? – a voz antiga perguntou.
– Imagens… – respondi sorrindo.

– Exatamente! – ela respondeu com entusiasmo – Elas estão vendo imagens também. Agora, você está começando a nos entender! E o que estava escrito na cola de grudar as palavras?

– Metáforas – respondi.

– Pois bem! Agora você já sabe como uma menina invisível pode grudar uma palavra na outra e construir imagens no ar…

– Entendi! Muito obrigada! – eu respondi contente. Então, as vozes emudeceram novamente.

5.

Alguns dias se passaram e o abraço de palavras crescia cada vez mais depressa. Finalmente, eu tinha descoberto que o tamanho da construção não dependia da quantidade de palavras encaixadas, e sim do que a voz antiga costumava chamar de “força das metáforas”. A questão não era mais juntar as palavras sinônimas ou antônimas, que rimassem ou não, mas descobrir imagens inusitadas entre duas palavras diferentes, imagens diferentes, originais.

– Ah, eu já sei! – respondi no primeiro dia – “os seus olhos são duas jaboticabas!”.

– É… – elas disseram sem qualquer entusiasmo – é uma metáfora, sim, mas está meio fraca, né?

– Por que essa metáfora está fraca? – perguntei curiosa.

– Ah, porque essas palavras já foram coladas tantas vezes por outras pessoas que as suas beiradas já ficaram muito gastas. E daí, quando alguém tenta colá-las de novo, elas já não têm mais a mesma força para grudarem umas nas outras, entendeu? – uma das vozes respondeu.

– Ah, entendi… – eu respondi pensativa.

– Mas, se você encontrar duas palavras que nunca foram coladas antes e conseguir passar a cola entre elas, o seu abraço de palavras ficará cada vez mais forte!

– Já sei: “os seus olhos são dois buracos negros. ” Melhorou?

– É, melhorou… – elas responderam – Mas o que você quis dizer com isso?

– Eu queria que os olhos do menino do desenho caíssem no buraco negro dos meus.

– Ah, sim. Agora melhorou. Veja como o abraço está crescendo!

– Espere aí, preciso pensar mais um pouco…

Nesse instante, o chão começou a tremer e uma grande confusão se instaurou entre as vozes. Algumas vozes não paravam de cochichar. Outras gritavam sem parar.

– É a tempestade de ideias, pessoal! Protejam-se! Lá vem a tempestade de ideias! A escritora que está escrevendo essa história deve estar imaginando as coisas! – elas gritavam apavoradas.

– Não falei? – disse uma voz com ares de rabugenta – É o tal do aquecimento mental. A moça que só sabe escrever fica esquentando a cabeça para ter novas ideias originais. Depois, no mundo invisível, é a gente quem sofre as consequências.

– Depressa, não temos tempo para teorias… – a outra voz respondeu.

No instante seguinte, eu já estava no meio da oficina, sozinha, sem saber o que fazer.

– Ei! Onde estão vocês? Não me deixem aqui sozinha! – pedi.

Ah, mas era tarde demais. As palavras começaram a chover dentro da oficina. E caíam com tanta força que o chão foi se enchendo de palavras. Elas iam subindo por minhas canelas. Depois, foram chegando aos meus joelhos, aos meus quadris, cobrindo parte dos meus braços até que eu fiquei com elas até o pescoço. Ergui a cabeça um pouco mais e tentei bater as pernas e os braços, a fim de não me afogar naquele mar de palavras. Um peixinho passou nadando entre as palavras. Eu gritei por socorro, mas ninguém parecia me ouvir. Cheguei a engolir alguns sapos.
Depois de algum tempo, as palavras foram baixando e escapando pelo ralo, até que sobraram só algumas, no abraço em construção. As vozes foram exclamando ó. Tirei algumas palavras que ficaram enganchadas na minha roupa invisível, e, quando olhei para cima, vi que o buraco do teto estava todo iluminado. As vozes cochichavam entre si, perguntando-se o que seria aquilo. Subi os degraus, amassados na parede, enfiei a cabeça no vão do teto e olhei ao redor.

– Essa não… – suspirei.

– O que foi? O que foi que você viu lá fora? – as vozes perguntaram. Voltei em silêncio e não tive coragem de responder.

6.

Eu pensava que todas as oficinas invisíveis fossem mesmo redondas. E que todas as paredes fossem feitas de papel, com várias linhas e entrelinhas na parede. Pensei que em todas elas eu encontraria vozes que ora nos ensinariam a construir um abraço de palavras, ora nos irritariam com suas brincadeiras sem graça. Mas eu nunca imaginei que poderíamos estar num lugar como aquele. Como eu contaria às minhas novas amigas que estávamos jogadas no lixo, dentro de uma bolinha de papel amassado? Como é que eu contaria às minhas novas amigas que tínhamos sido descartadas como uma ideia ruim?

– Que cara é essa? – elas perguntaram – O que foi que você viu lá fora?

O que foi que eu vi? – pensei comigo, enquanto eu descia lentamente os degraus de papel, acoplados na parede – Eu vi uma casca de banana. Vi também alguns papéis de bala. Vi outras bolinhas de papel, todas amassadas, com outras personagens dentro. Algumas, até mais interessantes do que a gente, sabe. Vi alguns rabiscos em outras folhas e até a cabeça de um mosquito. Vi o tapete forrando o quarto da moça que escreve. Vi um par de chinelos, jogado ali perto. E vi os seus pés descalços, coçando as canelas. Vi uma televisão ligada ao longe e outras bolinhas de papel, sendo atiradas perto da gente. Vi também um gato dormindo sobre o tapete. E uma caravana de personagens demitidos, indo embora da história. Mas, principalmente, eu vi que a gente não era tão importante quanto a gente pensava, sabe. Foi só isso o que eu vi lá fora…

– Hein, conte! O que foi que você viu lá fora? – elas voltaram a perguntar.

– Eu? Bem, eu vi… Eu… Eu vi que…

– Anda! Conte o que você viu lá fora! – elas perguntaram ansiosas.

– Bem, eu vi que a menina que só sabe escrever está convocando a nossa ajuda porque, no terceiro desenho, o Caetano está correndo perigo! Ela pediu que eu chamasse todas vocês, imediatamente, pois ela não sabe como pode salvá-lo. Ela contou que, agora mesmo, ele está diante de um dragão furioso, que tem uma cauda enorme e o bafo de pimenta! Muitos desenhos já foram devorados e só sobraram os ossos. Ela ainda disse que o menino do desenho está com muito medo, está paralisado pelo medo, segurando uma espada e um escudo de lata. Ela disse que não sabe mais o que fazer para ajudá-lo! Foi isso o que eu vi lá fora… – menti para as minhas novas amigas.

Então, foi aquele alvoroço! Todas as vozes começaram a convocar uma reunião de emergência.

Olhei para o abraço de palavras e notei que tinha acabado de juntar a palavra mentira na palavra amigo. Já a palavra confiança, que estava na base do abraço, começou a tremer, a construção começou a rachar, mas eu passei várias cordas em volta, sem que as vozes percebessem. Depois, eu amarrei as palavras com bastante força. Eu não sabia até quando as cordas aguentariam. Só sabia que tinha então de agir, junto com todas as vozes, para salvar aquela mentira.

7.

O lixo estava abarrotado de histórias que não deram certo e o nosso pequeno tanque de papel estava na borda, sobre dezenas de outras bolinhas amassadas. Na verdade, nós estávamos quase caindo no chão. Precisávamos escapar dali o mais rápido possível, pois eu bem sabia que, todas as tardes, a moça que escrevia, também separava os seus papéis para a reciclagem. No mundo dela, funcionava do mesmo jeito. Os moradores da rua separavam o lixo e os meninos coletores vinham buscar. Isso significava que, em pouco tempo, eu e as vozes seríamos amassadas e prensadas junto com as outras folhas e poderíamos virar qualquer outro tipo de papel, que em breve ela nos esqueceria.

– O que foi? O que foi que você viu lá fora? – elas perguntaram.

– Eu? Er… eu vi o dragão com sua cauda gosmenta tentando prender o Caetano, o menino do desenho! – eu menti.

– Que nojo mesmo, coitadinho! – uma das vozes exclamou.

Então, o abraço de palavras tremeu em suas bases, a palavra confiança estava quase explodindo, mas as vozes estavam tão preocupadas com o dragão gosmento que não perceberam o estado da construção. Eu me apressei em dizer:

– Por isso, acho melhor levarmos a oficina com a gente e para transformá-la num tanque de guerra!

– Tanque de guerra? Para acabar com um dragão cujo único inconveniente é ter o bafo de pimenta? Mas que exagero! – uma das vozes exclamou – Então é essa a sua política externa? Em vez disso, por que não leva o bicho ao veterinário?

– É verdade – a voz antiga concordou – Além disso, vocês estão se esquecendo de um detalhe muito importante!

– Qual? – perguntei.

– Se, no primeiro desenho, o avião mudou de roda porque não foi desenhado, se o balão precisou desviar de caminho porque não fazia parte do desenho, e se até o pombo correio bateu o bico na borda e caiu, digam-me: o que pode fazer um dragão com a metade do corpo para fora da imagem? Nada. Se no terceiro desenho só existe o seu rabo, é claro que ele não vai soltar as labaredas de pimenta pela boca, né?

– Ixi! Piorou! Piorou mesmo! Vocês pensaram no mesmo que eu pensei? Vamos correr, pessoal! A situação do menino é ainda pior do que eu imaginava. Vamos juntar nossas forças e empurrar as paredes da oficina, para transformá-la num tanque de papel!

– Mas como vamos fazer isso se não temos braços? – uma delas perguntou.

– Ah, vocês nunca ouviram a história dos três porquinhos? Se o lobo derrubou as paredes de madeira com a força do seu sopro, é claro que podemos mover uma bolinha de papel!

– Mover o quê?! – elas perguntaram, desconfiadas. Engoli em seco e incolor.

– Quero dizer: mover um tanque de papel… – sorri nervosamente. Elas me olharam um tanto desconfiadas, mas começaram a assoprar:

– Fuuuuu…. Fuuuuu… Fuuuuu….

Assopraram com tanta força que eu tive de me agarrar às linhas para não voar. No entanto, a bolinha não caía do cesto de lixo de jeito nenhum. Desci do teto e fui acordar algumas vozes dorminhocas, que roncavam sem parar. O ronco era tão forte que, ao inspirarem o ar, anulavam todo o esforço que suas colegas faziam para assoprá-lo. Por isso, a bolinha de papel não se mexia.

– Ora, ora, acordem – chamei uma por uma.

Elas acordaram um tanto envergonhadas e se juntaram ao sopro das outras vozes. – Fuuuuu…. Fuuuuu… Fuuuuu… Fuuuuu… Fuuuuuuuuuuuuu…

Dessa vez, a ventania foi tão forte que o nosso pequeno tanque de papel começou a pender para um dos lados; o abraço de palavras foi deslizando até o canto da oficina, fazendo ainda mais peso para que a bolinha tombasse no chão. Tombou. A moça que escrevia a história olhou para trás e fechou a janela. De certo, pensando que a causa fora a corrente de ar.

Para nós, foi um estrondo. A bolinha caiu no chão e capotou várias vezes. As vozes não paravam de gritar e eu rolei várias vezes, batendo a cabeça nas entrelinhas. Levantei, limpei o vestido invisível e olhei pelo buraco do teto. Através dele, vi os olhos traiçoeiros de um gato malhado. Exclamei:

– Essa não! Coloquem o cinto, pessoal! Lá vem o dragão com bafo de pimenta!

– Poxa, não estou sentindo bafo de pimenta, não, cara – a voz rabugenta contestou – Estou sentindo um bafinho de peixe.

Antes que eu pudesse responder, a bolinha capotou de novo e todas nós gritamos. O gato da moça que escrevia esta história, e que também era brasileiro, começou a jogar futebol com a bolinha de papel. Ele a chutava para todos os lados e, quanto mais a bolinha deslizava sobre o piso, mais o gato corria atrás dela, chutando com uma das patas. Pensei que estivéssemos a salvo quando a bolinha parou embaixo do guarda-roupa. Mas o gato não desistia. Ele enfiava a pata cheia de unhas afiadas, tentando pegar a bolinha de papel. Eu comecei a fazer cara de mau e imitar um cachorro. As vozes cochicharam entre si.

– Acho que a menina invisível não está muito legal. – as vozes riram.

A cada vez que o gato enfiava a pata, suas unhas perfuravam a parede do tanque de papel e a gente gritava.

– Essa não! O dragão deixou as unhas crescerem! – gritei.

O nosso tanque voava para todos os lados, mais parecendo uma nave espacial. Batia nos móveis, batia nas paredes e depois caía no chão. O gato mandou a bolinha para a sala, correu para cá, correu para lá, um chute pela esquerda, outro chute pela direita, desviou-se do vaso, driblou o sofá, um olé no sapato, um olé no chinelo e… goooooooooooooool!!! – Voamos apavoradas pela porta da sala.

A bolinha caiu da escada e continuou rolando os degraus abaixo. Rolou no declive e, logo depois, parou no meio da sala. Lá de cima, o gato exclamou:

– Miaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaau!

As vozes levaram um susto:

– Ué… Mas que diabo de dragão é esse? – as vozes perguntaram desconfiadas – Um dragão que mia?

– Er… é, ué. – gaguejei – Um dragão que mia, ora bolas. Qual o problema? Nunca ou- viram falar, não? Nunca ouviram aquela história que, nesse mundo globalizado, os animais também têm de aprender uma segunda língua estrangeira? Pois então, esse é um dragão que mia, ora essa. Aliás, ele não só mia como também late e cacareja. Ele é um dragão poliglota.

– Ah… – uma boca cochichou com a outra, mas não pude entender o que diziam.
Olhei pelo buraco e vi quando o gato se deitou no tapete da sala e se entregou à preguiça dos gatos.

– Ufa, – suspirei – ele se foi.

– Ora, nós não somos bobas. – a voz antiga continuou – Já deu para perceber que fo- mos descartadas da história e que estamos presas numa bolinha de papel amassado.

– Sabem!? E você diz isso com essa calma? E agora, o que nós vamos fazer? – pergun- tei aflita.

– Nada – ela respondeu.

– Como assim nada? – perguntei.

– Nada. Nós somos personagens, e geralmente as histórias têm um final feliz, especialmente, quando são escritas para as crianças. Além disso, há uma brecha que se forma na intersecção dos dois mundos, quando a criatura reinventa o seu criador. E ninguém tem mais certeza de quem é que está criando quem. Será que quando um menino brinca de boneco, no mundo dos bonecos, o boneco também não está brincando de menino? E quando um escritor escreve uma história? Será que, no mundo dos seus personagens, ele não é escrito de volta por eles? E daí, quando acontece alguma coisa que não estava em seus planos, ele chama aquilo de acaso ou imprevisto? Mas, na verdade, foi a história que os seus personagens escreveram para ele? Será que, ao fazer um desenho, o desenhista não é aprisionado, por um instante, no mundo dos desenhos? – a voz antiga perguntou.

– Não sei se estou entendendo muito bem… – perguntei confusa.

– Bem, até então, você só está fazendo cócegas nas palavras porque está levando tudo ao pé da letra. Construir um abraço de palavras não significa esculpir, literalmente, um abraço de palavras encaixadas, com poucos sentidos entre si. Mas significa escrever uma história e criar um laço invisível entre dois personagens. Afinal, se nós não somos nada além do que alguma parte da escritora, ela também não é mais do que alguma parte dentro de nós. Além disso, se eu fosse você, daria uma olhada lá fora. As paredes da sala onde nós estamos, ou achamos que estamos, também está começando a se amassar…

– E o que isso quer dizer? – perguntei aflita.

– Que até a moça que escreve é uma personagem também. E que acabou de virar uma história que não deu certo. E mais: se eu fosse você, daria uma olhada nas páginas seguintes… – a voz antiga sugeriu.

– O que é que tem lá? – perguntei intrigada.

– Acho que o seu abraço de palavras começou a funcionar. A escritora nos amassou em uma bolinha de papel, mas a desenhista resolveu colocar você nos desenhos. Acho melhor você recomeçar esta história…

Olhos de botãozinho

rita apoena

1.

Olha, o menu nome é Mimo, mas eu vou logo avisando: é melhor você não me chamar de Mimo porque Mimo é um nome muito florzinha. Toda vez que me chamam de Mimo eu fico meio nervoso. Eu gostaria de me chamar Valentim, ser o maior valentão da caixa de brinquedos e ter umas luzes de neon que amedrontassem todos os meus inimigos, mas eu só tenho esse algodãozinho por dentro. Para ser sincero, eu detesto ser fofinho. Hoje, a vovó que me costurou disse assim:

– Ah, deixa de ser bobo, Mimo, você não tem inimigo nenhum, só os que você inventa na sua imaginação…


Quando ela disse isso, eu fiquei ainda mais nervoso. Eu não retruquei nem nada porque a vovó sempre foi muito legal comigo e porque ela já tem a idade avançada, sabe como é, o melhor é deixá-la tranquila, né? Eu acho até que ela veste aquelas roupas de pano só para compreender os bonecos que ela costura. Hoje, ela me contou muitas histórias sobre o mundo e me aconchegou em seus braços quando eu fiquei triste.

2.
Ah, quer saber? Há várias coisas no mundo com as quais eu não concordo, mas eu sou só um boneco de pano e bonecos de pano não conseguem protestar muito bem: a gente não pode erguer umas faixas, fazer uns abaixo-assinados, participar de passeatas ou enviar uns e-mails para as autoridades competentes porque a gente não consegue nem se mexer sozinhos…


Ah, você não sabe o que é um e-mail, né? Eu também não sei muito bem, mas eu acho que um e-mail é uma cartinha azul selada com um olho que não para de piscar. Se quem receber essa cartinha estiver aberto, o olho também se abre, e a pessoa compreende todas as palavras, inclusive as mais tímidas, escondidas nas entrelinhas. Mas se, naquele dia, a pessoa que recebê-la estiver fechada, o e-mail vai apenas dizer: “Não perca esta promoção, jogos de videogame com cinquenta por cento de desconto.” Pelo que eu entendi, é mais ou menos assim, mas os bonecos não conseguem enviar esses e-mails como as pessoas o fazem. A gente fica lá, sentado sobre o sofá ou sobre a estante, pensando muito na vida. Foi o que eu fiz hoje o dia inteiro. Aliás, pensar é a coisa que eu mais faço por aqui.

3.

Além das crianças que vêm me visitar, a única pessoa que me entende é a vovó. Hoje, ela olhou para mim e, simplesmente, soube o que eu queria dizer. Quando ela me costurou, ela me fez com esses cabelos de lã, bem pretinhos, o corpinho todo marrom e me encheu de paina por dentro. E me fez com os braços tão compridos que eu alcanço até o sozinho. Depois, vestiu em mim essa blusinha verde, essa calça azul e me calçou com esses sapatinhos vermelhos, de cadarço. A vovó deve pensar que eu sou meio esquecido e que eu me esqueço até das bandas do meu próprio corpo. Por isso, ela me vestiu com essas tiras de suspensórios. Eu acho que os suspensórios são como uma bolsa em que eu carrego a bunda e que estão super fora de moda, mas eu não disse nada para ela não ficar chateada, né? Sabe como é, ela costurou tudo com tanto carinho!

De qualquer modo, ela me virou de um lado ao outro e disse: – Puxa vida, Mimo, você é um boneco muito bonito!

Ah, eu queria que as outras bonecas também me achassem bonitão e tal, um galã de desenho animado, mas eu não tenho muita sorte com elas. Elas estão mais interessadas no boneco Ken porque ele é todo musculoso e bronzeado, sabe como é. Ao menos, a vovó me acha um pitelzinho, né?

A vovó também é muito bonita: ela tem os cabelos todos branquinhos, amarrados num coque, no topo da cabeça, usa uns óculos na ponta do nariz e veste uns vestidos bem floridos. Sabe o que eu reparei? Ela tem um jeito diferente de andar. Não é com pressa, feito as pessoas que pisam afobadas, sem consideração pelas coisas pequenas. A vovó, não. Antes de pisar, é como se ela pedisse licença: um passinho depois do outro, bem devagarinho, respeitando a preferência das formigas e dos tatuzinhos. Nem ela pisa nas baratas, nem as baratas pisam em cima dela. Todas têm muito respeito no andar. Ah, eu sei que eu sou só um boneco de pano, mas eu reparo em tudo isso. Cada um na natureza tem o seu jeito de andar: o tatu-bola dando cambalhotas no chão, a aranha pendurada nas teias, a minhoca mergulhando na terra, o gato pulando na estante, a borboleta com as asas no vento. Cada um tem o seu modo, né? E o da vovó é tão sem pressa que até dá tempo para a formiguinha passar…

4.

Eu só sei que, desde que a vovó me costurou, eu vivo dentro dessa caixa de brinquedos, no consultório do Gilberto, o seu filho. Gilberto é um psicólogo que atende as crianças. Ele é alto, barbudo e tem uns olhos bem azuis. Eu não sei muito bem, mas eu acho que todo psicólogo é um fugitivo de um disco voador que, ao abrir a caixa de brinquedos, faz cada pergunta às crianças que nem os próprios bonecos sabem responder. Eu acho que é isso, mas hoje a vovó me disse que o psicólogo é alguém que ajuda as pessoas que estão sofrendo por algum motivo. Ele conversa muito com elas, muito mesmo, até descobrir o que as deixa aflitas ou preocupadas. Então, elas falam, falam, falam até se sentirem mais aliviadas, entendeu?
Mas, com as crianças, é um pouquinho diferente. É com as brincadeiras e os jogos que o Gilberto ajuda os pequenos, a vovó me contou. Elas vêm até o consultório, trazidas por seus pais, e aqui elas brincam, desenham, pintam, recortam figurinhas, jogam jogos variados etc. A partir dessas brincadeiras, o Gilberto descobre as dificuldades pelas quais as crianças estão passando e as ajuda a superar essas dificuldades. Algumas têm medo do bicho-papão. Outras ainda fazem pipi nas calças. Outras não gostam de ir à escola ou de tomar banho. Outras brigam muito com os seus coleguinhas. Outras apanharam na rua ou foram ridicularizadas na escola. Outras têm medo de perder os seus pais ou os seus bichinhos de estimação, e por aí vai.

Você sabe: não é nada fácil ser uma criança, né? As crianças vêm ao mundo, sem sabe- rem de nada e, aos poucos, elas têm de aprender de tudo, desde como se diz “mamãe” e “papai”, até mesmo como fazer cocô no peniquinho ou escrever a palavra “paralelepípedo”. Olha, é complicado, não é? Mas a vovó me disse que tudo fica mais fácil quando se tem o amor. Algumas vezes, eu acho que o amor é o par de meias macias que uma pessoa estende à outra quando percebe que os pezinhos dela estão esfriando. Outras vezes, eu acho que o amor é um desenho que as crianças fazem no caderno sobre um monstro aterrorizante, tão aterrorizante que, ao virarmos a folha, ele está segurando uma flor. Eu não sei muito bem, mas eu acho que é mais ou menos isso.

5.

Bem, mas comigo não é diferente, não. Desde que a vovó me costurou, eu estou aprendendo de tudo: o que são as crianças, por que elas nascem pequenas e vão crescendo, por que o dia começa claro e vai escurecendo, por que os passarinhos ficam bicando as nuvens até derramarem a chuva por cima de nós, por que as nuvens aparecem e somem, por que as pessoas e os bichinhos não vivem para sempre, por que as árvores não se deitam no chão, por que sai caquinha do nariz das crianças, por que os gatos não falam português ou espanhol, como tudo funciona etc. E, cá entre nós, eu achei o mundo bem esquisito, bem esquisito, mesmo.
Hoje, por exemplo, eu fiquei pensando: se as plantinhas bebem tanta água por que é que elas não fazem xixi, hein? Ah, sei lá, acho que seria muito estranho, né? Às vezes, quando alguém me coloca sentado naquela janela, eu vejo uma montanha toda cheia de árvores. Se todas aquelas árvores fizessem xixi, o rio que corre ali embaixo seria um pipi só, já pensou que fedor? Ah, os peixes não iriam aguentar, não. Não seria um bom lugar para os peixes viverem,

não, nem para os jacarés. Acho que o criador do mundo, quando percebeu isso, acabou mudando de ideia, contando que ninguém perceberia, né? Ah, mas eu percebi que as plantinhas são diferentes, você também percebeu? Pois é. São nessas coisas que eu fico pensando o dia todo…

6.

Olha, também não é nada fácil ser um boneco, sabia? Algumas vezes, como hoje à tarde, eu gostaria de me levantar daqui e sair correndo para bem longe, mas eu não consigo me mover. Eu tenho de esperar a vovó ou alguma criança me levar para um outro lugar. Outras vezes, eu não queria mais brincar, queria ir para a caixa de brinquedos e ficar lá quietinho, tirar um cochilo ou assistir ao Fantástico Mundo de Bobby na televisão, mas eu tenho de brincar até as crianças enjoarem da brincadeira. E elas só se cansam depois de um tempão! Elas me fazem dizer certas coisas, de mentirinha, e depois me lançam pelos ares. Ah, eu não gosto de falar coisas de mentirinha porque o Monstro Subterrâneo adora pegar os bonecos mentirosos, sabia? A vovó me disse que ele não existe e que o único boneco mentiroso no mundo era o Pinóquio, aquele boneco famoso que hoje faz propagandas de plásticas no nariz, você conhece? Então.
Mas, de qualquer modo, eu tenho medo quando as crianças me jogam de um lado ao outro e eu saio voando pelos ares, como um super-herói. Eu tenho medo de ser confundido com o super-homem e ter de vestir a cueca por cima da calça. Ah, isso já seria demais! Você não sabe como o pessoal por aqui caçoa da gente. Hoje, quando o Gilberto vestiu uma blusinha no Pero, o cachorrinho dele, os outros cachorros da rua ficaram tirando o maior sarro, dizendo:
– Ei, bestão, tira isso daí, ô paspalho! Quaquaquaquá….

Puxa vida, a cachorrada não perdoou aquela blusinha, ficou latindo durante todo o passeio do coitadinho, eu fiquei até com um dó do bichinho. Ele voltou para casa muito envergonhado, constrangido. Outras vezes, somos nós os bonecos que somos caçoados. Quando uma criança nos rabisca todo com a canetinha, é uma gozação só, você precisa de ver! Todos os bonecos ficam tirando o maior sarro, dizendo:
– Olha esse boneco, todo tatuado! Que coragem, hein? Quaquaquá, isso aí não sai mais, não, cara.
De qualquer modo, eu já disse que queria ser valentão, não disse? Pois é, mas eu não sou, não. Eu fico com muito medo quando as crianças me jogam de um lado ao outro, mas, pelo menos, eu nunca faço pipi nas calças, o que eu acho muito bom.

7.

Então, dentro do consultório do Gilberto, tem essa enorme caixa repleta de brinquedos com os quais as crianças podem brincar à vontade. Dentro da caixa, tem carrinho, caminhãozinho, futebol de botão, pecinhas de montar, papel, cola, tesourinha, lápis de cor, canetinhas, livros ilustrados, fubecas, peão, massinhas de modelar, bonecas, bonecos, dinossauros de borracha, dragões, quebra-cabeças e muitos outros brinquedos. É aqui que eu vivo desde que a vovó me costurou.
Até que eu e os outros brinquedos convivemos muito bem. Às vezes, tem um boneco meio folgadinho, que não quer brincar na hora que tem de brincar ou que fica enrolando para entrar na brincadeira ou mandando mensagens telepáticas para as crianças escolherem outro boneco. Hoje, eu também fiz isso, mas a vovó me disse que é muito feio ser preguiçoso, e que um valentão está sempre disposto a enfrentar todo e qualquer perigo que apareça pela frente. Então, eu tento ser valentão e enfrentar todas as situações, né? Além disso, eu gosto de brincar com as crianças para saber o que elas vão dizer naquele dia, ou o que vou aprender sobre o mundo e sobre as pessoas. As crianças sempre me ensinam alguma coisa que elas aprenderam na escola com os seus professores. É muito interessante! De um modo geral, até que eu levo a minha vida numa boa, sabia?
É, eu não tenho do que reclamar, não. Quer dizer, o meu único problema, aqui nesse consultório, é que eu tenho muito medo do Monstro Subterrâneo, muito medo, mesmo. O Monstro Subterrâneo é uma criatura muito feroz que ataca os bonecos sem hesitar. Os seus dentes são pontiagudos e causam terror a qualquer um. As suas garras são muito afiadas e podem destruir o que encontrarem pela frente. E ele rosna mais alto do que um trovão. Além disso, o Monstro Subterrâneo não gosta dos bonecos, não suporta os bonecos, especialmente, os mentirosos, pois ele quer abreviar a infância, acredita?
Eu não sei muito bem, mas eu acho que a infância é o período de tempo em que os amiguinhos imaginários ainda não têm de trabalhar fora e podem passar o dia todo com as crianças. E o Monstro Subterrâneo quer acabar com tudo isso, quer colocar todos os amiguinhos imaginários para trabalhar quarenta e quatro horas semanais, de segunda a sábado, uma exploração! Puxa vida, mas se as crianças não forem mais crianças, se elas crescerem rapidamente e não puderem mais brincar à vontade, se o Monstro Subterrâneo destruir todos os brinque- dos, o que será de nós, os bonecos? Onde as pessoas vão armazenar o puro, né?

8.

Olha, com exceção da vovó e do Gilberto, os adultos não acreditam nos bonecos, sabia? Na maioria das vezes, eles acham que a gente é só um pedaço de pano ou de plástico, e que o melhor a fazer conosco é nos deixar num canto esquecido do porão ou pior: nos jogar na lata do lixo. E você sabe: o maior medo dos bonecos é ir para o lixo. Não porque lá tenha ratinhos e sujeira para todo lado, mas porque o lixo é o esquecimento absoluto. Quando um boneco vai para o lixo, significa que ninguém mais se importa com ele, que ninguém mais acredita nele, que não há mais laços de amizade algum, que não há mais infância ou magia dentro da pessoa

que o jogou fora, entendeu? E isso é muito triste. Aos poucos, o próprio boneco vai se convencendo de que é só um pedaço de pano ou de plástico, mesmo, e até para de pensar e de imaginar as coisas do mundo imaginário. Ele fica lá, amontoado entre as garrafas de plástico, as tampinhas e os pedaços de madeira, olhando o céu, olhando os pássaros voando tão longe, olhando a chuva cair e encharcar o seu corpinho, sentindo o frio do esquecimento, sentindo saudade do seu velho amigo que cresceu.
Hoje, a vovó me disse que isso se chama “abandono” e que tem muitas pessoas abando – nadas no meio da rua. Então, eu fiquei pensando: puxa vida, se até uma pessoa, que consegue abraçar os outros, e que também já foi criança, é abandonada no meio da rua, o que vai acontecer comigo que sou apenas um boneco de pano? Eu, que não consigo abraçar ninguém? Então, eu fiquei com muito medo, sabia?
De qualquer modo, a vovó também me disse que o Monstro Subterrâneo não existe, que os únicos seres que saem do chão, ou daquele ralinho, no canto da sala, são as formigas e as baratas, mas que elas estão mais interessadas em docinhos de leite e migalhas de pão do que em assustar os bonecos. Ela disse que as baratas não são nem parentes do Monstro Subterrâneo, nem mesmo amigas dele, nada, que ele não existe, que eu poderia ficar bem tranquilo. Ah, mas eu sei que o Monstro Subterrâneo existe, sim. Eu escutei uma das crianças, a Valentina, contar essa história para o Gilberto, e nunca mais me esqueci. Fiquei meio apavorado, né? É claro que eu não contei isso para ninguém, nem mesmo para os outros bonecos, nem mesmo para as outras crianças, porque eu faço de conta que eu sou bem valentão, né? Mas, hoje à noite, eu nem consegui dormir, sabia?

9.

Ontem, fez-se uma noite muito escura, e uma tempestade açoitou a janela. O vento uivava do lado de fora, batendo contra a janela como se estivesse muito raivoso, você precisava de ver. Dentro da caixa de brinquedos, eu estava deitado no meu cantinho, mas não conseguia dormir de jeito nenhum. Meus olhos estavam fixos nas pecinhas de montar, minha mente girava e girava entre os pensamentos amedrontados. Eu tentava me convencer de que o Monstro Subterrâneo não existia, de que ele era apenas uma história que a Valentina tinha contado para o Gilberto. Mas, à noite, o monstro parecia mais real do que nunca. Eu imaginava como ele estava rastejando pelos túneis subterrâneos, cada vez mais perto do consultório, e que poderia abrir a porta a qualquer momento para nos atacar. Eu podia imaginar os seus olhos brilhando no escuro, os seus dentes afiados prontos para me estraçalhar em mil pedacinhos. Imaginava o meu algodão de dentro todo espalhado pela sala, e eu ali, desfigurado, rasgado, destruído. Então, eu quis gritar para que a vovó viesse me acudir, mas eu não tinha voz que ela escutasse de longe porque eu só envio mensagens telepáticas para ela.
De repente, ouvi um barulho do lado de fora, como unhas raspando contra a madeira da porta, e me assustei ainda mais. Pensei que seria realmente o meu fim, que tudo estava perdi – do, mas quando a porta se abriu bem devagarinho, era o Pero, o cachorro do Gilberto, com um medo danado do trovão. Ele veio, cheirou a caixa de brinquedos, cheirou os meus sapatinhos, mas como eu não tinha chulé nem tinha pisado no cocô, nem nada, ele deitou-se ao nosso lado e ficou lá quietinho, chorando baixinho. Eu tentei lhe dizer coisas mais agradáveis, que está- vamos todos seguros ali dentro do consultório, que nada iria nos acontecer, que estava tudo bem, que ele podia ficar tranquilo e, aos poucos, ele foi se acalmando de novo. Quando a chuva parou, ele finalmente adormeceu. Então, eu me acalmei também e adormeci, exausto de tanto imaginar aquelas coisas terríveis.

10.

Mas hoje, logo cedo, apareceu uma criança aqui no consultório, a mais espevitada de todas elas. O nome dela é Lola. Eu ainda estava com sono, mas ela me apanhou da caixa de brinquedos e começou a me jogar de um lado ao outro pela sala. As suas mãos me seguravam firmemente, mas pareciam frágeis, e a sensação de altura e velocidade me deixava muito tonto. A cada curva no ar, a cada movimento brusco que ela fazia, eu sentia que poderia cair a qualquer momento. O chão lá embaixo parecia se aproximar e se afastar em um ritmo alucinante, e eu me agarrava à esperança de que ela não me soltasse. A cada segundo que passava, a minha aflição aumentava, e eu me perguntava quando aquela tortura terminaria.
Em meio ao pavor, eu tentava me manter calmo, lembrando-me de que eu era apenas um boneco de pano, que eu não poderia sentir dor ou me despedaçar no chão, mesmo se eu caísse, e que, ao final, tudo seria apenas uma lembrança assustadora. Ah, mas o meu medo era maior do que tudo, e eu sempre imaginava o pior. Às vezes, eu tenho um medo desproporcional e me sinto muito ansioso, muito ansioso mesmo. A vovó me disse que precisa me levar ao psiquiatra. Eu não sei muito bem, mas eu acho que o psiquiatra é um indivíduo altamente treinado para imobilizar os monstros e as vozes do além, com a ajuda dos gnomos e das faixas- pretas. Eu acho que é mais ou menos isso, mas a vovó falou que o psiquiatra é um médico que trata dos diversos transtornos da mente, entendeu? Enquanto o psicólogo trata as pessoas com conversas e brincadeiras, o psiquiatra as trata com remédios.
De qualquer modo, depois do que pareceu uma eternidade, a Lola finalmente me pousou no parapeito da janela. A sensação de alívio foi imensa, como se eu tivesse escapado de um pesadelo terrível. Senti o vento bater no meu rosto e vi os pássaros voando ao longe. Mas, quando o relógio da parede soou e a consulta da Lola terminou, ao invés de me guardar de volta na caixa de brinquedos, como ela deveria fazer, ela me deixou no alto da estante e saiu correndo. Pensei que o Gilberto me guardaria dentro da caixa, mas o telefone tocou na outra sala e ele foi depressa atender. Ficou lá conversando durante um tempão, enquanto eu espera- va na beirada da estante, muito aflito.

Nesse momento, apareceu a Ana, a gatinha da vovó. É uma gata toda preta e carinhosa, de pelos muito macios e olhos esverdeados. Ela entrou na sala com um rabo empinado e um miado bem alegre. E, com os passos graciosos, ela pulou no alto da estante e começou a se esfregar em mim, para me fazer carinho, ronronando baixinho. Então, eu lhe disse:
– Não, Aninha, agora, não. Você vai me derrubar daqui! Por favor, pare!

Mas ela não parecia entender muito bem as minhas mensagens telepáticas. Eu já estava com as perninhas para fora da estante, prestes a cair, mas ela continuou se esfregando ainda mais em mim e me empurrando lentamente para fora da estante. Então, num momento de desequilíbrio, eu me inclinei para frente e caí lá do alto. Por um segundo, o mundo pareceu girar ao meu redor. O vento chicoteou o meu rosto, e eu pude sentir o frio do ar. A terra batida se aproximou cada vez mais, e eu me preparei para o impacto. Um segundo depois, eu rolei pelo ar, girando e girando, até aterrissar com um baque no meio do chão frio. O impacto me arremessou no chão e eu caí sentado, com a cabeça levemente inclinada para cima.
Por um momento, eu fiquei atordoado, sem conseguir entender o que tinha acontecido de fato. Aninha, assustada com o seu feito, miou do alto da estante, preocupada comigo. Eu olhei para ela e a vi com os olhos arregalados de preocupação. Mas ela não conseguiria me colocar de volta na caixa de brinquedos. Por isso, eu fiquei lá no chão.
Nesse momento, apareceu o Pero, o cachorro do Gilberto e, vendo-me ali no chão, pegou-me entre os seus dentes e começou a correr comigo pela sala, pela escada, descendo até o quintal. Cheio de energia e entusiasmo, correu comigo de um lado ao outro no terreno, contornando as árvores, pulando obstáculos e driblando os vasos de flores, enquanto eu balançava precariamente em sua boca. Depois, um pouco cansado e arfando, deixou-me jogado no chão. Eu fiquei ali todo babado, pedindo para que ele me levasse de volta ao consultório.
– Pero, Pero, espere aí, não vá embora! E agora, como vou sair daqui?

Mas o cachorro não parecia me escutar. Descansou um pouco sobre a grama e, depois, entrou para a casa da vovó, chacoalhando o rabo.

11.

Então, eu tentei me mover, mas não consegui. Tentei gritar pela vovó, mas a minha voz não saiu. Ali, deitado no chão, eu vi as nuvens se movendo no céu, vi o sol atravessando a tarde, vi as estrelas que começavam a aparecer no céu. Passou algum tempo enquanto eu pensava, mas nada de encontrar uma solução. Eu já estava muito desanimado, pensando numa maneira de voltar ao consultório, quando percebi que eu tinha braços, um para cada lado do corpo. Puxa vida, eu tentava movimentá-los, mas não conseguia! Os meus braços eram compridos, mais finos do que a barriga e mais curtos do que as pernas. E saíam assim, um para cada lado do corpo, como se um quisesse ir para a direita e o outro para a esquerda. Então, eu me lembrei que todas as crianças que iam ao consultório tinham braços também, um para cada lado do corpo. Eu não conhecia nenhuma criança que fosse feita com os dois braços do mesmo lado. Em seguida, eu percebi que eu tinha pernas. Não era uma perna só. Eram só duas, como as pessoas. Não eram três pernas como um banquinho nem quatro pernas como um cachorro, eram só duas… como as pessoas! Mas por que eu não conseguia me mover? Por que eu não conseguia sair correndo dali?
Depois, eu percebi que eu usava sapatos, e me lembrei que todas as crianças que iam ao consultório também usavam sapatos. Reparei que havia furos nos meus, por onde um fio passava, fazendo laços: era o cadarço. Algumas crianças, como a Bia ou a Lola, já sabiam amarrar o cadarço. Mas eu ainda não sabia, não. Então, fiquei ali por muito tempo, talvez todo o tempo que uma aranha usava para descer pela teia, perguntando-me o que eram os sapatos, de onde vinham os sapatos e por que tudo era assim. Olhei os meus por tanto tempo que até comecei a notar uma certa semelhança entre eles e os sapatos das crianças, entre eles e os sapatos do Gilberto, entre eles e os sapatos da Bia… E, ali deitado no chão, eu fiquei pensando, pensando muito: se eu tinha pernas, pés e sapatos, por que eu não conseguia sair dali? Por que tudo era assim?
E foi então que eu me senti ainda mais aflito, como se as voltas do meu sapato apertas- sem o meu peito de pano, como se eu estivesse meio louco ou meio cego, pensando em tudo o que tinha vivido até virar um boneco, nos tempos da eternidade. Fiquei pensando assim: quando eu estava no consultório, eu enxergava os outros brinquedos porque eu tinha, no rosto, dois olhinhos de botão. Algumas vezes, quando eu era dobrado pelas mãos das crianças, eu enxergava o meu corpo de pano, as minhas pernas e um pouco dos braços. Quando elas me giravam pela sala, eu enxergava todos os brinquedos, o Gilberto, a janela do consultório, os brinque- dos, o Gilberto, a janela outra vez. Mas eu nunca enxergava o que estava atrás de mim mesmo. E se o Monstro Subterrâneo aparecesse pelas minhas costas, o que eu iria fazer? Por que ninguém tinha um olho na nuca? Seria muito útil ter um olho na frente e um olho nas costas. Ninguém precisaria virar o pescoço para olhar para trás! Ah, isso não estava certo: por que a vovó tinha me costurado com os dois olhos na frente? Puxa vida, será que ela não tinha previsto todos os perigos que eu poderia correr?
No consultório, quando as crianças me giravam bem depressa, bem depressa mesmo, eu não conseguia enxergar mais nada porque eu já não estava mais ali. Eu já estava olhando aquele que já estava olhando aquele que já estava olhando aquele que já não estava mais ali. Nem quando elas me giravam no tempo ligeiríssimo em que, às vezes, eu era lançado pelos ares, isso dava tempo de me ver e de me enxergar nos meus próprios olhinhos. Eu enxergava todos os outros brinquedos, mas eu não conseguia enxergar a mim mesmo. E isso era muito perturbador. Mas, ali, deitado no chão, sentindo os meus próprios braços, as minhas pernas e os meus sapatinhos, eu percebi que eu era mais ou menos do tamanho dos sapatos das pessoas, mas que eu tinha o meu próprio sapatinho também. E que se eu abrisse bem os braços, eu

seria do tamanho das mãos do Gilberto, mas que eu próprio tinha as minhas mãozinhas também. Percebi, com o peito meio em sobressalto, que eu me parecia muito a uma pessoa, mas a uma pessoa desse tamanhinho!
Puxa vida, como eu fiquei confuso! O que significava ser uma pessoa desse tamanhinho? O que significava ser uma pessoa? Será que eu também era uma pessoa? A vovó tinha me dito que eu era um boneco de pano, mas, então, o que significava ser um boneco de pano? Era muito diferente de ser uma pessoa? Uma pessoa também era feita de tecidos? Por que eu não conseguia me mover e sair dali? Ah, eu me sentia completamente impotente e confuso.
Há algum tempo, eu estava notando muitas diferenças entre mim e as pessoas. Enquanto elas entravam e saíam do consultório, por exemplo, eu sempre estava sentado em algum lugar. Às vezes, dentro da caixa de brinquedos. Às vezes, sobre a estante de livros. Outras vezes, sobre a mesa. Eu também não podia decidir certas coisas, como ligar a televisão para assistir ao Fantástico Mundo de Bobby, ou abrir um dos livros da estante ou fechar a porta do consultório ou, agora, me levantar e sair do chão do quintal, onde eu estava. Eu não tinha uma namorada como o Gilberto também tinha uma, e eu não me mexia de lá para cá como as outras crianças faziam. Mas, se eu não era uma pessoa de verdade, por que eu era tão parecido com elas? Por que tudo era assim? Que remédio o Pinóquio tinha tomado para se transformar num menino? Ah, sei lá. Fosse lá como fosse, se eu era tão parecido com as pessoas, isso devia ter alguma razão, e continuei pensando, pensando muito até adormecer, ali deitado no chão…

12.

Então, quando o dia amanheceu, apareceu uma mulher no quintal, onde eu estava deita- do. Ela era muito robusta e de poucas palavras, mas cantava alguma coisa que eu não entendi muito bem. Com os passos pesados e um olhar atento, ela percorreu o jardim, varrendo e organizando tudo. Por ser uma manhã de outono, havia muitas folhas caídas no chão, e ela as varria rapidamente. De repente, eu levei uma vassourada e, desajeitado, fui parar dentro de um saco de lixo, batendo contra as pedras e os galhos que estavam ali dentro. Então, eu me senti perdido e sozinho. Por que ela tinha me jogado no lixo? Por que não me levara para dentro da casa? Será que nunca tinha sido criança? O ar dentro do saco era úmido e empoeirado, e
o cheiro de lixo me deixava enjoado. Fazia muito calor. Eu tentei enxergar alguma coisa, mas o espaço era muito apertado e as folhas secas me prendiam umas contra as outras.

De repente, eu ouvi um barulho estrondoso. Acho que o saco de lixo foi jogado dentro da caçamba, e eu caí com força, batendo a cabeça contra algo que parecia um metal. Fiquei ali, atordoado e confuso, sem saber o que fazer. A escuridão era total, e o único som que eu ouvia era o zumbido das moscas. Comecei a sentir muito medo, perguntando-me se jamais sairia daquele lugar. Eu me lembrava dos dias felizes em que eu passara com os outros brinquedos. Eu me lembrava das brincadeiras com as outras crianças, das histórias que a vovó me contava e do carinho que ela me dava. Pensei que nunca mais veria a vovó, as crianças, os outros brinquedos, a gata Aninha, o cachorro Pero, o Gilberto, a Bia, a Lola e senti muita vontade de chorar.
– Ah, o que será que vai acontecer? Para onde eles vão me levar? – pensei comigo.

13.
Eu já estava dentro do saco de lixo havia muito tempo, pensando na vida, quando escutei muitas buzinas: era o caminhão dos coletores que se aproximava. Os cachorros começaram a latir, e eu sabia que seria o meu fim. Uma das crianças, a Valentina, já tinha me explicado o que acontecia com o lixo. Em pouco tempo, os coletores levariam o saco para o aterro sanitário, junto a milhares de outros sacos, e eu nunca mais veria a vovó, o Gilberto, as crianças e os outros brinquedos. Eu ficaria ali durante muitos e muitos anos, esperando minha decomposição. Seria terrível, seria o mais completo abandono, eu me separaria de todos aqueles que eu amava. Foi então que apareceu um ratinho, roendo o fundo do plástico.
De repente, eu senti um puxão como se o saco de lixo estivesse sendo arremessado no ar pelos coletores, mas, nesse momento, o saco se rasgou e eu caí rolando no meio da rua, junto a outras folhas secas. Então, eu me senti desorientado, enquanto o caminhão de lixo se afastava de mim. Ali, deitado no asfalto, de barriga para cima, eu fiquei olhando as nuvens do céu, os pássaros voando ao longe e até mesmo a roda de alguns carros que passavam bem perto de mim, jogando água suja sobre o meu corpinho. Por sorte, eu não fui esmagado por nenhuma roda.
– Ai, ai, o que eu vou fazer agora? Para onde eu vou? Será que eu serei esmagado pelas rodas de um pneu? – pensei comigo.
Então, começou a chover. Eu senti as gotas da chuva caírem do céu e encharcarem o meu corpinho de tecido, e achei uma sensação muito esquisita. Ali, eu era apenas um boneco de pano, encharcado pela chuva, sem ninguém para me ajudar. Eu não era mais o boneco importante do consultório de um psicólogo. Eu não ajudava mais as crianças que estavam tristes. Eu era só um boneco caído no chão, abandonado no meio da chuva. A única coisa que eu podia fazer era esperar que alguém me encontrasse ali no chão. E, mais uma vez, senti vontade de chorar, pensando que eu era apenas um pedaço de pano, mesmo.
Eu já estava parando de pensar e de imaginar as coisas, mas, de repente, vi algo se movendo diante do bueiro. Era o ratinho que roeu o saco de lixo. Como ele olhava para mim, muito curioso, eu lhe pedi:
– Por favor, você poderia me tirar daqui?

Então, o ratinho aproximou-se de mim, segurou-me pelos seus pequenos dentes e começou a correr comigo pela rua. Foi uma grande aventura. Eu nunca tinha me deslocado de um lugar ao outro com tanta velocidade. A certa altura, um gato começou a correr atrás dele, e ele correu o mais depressa que conseguiu, chacoalhando-me no ar. De repente, para escapar do gato, ele entrou por um buraco na parede e me conduziu até o interior de um porão.

14.

O porão era um lugar frio e úmido, com um cheiro de terra úmida e de mofo. Havia uma penumbra cobrindo tudo, pois a única luz existente vinha de uma pequena janela empoeirada, que deixava entrar um fraco raio de luz. As paredes eram de pedra rústica, e estavam cobertas de musgo. O chão era de terra batida e estava cheio de buracos. No centro do porão, havia uma pilha de objetos quebrados, amontoados uns sobre os outros. Ao lado de caixas de madeira velhas, havia uma pequena mesa rachada, com apenas duas cadeiras. Uma delas estava que- brada, e ambas estavam cobertas por teias de aranha. Era um lugar há muito tempo abandona – do. Em uma das paredes, havia uma teia gigante, com uma aranha imensa e peluda no centro. Os seus olhos brilhavam no escuro. O silêncio era quase absoluto, quebrado apenas por um grilo ao longe, e o som de uma gota d’água caindo do teto. Aquele lugar era muito diferente do consultório, e eu fiquei com muito medo, pois eu tinha a certeza de que aquele porão era a morada do Monstro Subterrâneo. A qualquer momento, ele poderia aparecer e me destruir por completo. Eu sentia muito medo do que não conhecia, e estava mais ansioso do que nunca.

15.

Então, o ratinho colocou-me sobre a velha mesa, onde havia uma boneca sentada. Ela estava muito empoeirada, o seu vestido estava rasgado, o seu rosto estava sujo, e ela tinha ares de abandono. Ela usava um capuz também rasgado, mas eu pude ver que ela tinha os cabelos amarelos e uns olhos que se abriam e se fechavam, com cílios e tudo. Ela era ainda mais pare – cida a uma pessoa do que eu! Achei isso muito curioso e resolvi puxar conversa com ela.
Então, perguntei-lhe:

– Boa tarde, como você se chama?

– Boa tarde. Eu me chamo Ester, e você? – ela respondeu, meio confusa.

– Eu me chamo Mimo… mas você pode me chamar de Valentim. Eu sou um boneco de pano. – eu disse.
– Ah, muito prazer. Eu sou uma boneca de plástico e vim com um chorador. Quando as crianças me viram para um lado, eu choro muito. E quando elas me viram para o outro, eu choro muito também. Por isso, eu sou uma boneca muito chorona. Geralmente, eu choro por- que vim parar nesse porão sombrio e porque eu tenho muita saudade de uma criança que cres- ceu e se esqueceu de mim. – ela respondeu.
– Ah, entendo, eu sinto muito, Ester. Quer dizer que, sendo uma boneca muito chorona, você enxerga o mundo todo alagado? As casas alagadas, as ruas alagadas, a sala toda alagada?
– eu perguntei curioso.

– Não, não, as minhas lágrimas são invisíveis. – ela respondeu. – Um dia, elas evaporaram e viraram nuvens. Mas por que as paredes ainda estão paradas? – ela perguntou.
– Como assim? As paredes estão sempre paradas. – eu respondi confuso.
– Não, não, de onde eu vim, as paredes sempre se mexiam, o teto e o chão se mexiam também. – ela respondeu.
– Sério?! De onde você veio? – eu perguntei surpreso.
– Eu vim de uma fábrica de brinquedos e vivi muito tempo girando e girando numa esteira. Por esse motivo, eu me chamo Ester.
– Ah tá, não eram as paredes que se mexiam, elas ficavam paradas; era você que girava pela esteira da fábrica… – eu respondi.
– E não é a mesma coisa? – ela perguntou. – Tudo depende do referencial. Eu não sei se você sabe, mas os bonecos que vêm da fábrica de brinquedos passam muito tempo desmonta – dos numa linha de produção. Enquanto nós vamos girando e girando pela esteira, os trabalha-

dores vão nos montando, peça por peça, até que estejamos inteiramente embalados, prontos para seguirmos para a loja de brinquedos. É assim que tudo funciona. – ela respondeu.
– É verdade? – perguntei admirado – Eu não vim de uma fábrica de brinquedos porque a vovó me costurou. Ela fez as minhas roupinhas, o meu cabelinho, o meu nariz, costurou o meu sorriso. Ela que fez tudo, sabia? E, quando ela pregou os meus dois botõezinhos nos olhos, eu passei a enxergar o mundo. Desde esse dia, achei o mundo bem esquisito e passei a me questionar sobre várias coisas. Por exemplo, por que eu me pareço a uma pessoa desse ta- manhinho ou por que as crianças gostam tanto de brincar comigo? – eu perguntei.
– Olha, eu não sei. – ela respondeu. – Eu só sei que os gigantes são maiores do que as pessoas que são maiores do que as crianças que são maiores do que os bonecos que são maio – res do que os bichinhos. Uma coisa é maior ou menor do que a outra e tudo está em relação. Deve ter alguma razão para isso, você não acha? – ela perguntou.
– É, eu acho que sim… – respondi confuso.

– Eu só sei que comecei a minha vida separada em muitos pedaços. Era um bracinho para cá, uma perninha para lá… Por isso, eu enxergo o mundo em várias partes. – ela disse.
– Que interessante! – exclamei.
– Pois é! – ela continuou – Um dia, a esteira fez um caminho que eu não conhecia e eu fui parar numa loja de brinquedos, para o bem de ganhar novos amigos que ficavam longe de mim, mas não eram eu, e suas partes não eram as minhas. Entender isso foi o meu grande de – safio, e era confuso, pois ainda não me tinham dado esse capuz de guardar o entendimento das coisas que giravam e das outras que ficavam paradas. E porque eu não queria desalinhar o meu cabelinho com essas ideias tão confusas, eu resolvi entender o mundo só em duas partes, e tudo estava assim repartido. Depois, uma criança me levou para casa e nós brincamos durante muitos anos: ela me vestia roupinhas, levava-me para passear e fazia comidinhas. Quando

ela cresceu, não se interessava mais por mim… Um dia, colocou-me para viver aqui nesse po – rão. Desde então, eu achei o mundo um lugar muito triste e sombrio… – ela concluiu.
– Entendo… Isso parece muito triste, Ester, e eu sinto muito por você estar aqui… – eu respondi.
– E você, como foi feito? – ela perguntou.

– Eu fui feito pela vovó. Ela não é mais uma criança, mas ela gosta muito dos brinque – dos do consultório, onde eu vivo. Se eu soubesse como sair daqui, eu levaria você para viver lá com a gente. Lá é muito bonito, muitas crianças vêm brincar conosco todos os dias. Gilberto, o psicólogo, diz que a gente as ajuda a ficarem mais felizes, mas eu acho que é o contrário! São os bonecos que ficam mais felizes ainda com as crianças. Você gostaria de vir comigo, Ester? – eu perguntei.
– Eu? Oh, claro que sim, Valentim, seria maravilhoso! Mas será que nós poderíamos le- var o Monstro com a gente? – ela perguntou.
Então, eu arregalei os meus olhos de botão e fiquei desnorteado:

– O quê?! Você quer dizer que o Monstro Subterrâneo vive mesmo nesse porão? Socorro! Socorro! Ele vai me destruir! Alguém me tire daqui, por favor! – eu gritei apavorado.
– O Monstro? Não, calma, calma, ele vive aqui há muitos anos…
Ao ouvir isso, eu fiquei tonto e comecei a me desesperar. Então, a boneca disse:
– Olhe só para ele, sentado naquela cadeira. Ele viu muita coisa durante esses anos. Ele viu uma criança crescer e se tornar adulta, ele viu quando a família se mudou para uma nova casa e ele foi deixado para trás, esquecido no porão. Então, lentamente, ele começou a se deteriorar. Hoje em dia, ele é um monstro muito triste, muito triste, mesmo!
O Monstro Subterrâneo estava sentado em um canto empoeirado do porão, e observava o mundo através de um único olho de botão, muito grande, costurado no meio do rosto. Seu

pelo era desbotado e encardido e suas costuras estavam começando a se desfazer. As suas roupas também estavam rasgadas e sujas, e ele trazia um grande buraco no meio do peito.
– Boa tarde, tudo bem com você? – ele me perguntou tristemente.

– B-b-boa t-t-tarde… – eu gaguejei – Olha, Seu Monstro, eu só contei algumas mentirinhas até hoje porque eu sou muito distraído. Quando eu percebi, a mentira já tinha escapado da minha boca. Mas eu prometo que nunca mais contarei mentiras, eu prometo! Por favor, não me destrua, não me destrua! – eu implorei apavorado.
– Eu? Destruir você? De onde você tirou essa ideia, rapaz? Calma… eu sou só um boneco velho e esquecido, e não faço mal a ninguém. Com o passar dos anos, vivendo nessa escuridão, sem nunca mais ver a luz do sol, eu fui ficando muito triste de viver aqui confinado. É só isso. Eu também já contei algumas mentiras… acho que todo mundo já contou algumas também… está tudo bem. – ele me tranquilizou.
– Como? O senhor não vai me destruir? – eu perguntei admirado.

– Eu? Imagine! Se você quiser, nós podemos ser amigos. Eu estou velho, mas não precisa me chamar de “senhor”. Pode me chamar de “você”. Assim como a Ester, eu também gostaria de ir com você ao consultório. Parece um lugar muito bom, onde todos ficam um pouco mais felizes. Quem sabe, eu conseguiria superar essa tristeza, não é? Você acha que as crianças poderiam me ajudar? – ele perguntou um pouco triste.
– As crianças? Bem, claro que sim! Elas são maravilhosas. Puxa vida, muito obrigado por não me destruir, Seu Monstro. Durante muitos anos, eu tive medo do senhor, quer dizer, de você… – eu confessei.
– Ora, ora, não precisa ter medo de mim, eu só estou um pouco triste. Para dizer a verdade, acho que quem está destruído sou eu. Geralmente, os monstros só estão um pouco tristes com as coisas que estão acontecendo no mundo. Todos os dias, por exemplo, eu escuto o

radinho de pilha do jardineiro, ali no quintal, e fico muito triste com algumas notícias… – ele respondeu.
– Que coisas estão acontecendo no mundo? – eu perguntei.

– Ah, muitas coisas. Há muito tempo, por exemplo, em um lugar chamado Gaza, muitas pessoas diferentes viviam juntas. Elas moravam na mesma terra, mas tinham ideias diferentes sobre como deveriam viver juntas. Infelizmente, elas começaram a brigar bastante, pois não conseguiam concordar sobre quem deveria ficar com a terra. Isso levou a uma guerra entre elas. Nessa guerra, muitas pessoas ficaram feridas, algumas até morreram, inclusive as crianças. Muitas crianças perderam suas casas, suas escolas e suas famílias. Algumas tiveram que fugir e se tornaram refugiadas. Isso significa que elas não tinham mais um lugar seguro para viver. Refugiados são como viajantes, mas não porque eles querem. Eles não têm escolha. Eles precisam encontrar um lugar seguro para viver. Às vezes, eles caminham por muitos dias e noites, atravessando rios e montanhas, até chegarem a um lugar onde possam ficar, passando frio e fome. As crianças também podem ser refugiadas. Elas deixam para trás suas casas, suas escolas e seus brinquedos. Isso é muito triste para elas. Elas podem sentir medo e saudade de casa. As crianças em Gaza estão sofrendo muito. Elas não têm água suficiente, comida ou re- médios. Suas casas foram destruídas e suas famílias estão tristes e com medo. Elas eram crianças muito educadas, eram boas com os seus pais e os seus avós, faziam as suas lições de casa. Elas não mereciam isso de jeito algum. Há tantas coisas tristes acontecendo com as crianças que até os monstros, como eu, ficamos tristes. Para dizer a verdade, sou eu que me sinto destruído. Há muitas crianças no mundo que estão sofrendo por algum motivo e que precisam muito dos psicólogos e dos brinquedos. Por isso, o seu trabalho é muito importante, Valentim.
– Puxa, muito obrigado. O que você me contou é realmente muito triste, muito triste, mesmo. Eu não sabia que isso estava acontecendo no mundo porque nenhuma criança me contou. Eu também queria levá-lo ao consultório, eu só não sei muito bem como sair daqui. – eu respondi pensativo.
– Então, vamos pensar numa solução, que tal? – ele completou.

16.

No outro dia, escutei um barulho entre as caixas amontoadas no chão. Era o ratinho cor- rendo pelo porão, erguendo-se pelas paredes. Então, eu tive uma ideia e disse:
– Ei, ratinho, será que você poderia nos ajudar?

O ratinho parou, surpreso por ter sido chamado. Então, eu continuei:

– Nós estamos muito tristes por viver aqui nesse porão. Será que você poderia nos levar até a porta da vovó? A varanda fica ali na frente. Você só teria de atravessar esse quintal.
O ratinho ficou pensativo por um momento, como se estivesse calculando o trabalho que teria pela frente. Mas, dali a alguns minutos, ele apanhou-me de novo entre os dentes e me levou até a porta da vovó. Era cedo, a grama ainda estava molhada, e eu sentia as gotas de orvalho atravessando o meu corpinho de pano. Quando ele me colocou encostado na porta da vovó, eu pedi:
– Por favor, ratinho, será que você poderia trazer também a boneca Ester e o Monstro Subterrâneo? Eles não querem mais morar naquele porão. Eles também estão muito tristes.
Então, em pouco tempo, ele trouxe os dois bonecos, um de cada vez, e os colocou ao meu lado. O Monstro Subterrâneo estava fascinado por ver a luz do dia novamente, e disse:
– Puxa, muito obrigado, ratinho! Você salvou e transformou as nossas vidas!

Eu e Ester também agradecemos muito o ratinho, que saiu correndo todo alegrinho. En- tão, o Monstro Subterrâneo me disse:
– Eu estou muito contente por estar aqui, mas também estou um pouco preocupado.

Acho que a vovó não vai gostar de mim, eu estou tão sujo e rasgado! – ele confessou.

– Nem de mim… – Ester completou – Eu estou coberta de poeira, meu vestido e o meu capuz estão todos rasgados. Não tenho uma aparência muito agradável.
– Ah, eu conheço a vovó! Tenho certeza de que ela vai cuidar direitinho de vocês. – eu tentei tranquilizá-los.
– Você acha mesmo? – eles perguntaram.

– Claro que sim! – eu respondi.

Um momento depois, a porta se abriu e a vovó apareceu. Seus olhos se arregalaram de surpresa quando nos viu encostados no batente da sua porta.
– Minha nossa! Onde você estava, Mimo? Eu procurei você por toda parte! Na caixa de brinquedos, no consultório, na sala de espera, pela casa inteira! E quem são esses lindos bone- cos com você? Você trouxe os seus novos amiguinhos? Como isso é possível? Vejo que você viveu uma grande aventura! – ela admirou-se.
Então, eu contei para a vovó a história dos dois bonecos e tudo o que tinha me aconteci- do. Disse-lhe que eles estavam muito tristes por viver naquele porão empoeirado, e pedi que ela os colocasse no consultório também. A vovó olhou para mim e compreendeu tudo. Ela disse que estava muito feliz em nos encontrar, que eles também seriam de grande ajuda para as crianças do consultório, mas, antes de irmos para lá, ela cuidaria um pouquinho de nós, pois estávamos muito sujinhos e empoeirados.
– Estou vendo que você passou por muitas aventuras, Mimo. E até trouxe o Monstro Subterrâneo para casa! Estou muito orgulhosa por você ter enfrentado os seus medos. Você é muito corajoso e valente! De hoje em diante, também vou chamá-lo de Valentim, está bem?
Então, ela pegou os dois bonecos no colo e continuou:

– Puxa, é tão bom conhecer vocês também, meus queridos. Sejam bem-vindos a esta casa e ao consultório! Antes de irem brincar com as crianças, vocês vão tomar um banho, e eu vou costurar novas roupinhas para vocês! Vocês merecem roupas lindas e alegres! – ela exclamou.

17.

Então, com um sorriso no rosto, a vovó nos levou até a banheira. Lá, ela nos lavou cuidadosamente com água e sabão. Depois, ela nos colocou para secar ao sol. Quando nós nos secamos, a vovó nos levou até o seu ateliê e começou a trabalhar em sua máquina de costura. Com as mãos muito habilidosas, ela costurou roupinhas lindas para todos nós. Fez um vestido florido e um capuz novo para Ester, com laços de fita. Fez um macacão novo para mim. E fez um terno muito elegante para o Monstro Subterrâneo. Nas mãos dele, ela costurou uma flor.
Quando ela terminou, os bonecos ficaram irreconhecíveis. Então, com muito cuidado, ela nos levou até o consultório e nos apresentou aos outros brinquedos. Foi uma algazarra, todos ficaram muito felizes com os dois novos amigos, e não paravam de lhes fazer perguntas.
Horas mais tarde, Ester e o Monstro, adoraram brincar com as crianças que vinham para as suas consultas, e fizeram muito bem o seu trabalho. Ester analisava as partes de cada história que lhe contavam. E o Monstro Subterrâneo compreendia as falhas e os temores de cada um. Todos se divertiram muito.

18.

Hoje, depois que todas as crianças foram embora do consultório, eu escutei um barulhinho e fiquei espiando no escuro. Era a Dona Aranha tecendo teias durante a noite, querendo tramar no ar uma armadilha para vazios. Então, passou por ali um vento, passaram as poeiras, mas, quando um Bichinho veio voando bem distraído, ele se enganchou todo nos fiozinhos que a Dona Aranha fez. E ficou ali preso a noite inteira, tadinho. E eu, que tenho os braços tão

compridos que alcançam até o sozinho, não conseguia erguê-los para libertar o bichinho das teias. Então, eu olhei bem para ele e perguntei:
– Quem é você?

Ele não me respondeu. Eu já tinha visto um bichinho como aquele, que tentava subir o vidro da janela e depois caía, mas aquele não respondia, não. Então, ao vê-lo na teia, enrolado tantas vezes feito um louquinho, eu quis ao menos conversar com ele para passar o tempo. Mas ele permanecia imóvel e quieto. O tempo, sobre ele, parecia estar sempre parado, e agora, e agora, e agora.
– Ei, você está bem? – eu perguntei curioso, procurando nele algum movimento das asas ou das antenas. Mas o bichinho permanecia calado, sem qualquer resistência contra as teias que lhe prendiam o corpo. Não respondia de jeito nenhum.
– O que aconteceu com você? – insisti mais uma vez, para ver se o bichinho respondia. Não, ele não respondia, e eu não compreendia como um bichinho daquele podia ser capturado no momento em que voava tão alto e feliz, e que armadilha era aquela que, de repente, surgia no invisível, se ele gostava tanto assim de voar e de pousar nos docinhos, né? Então, fiquei pensando: e se ele não voasse mais, será que eu poderia ficar com o bichinho para mim, cuidando muito, assim amigos?
Então, um pouco sem jeito, eu perguntei bem baixinho:

– Ei, Bichinho, você quer ser o nosso amiguinho?

O bichinho não respondeu. Um dia, a vovó me disse: “quem cala, consente”. E isso quer dizer: quando alguém fica em silêncio quando lhe fazem uma pergunta é porque concordou. Então, como ele tinha ficado quieto, provavelmente, ele tinha concordado em ser o nosso novo amiguinho. E eu, como agora tinha um novo amigo, tentei puxar conversa, contando:
– Sabe, Bichinho, a Bia, uma das crianças que vêm ao consultório, disse que eu sou um boneco de pano muito inteligente, que estou aprendendo a enxergar o mundo e, por isso, eu

penso muito sobre todas as coisas, especialmente, sobre a minha existência. Então, ela disse que eu sou um boneco existencialista! Eu não sei bem o que é isso, mas achei um nome bem bonito. A nossa existência, ela disse, é o tempo que a gente passa no mundo. Eu não queria que você passasse a sua existência preso nessa teia, assim como eu não quis que a Ester e o Monstro Subterrâneo passassem as suas existências naquele porão sombrio. Mas não sei muito bem como libertar você daí porque eu não consigo movimentar os meus braços. Na loja de brinquedos, tem boneco que mexe os bracinhos, tem boneco que diz certas coisas, tem boneco que acende as luzes, tem até boneco que trabalha na frente das lojas, chacoalhando os seus braços ao vento, mas esse não é o meu caso. Por isso, estou pensando numa outra solução. Você sabe: os adultos acham que os bonecos não conseguem pensar, que só as pessoas pensam nas coisas, mas eles estão enganados, sabia? A gente não consegue andar de um lado para o outro como os bonecos dos desenhos animados, nem voar de um lado ao outro como você consegue, mas a gente não para de pensar. É o que a gente faz o tempo todo. A gente fica ali, sentado em cima da mesa ou em cima do sofá, observando as pessoas e pensando, pensando muito… Já as crianças sabem que os bonecos são muito inteligentes e têm sentimentos. Elas sabem que nós podemos ser os seus maiores amigos, especialmente, quando elas se sentem muito sozinhas. Elas sabem que nós podemos escutar os seus problemas e guardar muitos segredos. Elas sabem que não importa se a flor é de plástico, a armadura é de lata ou o corpinho é de pano: a solidão pode existir para qualquer um nesse mundo, não é? E só a amizade é capaz de perceber isso nos olhos do outro; mesmo se for um olho estampado num desenho, mesmo se for os olhos de um bichinho preso numa teia de aranha ou se for como os meus: dois olhinhos de botão.
Então, o bichinho olhou para mim, e eu soube que ele tinha me escutado. O olhar dele era de apelo. Por isso, fiquei pensando em alguma maneira de libertá-lo da teia. Eu quis perguntar a Ester e ao Monstro Subterrâneo se eles tinham alguma ideia, mas eles já estavam dor- mindo, tão cansados estavam de brincar com as crianças do dia.

19.

Então, nesse momento, a Dona Aranha desceu pela teia, pronta para devorar o bichinho, mas como ele era o meu novo amigo, eu tentei encontrar um jeito de distraí-la do seu almoço. Por isso, eu lhe perguntei:
– Ei, Dona Aranha, bom dia, tudo beleza?

– Tudo beleza. – ela respondeu.

– Me diga uma coisa, por favor: por que todo mundo usa sapatos? – eu perguntei.

– Ora, ora, porque há muitos pedregulhos no chão que podem machucar os pés. – ela respondeu com paciência.
Acho que ela sabia que nós, os bonecos, somos muito curiosos e ainda não entendemos muito bem o funcionamento do mundo. Então, eu perguntei ainda mais curioso:
– A senhora também usa sapatos?
– Eu? Não, não… – ela sorriu e continuou – Eu não preciso usar sapatos porque estou sempre pendurada pelos ares, mas eu bem que gostaria de usar oito sapatinhos nos meus oito pezinhos. Sapatinhos de salto alto, bem elegantes, que eu compraria pela internet. Eu não sei se você sabe, mas fomos nós, as aranhas, que inventamos a web.
Eu não sabia muito bem o que era uma web, mas deixei para lá, pois eu estava agoniado para distraí-la do seu almoço. E, por isso, perguntei:
– Oito?! A senhora tem oito pés?!

– Isso mesmo. – ela sorriu.

– E por que eu só tenho dois? – perguntei meio confuso.

– Isso eu já não sei lhe responder. – ela respondeu impaciente – mas acho que você deve ser uma pessoa. As pessoas só têm dois pés. Um se apoia no chão enquanto o outro faz um movimento no ar. Em seguida, o pé que estava no ar se apoia no chão e o outro faz o mesmo movimento para a frente. É assim que as pessoas conseguem se locomover.
– Ah, entendi… O que a senhora vai fazer agora? – perguntei.

– Eu? Eu vou almoçar. Já passou do meio-dia. – ela lambeu os beiços.

– Er… – gaguejei – A senhora vai almoçar esse bichinho?!

– Sim, eu vou sim. Ontem à noite, ele se enganchou todo nas minhas teias. Agora, eu vou almoçá-lo, pois ele parece bem apetitoso, não acha? Bem, você está servido? – ela perguntou, esfregando as patinhas.
– Não, não, muito obrigado. Er… Dona Aranha? Sabe o que eu vi? – eu perguntei de- pressa – Atravessando o quintal de casa, há um porão muito antigo, coberto por teias de aranha. Ali, há muitas e muitas aranhas, uma associação de aranhas, e a senhora teria muitas amigas por lá. Ninguém as atrapalha ou as afugenta com uma vassoura, elas são as rainhas daquele lugar, sabia? Você precisava de ver! O porão é como um castelo para as aranhas!
– Jura? É mesmo? – ela perguntou – Então, acho que vou dar um pulinho lá, quem sabe eu encontre os meus parentes! – ela respondeu, subindo pelos ares até a janela.
– Ufa… – sussurei para o bichinho. – Dessa vez, você escapou, hein. Mas eu não sei por quanto tempo…

20.

Nesse momento, a boneca Ester acordou e quis saber o que estava acontecendo. Então, eu lhe perguntei:
– Ei, Ester, você sabe libertar esse bichinho? Ele também está parado nessas teias, não consegue mais se mover. – eu perguntei.

– Calma, vamos por partes. Acho que ele deve estar com as asas enguiçadas. É preciso chamar a manutenção. – ela respondeu.
– O que é a manutenção? – perguntei surpreso.

– São os trabalhadores que consertam as máquinas enguiçadas. Quando elas enguiçam, a esteira da fábrica não gira mais e fica tudo parado: as paredes ficam paradas, o teto fica pa- rado, o chão fica parado também. Às vezes, são os trabalhadores que consertam as máquinas. Mas, em alguns casos, são os próprios robôs. – ela explicou.
– Robôs? Aqui na caixa de brinquedos tem um robô, sim. – exclamei surpreso.

– Ah, é mesmo? Chame-o, pois ele deve saber ajudar… – ela respondeu.

Então, eu chamei o robô. Ele era um brinquedo muito bonito, que tocava música feito um radinho de pilha. Ele tinha um botão de tocar a música, o play, e um botão de parar a música, o stop. E tocava sempre rock n’ roll. Todos os brinquedos sabiam que ele queria ser malvado e cruel, mas não conseguia fazer mal a ninguém. Era um amorzinho de brinquedo. Alguns diziam que ele tinha um parafuso a menos. Por isso, ele era meio birutinha. Quando Ester o viu, exclamou contente:
– Um robô!
– O que foi que você disse? – ele perguntou nervoso.
– Robô!
– Não, eu não roubei nada, eu não roubei nada! Em todo lugar é a mesma coisa, todos me acusam injustamente de ladroagem, mas eu sou inocente! Eu vou chamar os meus advoga- dos, viu bem? Ora, ora, o que vocês disseram para essa boneca? Ela acabou de chegar na caixa de brinquedos e já está me acusando injustamente de ladroagem. Desse jeito, não dá! – ele disse ainda mais nervoso.
– Não, eu não disse “roubou”, eu disse “robô”. Eu não quis ofendê-lo de jeito nenhum!

– Ester explicou.

– Ah, e tem alguma diferença? – ele perguntou um pouco mais calmo.

– Claro que tem! Eu conheci muitos robôs na fábrica de brinquedos e nenhum tinha roubado nada de ninguém, exceto o trabalho de algumas pessoas…
– Viu só? Eu não roubei o trabalho de ninguém, eu sou inocente, eu sou inocente! – ele exclamou nervoso e começou a chiar feito um rádio fora da estação.
– Não, você, não. – ela explicou com paciência. – Os robôs de verdade são máquinas enormes que fazem coisas repetitivas que as pessoas não podem ou não querem mais fazer. E eles não roubam o trabalho das pessoas de propósito. É porque o dono da empresa não precisa pagar um salário para os robôs, como ele paga para os trabalhadores. Por isso, quando o dono da empresa compra um robô, que trabalha de graça, muitas pessoas podem ficar sem o seu emprego, entendeu? Então, elas têm de estudar outras coisas para encontrar outros trabalhos. Foi só isso o que eu quis dizer… Além disso, você até parece um robô, mas só tem esses botões, de tocar a música e de desligar… Acho que você deve ser um robô de mentirinha…
– Viu só? Olha ela! Olha ela! Está me chamando de ladrão e de mentiroso! – ele chiou um pouco mais alto.
Então, Ester tombou para o lado e chorou, e eu interrompi a discussão.
– Calma, ninguém está te acusando de ladroagem. Não fale assim com a Ester, pois ela acabou de chegar nesse lugar e merece ser muito bem tratada. Tudo bem, pessoal, ninguém aqui mais vai chamar este brinquedo de robô. O nome dele, todos sabem, é Elvis Presley. E ele é o rei do rock n’ roll.
Nesse momento, o robô ficou realmente contente e perguntou:

– Bem… bem… desculpe-me, Ester. Seja bem-vinda à nossa caixa de brinquedos. Eu me exaltei um pouquinho, sabe como é. Mas, afinal, o que vocês queriam mesmo comigo?
Então, eu expliquei:

– Bem, a Ester pensou que, talvez, você pudesse consertar as asas enguiçadas desse bi- chinho.
Com a discussão, o Monstro Subterrâneo acordou e disse:

– Asas enguiçadas? Não, não, ele não tem asas enguiçadas… Ele apenas está engancha- do nas teias da aranha. Elas são muito pegajosas e ele não consegue se soltar. – ele respondeu.
– Exatamente! – respondeu o robô.

– Foi o que eu pensei. – eu disse – Mas ninguém aqui consegue se mover para tirá-lo de lá, e daqui a pouco a aranha vai devorá-lo. Nós precisamos fazer alguma coisa.
Então, o robô pensou um pouco e disse:

– Bem, isso é muito simples de se resolver. Mas isso eu só vou contar para o Mimo.

Então, ele sussurrou a sua estratégia em meu ouvido e disse para eu colocá-la em prática no dia seguinte.

21.

Quando o dia amanheceu, a Bia, a menina que vem aqui no consultório, veio para a pri- meira consulta do dia e me escolheu para brincar com ela. Ela estava um pouco triste e eu per – guntei:
– Ei, Bia, por que você está tão tristinha? Então, ela respondeu:
– Porque o meu gatinho foi para o céu dos gatinhos, e eu estou com muita saudade dele.

– Como era o nome do seu gatinho? – eu perguntei.

– Era Caetano. – ela respondeu, um pouco triste. – Ele era muito carinhoso e gostava muito de mim. Sabe de uma coisa? No mundo todo, todinho, acho que era a pessoa que mais gostava de mim. Quando eu voltava da escola, ele sempre estava me esperando na escada, e ficava muito feliz ao me ver. Eu também ficava muito feliz ao encontrá-lo e, por isso, a gente

se abraçava muito. O que ele mais gostava de fazer era de brincar de bolinha, de correr atrás da fita e de tomar sol. Quando eu estava triste, ele sempre me chamava para tomar um pouco de sol no quintal. Ele gostava tanto do sol que se esparramava todo no chão. Aos poucos, eu fui gostando de tomar sol também. Agora, eu estou sentindo muita falta dele, muita! Ele era um gato todo pretinho e tinha os olhos esverdeados. Era o gatinho mais bonito do mundo.
Depois de escutar isso, também fiquei triste pela Bia. Então, eu perguntei:

– Você quer me abraçar, Bia?

– Acho que sim. – ela respondeu. Então, ela me abraçou bem forte e disse:
– Eu também estou triste porque os meus pais estão brigando muito, sabe… Acho que eles vão se separar. O meu pai vai morar na casa da minha avó e eu vou morar com a minha mãe. Eu não sei como vai ser porque eu vou ver o meu pai só uma vez por semana…
Ao dizer isso, os olhos da Bia se encheram d’água. Eu já sei quando uma criança vai chorar, é quando ela enxerga o mundo todo alagado, as casas alagadas, as ruas alagadas, os seus brinquedos todos alagados. E, às vezes, as lágrimas são tantas que os pés ficam debaixo d’água. Por isso, eu perguntei:
– Você quer ir até a janela para tomar um pouquinho de sol, Bia? A gente poderia olhar o Caetano lá no céu dos gatinhos.
– Eu quero. Depois, vamos desenhar um gatinho nas nuvens do céu? – ela perguntou.

– Vamos, sim. – eu disse animado.

Então, nós fomos até a janela e olhamos as nuvens em formato de gatinho. Depois, a Bia me colocou sentado na janela, e fez um desenho muito bonito. Ela desenhou o pai e a mãe de mãos dadas. Desenhou o seu gatinho no jardim da sua casa. Quando terminou, ela estava se sentindo um pouco melhor. Então, ela chorou um pouco e eu me lembrei de uma coisa. Quando a brincadeira era de super-herói, eu voava pelos ares e caía no chão, feito o James Bond,

isso nunca doía. Mas quando a Bia me abraçou bem forte e deixou cair um pingo dos seus olhos no meu peito, aquilo entrou no meu tecido tão devagarinho, de nunca mais voltar, e eu senti a dor que ela estava sentindo. Mas, depois, passado algum tempo, eu também fiquei feliz por ele ter se sentido um pouco melhor. Ainda assim, eu estava com muito medo de colocar o plano do robô em prática, mas tomei coragem e perguntei:
– Ei, Bia, você poderia abrir a janela?

– Claro que sim. – ela respondeu.

Então, uma rajada de vento fresco invadiu a sala através da janela aberta. As cortinas brancas esvoaçaram ao ritmo das brisas. Preso nos fios pegajosos da teia de aranha, o bichinho lutava desesperadamente. Suas asas minúsculas vibravam freneticamente, mas em vão. A teia o prendia como uma armadilha mortal. Mas, quando a lufada de vento soprou mais forte através da janela, a teia se desmanchou. E o bichinho, aproveitando a chance, voou com toda a sua força em direção à fresta, desaparecendo no céu azul da tarde. Eu me sentia feliz por ele ter conseguido escapar da teia da aranha e por ter encontrado a sua liberdade.
Alguns minutos depois, a Bia foi embora e também se esqueceu de me guardar na caixa de brinquedos. Então ali, olhando a janela aberta, eu quis entender por que as crianças eram tão grandes quando estavam perto de mim e quase em miniatura quando atravessavam a rua lá longe, quase tão pequenas quanto aquele bichinho voando no ar. Por isso, eu perguntei:
– Ei, Bichinho, você já atravessou a rua?

Mas ele, voando ao longe, não se recordava o que era a rua, o perto ou o longe. Ele ape- nas sorria que sim, que sim, que sim. Então, eu pensava que alguns amigos, como a Ester, o Robô e o Monstro Subterrâneo ficariam sempre por perto de mim, mas outros amigos, como o Bichinho, o gatinho Caetano, o ratinho ou as crianças, mais cedo ou mais tarde, teriam de seguir por outros caminhos. E também fiquei pensando que, em certos momentos da vida, especialmente quando estávamos com medo, todos podíamos ficar enredados e presos em teias de aranha, reais ou imaginárias. Mas todos poderíamos um dia abrir a janela.
Então, olhei bem para o bichinho, sobrevoando o azul do céu. Quando ele também fosse embora, voando pela luz do sol, seria do destamanho de quem já atravessou a rua e virou a es- quina, sabe-se lá para onde, um pontinho final
.

Era muito bom ser um boneco e ajudar as crianças. E era muito bom estar de volta ao consultório. E foi então que eu finalmente entendi: quando o vento abria a janela e entrava nervoso, era porque mais ainda ele queria sair. Já o vento que não queria ser vento, virava um soprinho guardado nas vozes das crianças, e era só isso mesmo, catavento, fim.