{"id":2329,"date":"2026-07-21T09:10:32","date_gmt":"2026-07-21T12:10:32","guid":{"rendered":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=2329"},"modified":"2026-07-21T09:12:05","modified_gmt":"2026-07-21T12:12:05","slug":"a-cicatriz-de-ulisses-de-erich-auerbach","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=2329","title":{"rendered":"&#8220;A cicatriz de Ulisses&#8221;, em Mimesis, de Erich Auerbach."},"content":{"rendered":"<p>O primeiro cap\u00edtulo de Mimesis: a representa\u00e7\u00e3o da realidade na literatura ocidental, intitulado &#8220;<em>A cicatriz de Ulisses<\/em>&#8220;, constitui uma das mais importantes reflex\u00f5es de Erich Auerbach sobre a hist\u00f3ria da literatura ocidental. Nele, o autor compara duas narrativas fundadoras da tradi\u00e7\u00e3o europeia: o epis\u00f3dio do reconhecimento de Ulisses por sua ama Euricleia, no canto XIX da Odisseia de Homero, e a narrativa do sacrif\u00edcio de Isaac, no cap\u00edtulo 22 do G\u00eanesis. A partir dessa compara\u00e7\u00e3o, Auerbach demonstra que essas obras n\u00e3o representam apenas estilos liter\u00e1rios distintos, mas tamb\u00e9m duas formas radicalmente diferentes de compreender e representar a realidade (AUERBACH, 2021).<\/p>\n<p>Segundo Auerbach, a narrativa hom\u00e9rica caracteriza-se por uma extraordin\u00e1ria transpar\u00eancia. Quando Euricleia reconhece Ulisses pela cicatriz em sua perna, Homero interrompe momentaneamente a a\u00e7\u00e3o para explicar detalhadamente a origem daquela marca: um acidente ocorrido durante uma ca\u00e7ada ao javali, na juventude do her\u00f3i. Essa longa digress\u00e3o ilustra um dos tra\u00e7os fundamentais da epopeia hom\u00e9rica: nada permanece oculto ao leitor. Todos os acontecimentos s\u00e3o plenamente iluminados, descritos em detalhes e apresentados em primeiro plano. Os personagens expressam claramente seus pensamentos e emo\u00e7\u00f5es, e a narrativa evita lacunas ou ambiguidades. Como observa Auerbach, &#8220;os acontecimentos s\u00e3o totalmente exteriorizados, apresentados em primeiro plano, uniformemente iluminados; pensamentos e sentimentos s\u00e3o expressos; os acontecimentos desenrolam-se lentamente e com poucos elementos de tens\u00e3o&#8221; (AUERBACH, 2021, p. 9).<\/p>\n<p>Em contraste, o relato b\u00edblico do sacrif\u00edcio de Isaac adota uma estrat\u00e9gia narrativa inteiramente diversa. O texto \u00e9 extremamente conciso e deixa in\u00fameras quest\u00f5es sem resposta. O leitor n\u00e3o conhece os sentimentos de Abra\u00e3o ao receber a ordem divina, tampouco os pensamentos de Isaac durante a caminhada at\u00e9 o monte Mori\u00e1. Tamb\u00e9m n\u00e3o recebe explica\u00e7\u00f5es sobre as raz\u00f5es pelas quais Deus submete Abra\u00e3o a uma prova t\u00e3o extrema. Essa economia narrativa produz uma intensa densidade dram\u00e1tica e convida o leitor a interpretar aquilo que permanece silenciado. Para Auerbach (2021), o texto b\u00edblico n\u00e3o procura explicar tudo; ao contr\u00e1rio, constr\u00f3i sua for\u00e7a precisamente por meio das lacunas, dos sil\u00eancios e da tens\u00e3o que atravessa a narrativa.<\/p>\n<p>Essa diferen\u00e7a revela, para Auerbach, duas concep\u00e7\u00f5es distintas de realidade. Na epopeia hom\u00e9rica, o mundo apresenta-se como uma superf\u00edcie completamente vis\u00edvel, em que cada acontecimento encontra sua explica\u00e7\u00e3o dentro da pr\u00f3pria narrativa. N\u00e3o h\u00e1 mist\u00e9rio nem profundidade oculta: tudo pode ser plenamente conhecido pelo leitor. J\u00e1 a narrativa b\u00edblica aponta continuamente para uma realidade que transcende os fatos imediatamente narrados. Os acontecimentos adquirem significado porque se inserem em um plano hist\u00f3rico e espiritual mais amplo, cuja totalidade jamais \u00e9 completamente revelada. A verdade da narrativa b\u00edblica n\u00e3o reside apenas na descri\u00e7\u00e3o dos fatos, mas na abertura para um sentido que ultrapassa o texto e exige constante interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa caracter\u00edstica produz tamb\u00e9m uma diferen\u00e7a decisiva na constru\u00e7\u00e3o das personagens. Os her\u00f3is hom\u00e9ricos aparecem delineados com grande nitidez desde sua primeira apresenta\u00e7\u00e3o. Sua personalidade manifesta-se diretamente em suas a\u00e7\u00f5es e discursos, permanecendo relativamente est\u00e1vel ao longo da narrativa. Em contrapartida, as personagens b\u00edblicas revelam uma profundidade hist\u00f3rica e existencial muito maior. Abra\u00e3o, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 definido apenas por seus atos, mas pela rela\u00e7\u00e3o din\u00e2mica que estabelece com Deus ao longo de sua vida. Sua identidade permanece em desenvolvimento, marcada por d\u00favidas, prova\u00e7\u00f5es e transforma\u00e7\u00f5es sucessivas. Embora Auerbach n\u00e3o utilize o conceito de &#8220;interioridade&#8221; como categoria te\u00f3rica nesse cap\u00edtulo, sua an\u00e1lise permite perceber que a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica introduz uma representa\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia humana mais aberta, complexa e historicamente situada do que aquela encontrada na epopeia hom\u00e9rica (AUERBACH, 2021).<\/p>\n<p>Essa oposi\u00e7\u00e3o entre Homero e a B\u00edblia inaugura um dos temas centrais de Mimesis: a evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica das formas de representar a realidade. Ao longo da obra, Auerbach acompanha como essas duas matrizes (a clareza descritiva da tradi\u00e7\u00e3o hom\u00e9rica e a profundidade hist\u00f3rica da tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica) dialogam, entram em tens\u00e3o e se transformam na literatura europeia. Autores como Dante, Shakespeare, Cervantes, Montaigne, Balzac, Flaubert, Stendhal, Proust e Virginia Woolf s\u00e3o analisados como momentos sucessivos desse longo processo, no qual a representa\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia humana torna-se cada vez mais complexa e capaz de incorporar tanto a vida cotidiana quanto a dimens\u00e3o hist\u00f3rica e espiritual da exist\u00eancia (AUERBACH, 2021).<\/p>\n<p>Al\u00e9m de sua import\u00e2ncia para a teoria liter\u00e1ria, &#8220;<em>A cicatriz de Ulisses<\/em>&#8221; revela o pr\u00f3prio m\u00e9todo cr\u00edtico de Auerbach. Em vez de formular sistemas abstratos, o autor constr\u00f3i sua interpreta\u00e7\u00e3o por meio da leitura minuciosa de passagens espec\u00edficas, mostrando como escolhas aparentemente formais, como a quantidade de detalhes, a presen\u00e7a ou aus\u00eancia de explica\u00e7\u00f5es e o modo de construir as personagens, expressam diferentes concep\u00e7\u00f5es de realidade. A hist\u00f3ria da literatura, para Auerbach, n\u00e3o consiste apenas na sucess\u00e3o de estilos ou escolas, mas na transforma\u00e7\u00e3o das maneiras pelas quais os seres humanos representam a si mesmos, o mundo e sua experi\u00eancia hist\u00f3rica. \u00c9 por isso que Mimesis permanece uma obra fundamental da cr\u00edtica liter\u00e1ria contempor\u00e2nea: ao investigar a evolu\u00e7\u00e3o das formas de representa\u00e7\u00e3o, Auerbach demonstra que cada grande obra liter\u00e1ria oferece tamb\u00e9m uma maneira singular de compreender a condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/p>\n<p>AUERBACH, Erich. Mimesis: a representa\u00e7\u00e3o da realidade na literatura ocidental. Tradu\u00e7\u00e3o de George Bernard Sperber. 8. ed. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2021.<\/p>\n<p>A B\u00cdBLIA. B\u00edblia de Jerusal\u00e9m. Nova ed. rev. e ampl. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2002.<\/p>\n<p>HOMERO. Odisseia. Tradu\u00e7\u00e3o de Carlos Alberto Nunes. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2015.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O primeiro cap\u00edtulo de Mimesis: a representa\u00e7\u00e3o da realidade na literatura ocidental, intitulado &#8220;A cicatriz de Ulisses&#8220;, constitui uma das mais importantes reflex\u00f5es de Erich Auerbach sobre a hist\u00f3ria da literatura ocidental. Nele, o autor compara duas narrativas fundadoras da tradi\u00e7\u00e3o europeia: o epis\u00f3dio do reconhecimento de Ulisses por sua ama Euricleia, no canto XIX da Odisseia de Homero, e a narrativa do sacrif\u00edcio de Isaac, no cap\u00edtulo 22 do G\u00eanesis. A partir dessa compara\u00e7\u00e3o, Auerbach demonstra que essas obras n\u00e3o representam apenas estilos liter\u00e1rios distintos, mas tamb\u00e9m duas formas radicalmente diferentes de compreender e representar a realidade (AUERBACH, 2021). Segundo Auerbach, a narrativa hom\u00e9rica caracteriza-se por uma extraordin\u00e1ria transpar\u00eancia. Quando Euricleia reconhece Ulisses pela cicatriz em sua perna, Homero interrompe momentaneamente a a\u00e7\u00e3o para explicar detalhadamente a origem daquela marca: um acidente ocorrido durante uma ca\u00e7ada ao javali, na juventude do her\u00f3i. Essa longa digress\u00e3o ilustra um dos tra\u00e7os fundamentais da epopeia hom\u00e9rica: nada permanece oculto ao leitor. Todos os acontecimentos s\u00e3o plenamente iluminados, descritos em detalhes e apresentados em primeiro plano. Os personagens expressam claramente seus pensamentos e emo\u00e7\u00f5es, e a narrativa evita lacunas ou ambiguidades. Como observa Auerbach, &#8220;os acontecimentos s\u00e3o totalmente exteriorizados, apresentados em primeiro plano, uniformemente iluminados; pensamentos e sentimentos s\u00e3o expressos; os acontecimentos desenrolam-se lentamente e com poucos elementos de tens\u00e3o&#8221; (AUERBACH, 2021, p. 9). Em contraste, o relato b\u00edblico do sacrif\u00edcio de Isaac adota uma estrat\u00e9gia narrativa inteiramente diversa. O texto \u00e9 extremamente conciso e deixa in\u00fameras quest\u00f5es sem resposta. O leitor n\u00e3o conhece os sentimentos de Abra\u00e3o ao receber a ordem divina, tampouco os pensamentos de Isaac durante a caminhada at\u00e9 o monte Mori\u00e1. Tamb\u00e9m n\u00e3o recebe explica\u00e7\u00f5es sobre as raz\u00f5es pelas quais Deus submete Abra\u00e3o a uma prova t\u00e3o extrema. Essa economia narrativa produz uma intensa densidade dram\u00e1tica e convida o leitor a interpretar aquilo que permanece silenciado. Para Auerbach (2021), o texto b\u00edblico n\u00e3o procura explicar tudo; ao contr\u00e1rio, constr\u00f3i sua for\u00e7a precisamente por meio das lacunas, dos sil\u00eancios e da tens\u00e3o que atravessa a narrativa. Essa diferen\u00e7a revela, para Auerbach, duas concep\u00e7\u00f5es distintas de realidade. Na epopeia hom\u00e9rica, o mundo apresenta-se como uma superf\u00edcie completamente vis\u00edvel, em que cada acontecimento encontra sua explica\u00e7\u00e3o dentro da pr\u00f3pria narrativa. N\u00e3o h\u00e1 mist\u00e9rio nem profundidade oculta: tudo pode ser plenamente conhecido pelo leitor. J\u00e1 a narrativa b\u00edblica aponta continuamente para uma realidade que transcende os fatos imediatamente narrados. Os acontecimentos adquirem significado porque se inserem em um plano hist\u00f3rico e espiritual mais amplo, cuja totalidade jamais \u00e9 completamente revelada. A verdade da narrativa b\u00edblica n\u00e3o reside apenas na descri\u00e7\u00e3o dos fatos, mas na abertura para um sentido que ultrapassa o texto e exige constante interpreta\u00e7\u00e3o. Essa caracter\u00edstica produz tamb\u00e9m uma diferen\u00e7a decisiva na constru\u00e7\u00e3o das personagens. Os her\u00f3is hom\u00e9ricos aparecem delineados com grande nitidez desde sua primeira apresenta\u00e7\u00e3o. Sua personalidade manifesta-se diretamente em suas a\u00e7\u00f5es e discursos, permanecendo relativamente est\u00e1vel ao longo da narrativa. Em contrapartida, as personagens b\u00edblicas revelam uma profundidade hist\u00f3rica e existencial muito maior. Abra\u00e3o, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 definido apenas por seus atos, mas pela rela\u00e7\u00e3o din\u00e2mica que estabelece com Deus ao longo de sua vida. Sua identidade permanece em desenvolvimento, marcada por d\u00favidas, prova\u00e7\u00f5es e transforma\u00e7\u00f5es sucessivas. Embora Auerbach n\u00e3o utilize o conceito de &#8220;interioridade&#8221; como categoria te\u00f3rica nesse cap\u00edtulo, sua an\u00e1lise permite perceber que a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica introduz uma representa\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia humana mais aberta, complexa e historicamente situada do que aquela encontrada na epopeia hom\u00e9rica (AUERBACH, 2021). Essa oposi\u00e7\u00e3o entre Homero e a B\u00edblia inaugura um dos temas centrais de Mimesis: a evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica das formas de representar a realidade. Ao longo da obra, Auerbach acompanha como essas duas matrizes (a clareza descritiva da tradi\u00e7\u00e3o hom\u00e9rica e a profundidade hist\u00f3rica da tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica) dialogam, entram em tens\u00e3o e se transformam na literatura europeia. Autores como Dante, Shakespeare, Cervantes, Montaigne, Balzac, Flaubert, Stendhal, Proust e Virginia Woolf s\u00e3o analisados como momentos sucessivos desse longo processo, no qual a representa\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia humana torna-se cada vez mais complexa e capaz de incorporar tanto a vida cotidiana quanto a dimens\u00e3o hist\u00f3rica e espiritual da exist\u00eancia (AUERBACH, 2021). Al\u00e9m de sua import\u00e2ncia para a teoria liter\u00e1ria, &#8220;A cicatriz de Ulisses&#8221; revela o pr\u00f3prio m\u00e9todo cr\u00edtico de Auerbach. Em vez de formular sistemas abstratos, o autor constr\u00f3i sua interpreta\u00e7\u00e3o por meio da leitura minuciosa de passagens espec\u00edficas, mostrando como escolhas aparentemente formais, como a quantidade de detalhes, a presen\u00e7a ou aus\u00eancia de explica\u00e7\u00f5es e o modo de construir as personagens, expressam diferentes concep\u00e7\u00f5es de realidade. A hist\u00f3ria da literatura, para Auerbach, n\u00e3o consiste apenas na sucess\u00e3o de estilos ou escolas, mas na transforma\u00e7\u00e3o das maneiras pelas quais os seres humanos representam a si mesmos, o mundo e sua experi\u00eancia hist\u00f3rica. \u00c9 por isso que Mimesis permanece uma obra fundamental da cr\u00edtica liter\u00e1ria contempor\u00e2nea: ao investigar a evolu\u00e7\u00e3o das formas de representa\u00e7\u00e3o, Auerbach demonstra que cada grande obra liter\u00e1ria oferece tamb\u00e9m uma maneira singular de compreender a condi\u00e7\u00e3o humana. Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas: AUERBACH, Erich. Mimesis: a representa\u00e7\u00e3o da realidade na literatura ocidental. Tradu\u00e7\u00e3o de George Bernard Sperber. 8. ed. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2021. A B\u00cdBLIA. B\u00edblia de Jerusal\u00e9m. Nova ed. rev. e ampl. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2002. HOMERO. Odisseia. Tradu\u00e7\u00e3o de Carlos Alberto Nunes. 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