{"id":1682,"date":"2026-04-07T10:17:51","date_gmt":"2026-04-07T13:17:51","guid":{"rendered":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=1682"},"modified":"2026-04-07T10:18:38","modified_gmt":"2026-04-07T13:18:38","slug":"como-maria-helena-de-souza-patto-compreende-o-fracasso-escolar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=1682","title":{"rendered":"Como Maria Helena de Souza Patto compreende o fracasso escolar?"},"content":{"rendered":"\n<p>Maria Helena de Souza Patto compreende o fracasso escolar n\u00e3o como um problema individual da crian\u00e7a, mas como um fen\u00f4meno social, hist\u00f3rico, pol\u00edtico e institucionalmente produzido. Para ela, a explica\u00e7\u00e3o tradicional do fracasso escolar (que o atribui \u00e0 pobreza, \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0 defici\u00eancia cognitiva, \u00e0 falta de esfor\u00e7o do aluno ou a supostos \u201cproblemas emocionais\u201d) funciona como uma forma de culpabiliza\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas, isto \u00e9, transfere para os sujeitos mais vulner\u00e1veis a responsabilidade por um problema que \u00e9 estrutural. Patto critica duramente as teorias psicologizantes e medicalizantes que individualizam o fracasso, pois elas ocultam as determina\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas e pol\u00edticas que atravessam a escola p\u00fablica brasileira (Patto, 1990).<\/p>\n\n\n\n<p>Na sua an\u00e1lise, o fracasso escolar \u00e9 produzido por um conjunto de fatores articulados: a <strong>organiza\u00e7\u00e3o excludente da escola<\/strong>, as <strong>pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas seletivas<\/strong>, os curr\u00edculos descolados da realidade social dos alunos, as avalia\u00e7\u00f5es classificat\u00f3rias, a forma\u00e7\u00e3o docente prec\u00e1ria, as pol\u00edticas p\u00fablicas educacionais desiguais e as condi\u00e7\u00f5es materiais concretas da escolariza\u00e7\u00e3o. A escola, nessa l\u00f3gica, n\u00e3o \u00e9 neutra: ela reproduz as desigualdades sociais existentes e transforma diferen\u00e7as sociais em desigualdades escolares, fazendo parecer que o problema est\u00e1 no aluno, quando, na verdade, est\u00e1 na estrutura do sistema educacional e na forma como ele funciona. Assim, o fracasso escolar n\u00e3o \u00e9 um \u201cacidente\u201d, mas um produto hist\u00f3rico de um modelo de escola que seleciona, exclui e hierarquiza (Patto, 1990; 1999).<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista da Psicologia Escolar, Patto prop\u00f5e uma ruptura com a l\u00f3gica cl\u00ednica-individualizante. O papel do psic\u00f3logo n\u00e3o deve ser o de diagnosticar \u201cd\u00e9ficits\u201d nos alunos, mas o de analisar criticamente a institui\u00e7\u00e3o escolar, suas pr\u00e1ticas, discursos e rela\u00e7\u00f5es de poder. A interven\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, nessa perspectiva, deve ser institucional, coletiva e pol\u00edtica, voltada para a transforma\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es que produzem o fracasso, e n\u00e3o para a adapta\u00e7\u00e3o dos sujeitos a um sistema excludente. Sua concep\u00e7\u00e3o est\u00e1 alinhada a uma Psicologia Escolar cr\u00edtica, comprometida com a democratiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, com a justi\u00e7a social e com a compreens\u00e3o do fracasso escolar como express\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es da sociedade de classes no interior da escola (Patto, 1990; Meira, 2003).<\/p>\n\n\n\n<p>Em s\u00edntese, para Patto, o fracasso escolar n\u00e3o \u00e9 uma falha do aluno, nem um problema psicol\u00f3gico individual, mas uma produ\u00e7\u00e3o social da escola e da sociedade, sustentada por pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas, pol\u00edticas educacionais e discursos cient\u00edficos que<strong> legitimam a exclus\u00e3o<\/strong> como se fosse incapacidade pessoal. Pensar o fracasso escolar, portanto, exige deslocar o olhar do indiv\u00edduo para a estrutura social e institucional que o produz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><strong>Para saber mais:<\/strong><br>PATTO, M. H. S.<a href=\"https:\/\/a.co\/d\/06H0Eg3b\">A produ\u00e7\u00e3o do fracasso escolar: hist\u00f3rias de submiss\u00e3o e rebeldia<\/a>. S\u00e3o Paulo: T.A. Queiroz, 1990.<br>PATTO, M. H. S. <a href=\"https:\/\/repositorio.usp.br\/directbitstream\/2e9ce6d2-10b3-435c-9332-f416a9abf10f\/3115399.pdf\">Psicologia e ideologia: uma introdu\u00e7\u00e3o cr\u00edtica \u00e0 psicologia escolar<\/a>. S\u00e3o Paulo: Casa do Psic\u00f3logo, 1999.<br>MEIRA, M. E. M. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/0bPgpoGF\">Psicologia escolar: teorias cr\u00edticas.<\/a> S\u00e3o Paulo: Casa do Psic\u00f3logo, 2003.<br>OpenAI, ChatGPT para Rita Cruz, Output, 17 de fevereiro de 2026.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Helena de Souza Patto compreende o fracasso escolar n\u00e3o como um problema individual da crian\u00e7a, mas como um fen\u00f4meno social, hist\u00f3rico, pol\u00edtico e institucionalmente produzido. Para ela, a explica\u00e7\u00e3o tradicional do fracasso escolar (que o atribui \u00e0 pobreza, \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0 defici\u00eancia cognitiva, \u00e0 falta de esfor\u00e7o do aluno ou a supostos \u201cproblemas emocionais\u201d) funciona como uma forma de culpabiliza\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas, isto \u00e9, transfere para os sujeitos mais vulner\u00e1veis a responsabilidade por um problema que \u00e9 estrutural. Patto critica duramente as teorias psicologizantes e medicalizantes que individualizam o fracasso, pois elas ocultam as determina\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas e pol\u00edticas que atravessam a escola p\u00fablica brasileira (Patto, 1990). Na sua an\u00e1lise, o fracasso escolar \u00e9 produzido por um conjunto de fatores articulados: a organiza\u00e7\u00e3o excludente da escola, as pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas seletivas, os curr\u00edculos descolados da realidade social dos alunos, as avalia\u00e7\u00f5es classificat\u00f3rias, a forma\u00e7\u00e3o docente prec\u00e1ria, as pol\u00edticas p\u00fablicas educacionais desiguais e as condi\u00e7\u00f5es materiais concretas da escolariza\u00e7\u00e3o. A escola, nessa l\u00f3gica, n\u00e3o \u00e9 neutra: ela reproduz as desigualdades sociais existentes e transforma diferen\u00e7as sociais em desigualdades escolares, fazendo parecer que o problema est\u00e1 no aluno, quando, na verdade, est\u00e1 na estrutura do sistema educacional e na forma como ele funciona. Assim, o fracasso escolar n\u00e3o \u00e9 um \u201cacidente\u201d, mas um produto hist\u00f3rico de um modelo de escola que seleciona, exclui e hierarquiza (Patto, 1990; 1999). Do ponto de vista da Psicologia Escolar, Patto prop\u00f5e uma ruptura com a l\u00f3gica cl\u00ednica-individualizante. O papel do psic\u00f3logo n\u00e3o deve ser o de diagnosticar \u201cd\u00e9ficits\u201d nos alunos, mas o de analisar criticamente a institui\u00e7\u00e3o escolar, suas pr\u00e1ticas, discursos e rela\u00e7\u00f5es de poder. A interven\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, nessa perspectiva, deve ser institucional, coletiva e pol\u00edtica, voltada para a transforma\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es que produzem o fracasso, e n\u00e3o para a adapta\u00e7\u00e3o dos sujeitos a um sistema excludente. Sua concep\u00e7\u00e3o est\u00e1 alinhada a uma Psicologia Escolar cr\u00edtica, comprometida com a democratiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, com a justi\u00e7a social e com a compreens\u00e3o do fracasso escolar como express\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es da sociedade de classes no interior da escola (Patto, 1990; Meira, 2003). Em s\u00edntese, para Patto, o fracasso escolar n\u00e3o \u00e9 uma falha do aluno, nem um problema psicol\u00f3gico individual, mas uma produ\u00e7\u00e3o social da escola e da sociedade, sustentada por pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas, pol\u00edticas educacionais e discursos cient\u00edficos que legitimam a exclus\u00e3o como se fosse incapacidade pessoal. Pensar o fracasso escolar, portanto, exige deslocar o olhar do indiv\u00edduo para a estrutura social e institucional que o produz. Para saber mais:PATTO, M. H. S.A produ\u00e7\u00e3o do fracasso escolar: hist\u00f3rias de submiss\u00e3o e rebeldia. S\u00e3o Paulo: T.A. Queiroz, 1990.PATTO, M. H. S. Psicologia e ideologia: uma introdu\u00e7\u00e3o cr\u00edtica \u00e0 psicologia escolar. S\u00e3o Paulo: Casa do Psic\u00f3logo, 1999.MEIRA, M. E. M. Psicologia escolar: teorias cr\u00edticas. 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