{"id":1666,"date":"2026-04-07T10:17:52","date_gmt":"2026-04-07T13:17:52","guid":{"rendered":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=1666"},"modified":"2026-04-07T10:18:20","modified_gmt":"2026-04-07T13:18:20","slug":"a-construcao-da-adolescencia-segundo-a-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=1666","title":{"rendered":"A constru\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p>No artigo <em>\u00c9dipo, lat\u00eancia e puberdade: a constru\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia<\/em>, Diana Corso prop\u00f5e uma leitura da adolesc\u00eancia n\u00e3o como uma fase isolada do desenvolvimento, mas como o efeito de um longo processo ps\u00edquico que se inicia no per\u00edodo ed\u00edpico, atravessa a lat\u00eancia e se reorganiza na puberdade. A autora se afasta de uma vis\u00e3o linear e biologizante da adolesc\u00eancia, compreendendo-a como uma <strong>constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, subjetiva e hist\u00f3rica<\/strong>, produzida a partir das elabora\u00e7\u00f5es anteriores do sujeito. Nessa perspectiva, cada etapa do desenvolvimento n\u00e3o se encerra em si mesma, mas <strong>deixa marcas, restos e inscri\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas<\/strong> que funcionam como \u201cganchos\u201d para reorganiza\u00e7\u00f5es futuras, de modo que o sujeito n\u00e3o \u201centra\u201d na adolesc\u00eancia a partir do zero, mas a partir de uma bagagem simb\u00f3lica j\u00e1 constitu\u00edda (Corso, 2002). Essa leitura dialoga diretamente com Freud, especialmente com a ideia de que a sexualidade n\u00e3o nasce na puberdade, mas \u00e9 estruturalmente infantil, sendo reorganizada ao longo do desenvolvimento (Freud, 1905\/1996).<\/p>\n\n\n\n<p>Corso atribui \u00e0 lat\u00eancia um papel central nesse processo, rompendo com a no\u00e7\u00e3o de que esse per\u00edodo seria apenas uma pausa pulsional. Ao contr\u00e1rio, a<strong> lat\u00eancia<\/strong> \u00e9 compreendida como um tempo de <strong>elabora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica intensa<\/strong>, no qual o sujeito organiza, recalca, desloca e reinscreve os conflitos ed\u00edpicos em formas socialmente aceit\u00e1veis, como o investimento no saber, nas regras, nos v\u00ednculos sociais e na cultura. \u00c9 nesse momento que se constr\u00f3i uma esp\u00e9cie de \u201carquitetura ps\u00edquica provis\u00f3ria\u201d, que permite ao sujeito sustentar uma estabilidade relativa at\u00e9 a irrup\u00e7\u00e3o das transforma\u00e7\u00f5es pubert\u00e1rias (Corso, 2002). Essa elabora\u00e7\u00e3o silenciosa prepara o terreno para a <strong>puberdade<\/strong>, que n\u00e3o surge como ruptura absoluta, mas como reativa\u00e7\u00e3o e reorganiza\u00e7\u00e3o daquilo que j\u00e1 estava inscrito no psiquismo. Freud j\u00e1 indicava que a puberdade n\u00e3o inaugura a sexualidade, mas reorganiza as puls\u00f5es parciais sob a primazia genital, dando uma nova forma ao desejo (Freud, 1905\/1996).<\/p>\n\n\n\n<p>A adolesc\u00eancia, nesse sentido, aparece como o tempo em que o sujeito \u00e9 convocado a dar corpo, ato e realidade \u00e0quilo que foi simbolicamente elaborado ao longo da inf\u00e2ncia. Corso sustenta que \u00e9 com os \u201crestos\u201d do \u00c9dipo e da lat\u00eancia (conflitos n\u00e3o resolvidos, identifica\u00e7\u00f5es amb\u00edguas, fantasias recalcadas) que o sujeito constr\u00f3i sua posi\u00e7\u00e3o sexuada e sua forma singular de desejar. A adolesc\u00eancia torna-se, assim, um momento de passagem do simb\u00f3lico ao existencial, do ps\u00edquico ao vivido, no qual o sujeito precisa transformar heran\u00e7as ps\u00edquicas em experi\u00eancia concreta, em escolhas, em la\u00e7os, em pr\u00e1ticas e em identidade (Corso, 2002). Trata-se menos de uma fase et\u00e1ria e mais de um trabalho subjetivo profundo de <strong>reorganiza\u00e7\u00e3o do eu, do corpo e do desejo<\/strong>, no qual a sexualidade, o pertencimento social e a identidade se entrela\u00e7am de forma indissoci\u00e1vel. Dessa forma, a autora constr\u00f3i uma compreens\u00e3o da adolesc\u00eancia como processo, e n\u00e3o como etapa fixa, reafirmando a ideia de que o sujeito \u00e9 sempre um efeito hist\u00f3rico de suas pr\u00f3prias elabora\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas (Freud, 1915\/1996; Corso, 2002).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><strong>Para saber mais: <\/strong><br>CORSO, Diana Myriam Lichtenstein. <em>\u00c9dipo, lat\u00eancia e puberdade: a constru\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia<\/em>. Revista da Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica de Porto Alegre, n. 23, dez. 2002. Porto Alegre: APPOA, 1995. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.appoa.com.br\/uploads\/arquivos\/revistas\/revista23.pdf\">http:\/\/www.appoa.com.br\/uploads\/arquivos\/revistas\/revista23.pdf<\/a> . Acesso em: 12 fev. 2026.<br>OpenAI, ChatGPT para Rita Cruz, Output, 17 de fevereiro de 2026.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No artigo \u00c9dipo, lat\u00eancia e puberdade: a constru\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia, Diana Corso prop\u00f5e uma leitura da adolesc\u00eancia n\u00e3o como uma fase isolada do desenvolvimento, mas como o efeito de um longo processo ps\u00edquico que se inicia no per\u00edodo ed\u00edpico, atravessa a lat\u00eancia e se reorganiza na puberdade. A autora se afasta de uma vis\u00e3o linear e biologizante da adolesc\u00eancia, compreendendo-a como uma constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, subjetiva e hist\u00f3rica, produzida a partir das elabora\u00e7\u00f5es anteriores do sujeito. Nessa perspectiva, cada etapa do desenvolvimento n\u00e3o se encerra em si mesma, mas deixa marcas, restos e inscri\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas que funcionam como \u201cganchos\u201d para reorganiza\u00e7\u00f5es futuras, de modo que o sujeito n\u00e3o \u201centra\u201d na adolesc\u00eancia a partir do zero, mas a partir de uma bagagem simb\u00f3lica j\u00e1 constitu\u00edda (Corso, 2002). Essa leitura dialoga diretamente com Freud, especialmente com a ideia de que a sexualidade n\u00e3o nasce na puberdade, mas \u00e9 estruturalmente infantil, sendo reorganizada ao longo do desenvolvimento (Freud, 1905\/1996). Corso atribui \u00e0 lat\u00eancia um papel central nesse processo, rompendo com a no\u00e7\u00e3o de que esse per\u00edodo seria apenas uma pausa pulsional. Ao contr\u00e1rio, a lat\u00eancia \u00e9 compreendida como um tempo de elabora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica intensa, no qual o sujeito organiza, recalca, desloca e reinscreve os conflitos ed\u00edpicos em formas socialmente aceit\u00e1veis, como o investimento no saber, nas regras, nos v\u00ednculos sociais e na cultura. \u00c9 nesse momento que se constr\u00f3i uma esp\u00e9cie de \u201carquitetura ps\u00edquica provis\u00f3ria\u201d, que permite ao sujeito sustentar uma estabilidade relativa at\u00e9 a irrup\u00e7\u00e3o das transforma\u00e7\u00f5es pubert\u00e1rias (Corso, 2002). Essa elabora\u00e7\u00e3o silenciosa prepara o terreno para a puberdade, que n\u00e3o surge como ruptura absoluta, mas como reativa\u00e7\u00e3o e reorganiza\u00e7\u00e3o daquilo que j\u00e1 estava inscrito no psiquismo. Freud j\u00e1 indicava que a puberdade n\u00e3o inaugura a sexualidade, mas reorganiza as puls\u00f5es parciais sob a primazia genital, dando uma nova forma ao desejo (Freud, 1905\/1996). A adolesc\u00eancia, nesse sentido, aparece como o tempo em que o sujeito \u00e9 convocado a dar corpo, ato e realidade \u00e0quilo que foi simbolicamente elaborado ao longo da inf\u00e2ncia. Corso sustenta que \u00e9 com os \u201crestos\u201d do \u00c9dipo e da lat\u00eancia (conflitos n\u00e3o resolvidos, identifica\u00e7\u00f5es amb\u00edguas, fantasias recalcadas) que o sujeito constr\u00f3i sua posi\u00e7\u00e3o sexuada e sua forma singular de desejar. A adolesc\u00eancia torna-se, assim, um momento de passagem do simb\u00f3lico ao existencial, do ps\u00edquico ao vivido, no qual o sujeito precisa transformar heran\u00e7as ps\u00edquicas em experi\u00eancia concreta, em escolhas, em la\u00e7os, em pr\u00e1ticas e em identidade (Corso, 2002). Trata-se menos de uma fase et\u00e1ria e mais de um trabalho subjetivo profundo de reorganiza\u00e7\u00e3o do eu, do corpo e do desejo, no qual a sexualidade, o pertencimento social e a identidade se entrela\u00e7am de forma indissoci\u00e1vel. Dessa forma, a autora constr\u00f3i uma compreens\u00e3o da adolesc\u00eancia como processo, e n\u00e3o como etapa fixa, reafirmando a ideia de que o sujeito \u00e9 sempre um efeito hist\u00f3rico de suas pr\u00f3prias elabora\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas (Freud, 1915\/1996; Corso, 2002). Para saber mais: CORSO, Diana Myriam Lichtenstein. \u00c9dipo, lat\u00eancia e puberdade: a constru\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia. Revista da Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica de Porto Alegre, n. 23, dez. 2002. Porto Alegre: APPOA, 1995. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.appoa.com.br\/uploads\/arquivos\/revistas\/revista23.pdf . 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