{"id":1662,"date":"2026-04-07T10:17:51","date_gmt":"2026-04-07T13:17:51","guid":{"rendered":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=1662"},"modified":"2026-04-07T10:18:21","modified_gmt":"2026-04-07T13:18:21","slug":"adolescencia-e-abrigagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=1662","title":{"rendered":"Adolesc\u00eancia e abrigagem"},"content":{"rendered":"\n<p>O artigo \u201c<em>ADOLESC\u00caNCIA E ABRIGAGEM: tentativa de parentalidade no contexto p\u00fablico<\/em>\u201d de \u00c2ngela L\u00e2ngaro Becker, publicado na Revista da Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica de Porto Alegre (Revista n\u00ba 23), parte da ideia de que as institui\u00e7\u00f5es que cuidam de crian\u00e7as e adolescentes t\u00eam historicamente a tarefa de transmitir valores, modos de vida e refer\u00eancias culturais de uma gera\u00e7\u00e3o para outra, algo que nas sociedades tradicionais estava mais ligado \u00e0 fam\u00edlia biol\u00f3gica e ao exerc\u00edcio direto da parentalidade. Com a modernidade, esse papel se deslocou progressivamente para institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e coletivas, que muitas vezes substituem ou complementam a fam\u00edlia enquanto lugar de transmiss\u00e3o e socializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A autora ressalta que, na modernidade, a parentalidade est\u00e1 cada vez mais desvinculada da conjugalidade tradicional, ou seja, o papel de cuidar, educar e transmitir n\u00e3o depende mais necessariamente da rela\u00e7\u00e3o entre pai e m\u00e3e no sentido biol\u00f3gico cl\u00e1ssico. Isso se reflete em formas contempor\u00e2neas de parentalidade, como uni\u00f5es homoafetivas, ado\u00e7\u00e3o por casais sem filhos biol\u00f3gicos e outros arranjos familiares. Ainda assim, o cuidado parental continua essencial para oferecer \u00e0s crian\u00e7as e adolescentes os valores necess\u00e1rios para crescer e se relacionar com o mundo adulto.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o da parentalidade se torna ainda mais evidente no contexto das institui\u00e7\u00f5es de abrigagem, que s\u00e3o espa\u00e7os p\u00fablicos ou coletivos onde adolescentes que, por diferentes motivos, ficaram afastados de suas fam\u00edlias, passam a viver. Para Becker, nesses lugares emerge a necessidade de repensar o papel dessas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas como espa\u00e7os de acolhimento material, mas como espa\u00e7os em que se tenta refazer os v\u00ednculos de filia\u00e7\u00e3o e as possibilidades de identifica\u00e7\u00e3o que faltaram na fam\u00edlia de origem.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses adolescentes, ao viverem em institui\u00e7\u00f5es de abrigo, enfrentam um duplo movimento: por um lado, desejam restabelecer la\u00e7os afetivos que falharam, sentidos como repeti\u00e7\u00e3o de uma car\u00eancia e insatisfa\u00e7\u00e3o familiar, e, por outro, s\u00e3o confrontados com as limita\u00e7\u00f5es e instabilidades afetivas de rela\u00e7\u00f5es institucionais que, apesar de estruturadas, n\u00e3o substituem integralmente a experi\u00eancia familiar. Becker sugere que as dificuldades nas rela\u00e7\u00f5es internas das institui\u00e7\u00f5es muitas vezes reproduzem conflitos emocionais semelhantes aos que os jovens viviam em suas fam\u00edlias de origem, especialmente a dificuldade de diferenciar la\u00e7os amorosos de depend\u00eancia emocional.<\/p>\n\n\n\n<p>Um ponto central da an\u00e1lise da autora \u00e9 que a parentalidade, mesmo no contexto institucional, deve ser pensada como algo mais simb\u00f3lico que biol\u00f3gico. Isso significa que o que importa n\u00e3o \u00e9 tanto quem cuida do adolescente em termos corporais, mas como esses v\u00ednculos s\u00e3o reconhecidos, legitimados e transmitidos socialmente, oferecendo ao jovem refer\u00eancias para lidar com perdas, estabelecer limites e se orientar em sua trajet\u00f3ria de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Becker tamb\u00e9m discute a ideia de que o \u201cpai fundador\u201d, o pai como figura biol\u00f3gica ou origin\u00e1ria, tende a perder centralidade na forma\u00e7\u00e3o subjetiva moderna, dando lugar a uma parentalidade mais simb\u00f3lica, ligada \u00e0 transmiss\u00e3o social e cultural de normas, valores e refer\u00eancias. No trabalho com adolescentes, as institui\u00e7\u00f5es que assumem esse papel de parentalidade p\u00fablica enfrentam o desafio de equilibrar vigil\u00e2ncia, regras e cuidado afetivo, oferecendo um contexto que permita ao jovem construir um sentido de responsabilidade, la\u00e7os est\u00e1veis e possibilidades de conviv\u00eancia social.<\/p>\n\n\n\n<p>Em s\u00edntese, o artigo aborda como, diante das transforma\u00e7\u00f5es sociais contempor\u00e2neas, em que fam\u00edlias biol\u00f3gicas se diversificam ou se fragilizam, as institui\u00e7\u00f5es de abrigagem podem contribuir para reconstruir la\u00e7os de filia\u00e7\u00e3o e identidades de sujeitos juvenis, n\u00e3o apenas pela prote\u00e7\u00e3o f\u00edsica, mas pela cria\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas de reconhecimento, transmiss\u00e3o cultural e afetiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><strong>Para saber mais:<\/strong><br>BECKER, \u00c2ngela L\u00e2ngaro. <em>Adolesc\u00eancia e abrigagem: tentativa de parentalidade no contexto p\u00fablico<\/em>. Revista da Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica de Porto Alegre \u2013 Cl\u00ednica da Adolesc\u00eancia, Porto Alegre, APPOA, n. 23, p. 99-108, dez. 2002.<br>OpenAI, ChatGPT para Rita Cruz, Output, 17 de fevereiro de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O artigo \u201cADOLESC\u00caNCIA E ABRIGAGEM: tentativa de parentalidade no contexto p\u00fablico\u201d de \u00c2ngela L\u00e2ngaro Becker, publicado na Revista da Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica de Porto Alegre (Revista n\u00ba 23), parte da ideia de que as institui\u00e7\u00f5es que cuidam de crian\u00e7as e adolescentes t\u00eam historicamente a tarefa de transmitir valores, modos de vida e refer\u00eancias culturais de uma gera\u00e7\u00e3o para outra, algo que nas sociedades tradicionais estava mais ligado \u00e0 fam\u00edlia biol\u00f3gica e ao exerc\u00edcio direto da parentalidade. Com a modernidade, esse papel se deslocou progressivamente para institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e coletivas, que muitas vezes substituem ou complementam a fam\u00edlia enquanto lugar de transmiss\u00e3o e socializa\u00e7\u00e3o. A autora ressalta que, na modernidade, a parentalidade est\u00e1 cada vez mais desvinculada da conjugalidade tradicional, ou seja, o papel de cuidar, educar e transmitir n\u00e3o depende mais necessariamente da rela\u00e7\u00e3o entre pai e m\u00e3e no sentido biol\u00f3gico cl\u00e1ssico. Isso se reflete em formas contempor\u00e2neas de parentalidade, como uni\u00f5es homoafetivas, ado\u00e7\u00e3o por casais sem filhos biol\u00f3gicos e outros arranjos familiares. Ainda assim, o cuidado parental continua essencial para oferecer \u00e0s crian\u00e7as e adolescentes os valores necess\u00e1rios para crescer e se relacionar com o mundo adulto. Essa transforma\u00e7\u00e3o da parentalidade se torna ainda mais evidente no contexto das institui\u00e7\u00f5es de abrigagem, que s\u00e3o espa\u00e7os p\u00fablicos ou coletivos onde adolescentes que, por diferentes motivos, ficaram afastados de suas fam\u00edlias, passam a viver. Para Becker, nesses lugares emerge a necessidade de repensar o papel dessas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas como espa\u00e7os de acolhimento material, mas como espa\u00e7os em que se tenta refazer os v\u00ednculos de filia\u00e7\u00e3o e as possibilidades de identifica\u00e7\u00e3o que faltaram na fam\u00edlia de origem. Esses adolescentes, ao viverem em institui\u00e7\u00f5es de abrigo, enfrentam um duplo movimento: por um lado, desejam restabelecer la\u00e7os afetivos que falharam, sentidos como repeti\u00e7\u00e3o de uma car\u00eancia e insatisfa\u00e7\u00e3o familiar, e, por outro, s\u00e3o confrontados com as limita\u00e7\u00f5es e instabilidades afetivas de rela\u00e7\u00f5es institucionais que, apesar de estruturadas, n\u00e3o substituem integralmente a experi\u00eancia familiar. Becker sugere que as dificuldades nas rela\u00e7\u00f5es internas das institui\u00e7\u00f5es muitas vezes reproduzem conflitos emocionais semelhantes aos que os jovens viviam em suas fam\u00edlias de origem, especialmente a dificuldade de diferenciar la\u00e7os amorosos de depend\u00eancia emocional. Um ponto central da an\u00e1lise da autora \u00e9 que a parentalidade, mesmo no contexto institucional, deve ser pensada como algo mais simb\u00f3lico que biol\u00f3gico. Isso significa que o que importa n\u00e3o \u00e9 tanto quem cuida do adolescente em termos corporais, mas como esses v\u00ednculos s\u00e3o reconhecidos, legitimados e transmitidos socialmente, oferecendo ao jovem refer\u00eancias para lidar com perdas, estabelecer limites e se orientar em sua trajet\u00f3ria de vida. Becker tamb\u00e9m discute a ideia de que o \u201cpai fundador\u201d, o pai como figura biol\u00f3gica ou origin\u00e1ria, tende a perder centralidade na forma\u00e7\u00e3o subjetiva moderna, dando lugar a uma parentalidade mais simb\u00f3lica, ligada \u00e0 transmiss\u00e3o social e cultural de normas, valores e refer\u00eancias. No trabalho com adolescentes, as institui\u00e7\u00f5es que assumem esse papel de parentalidade p\u00fablica enfrentam o desafio de equilibrar vigil\u00e2ncia, regras e cuidado afetivo, oferecendo um contexto que permita ao jovem construir um sentido de responsabilidade, la\u00e7os est\u00e1veis e possibilidades de conviv\u00eancia social. Em s\u00edntese, o artigo aborda como, diante das transforma\u00e7\u00f5es sociais contempor\u00e2neas, em que fam\u00edlias biol\u00f3gicas se diversificam ou se fragilizam, as institui\u00e7\u00f5es de abrigagem podem contribuir para reconstruir la\u00e7os de filia\u00e7\u00e3o e identidades de sujeitos juvenis, n\u00e3o apenas pela prote\u00e7\u00e3o f\u00edsica, mas pela cria\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas de reconhecimento, transmiss\u00e3o cultural e afetiva. Para saber mais:BECKER, \u00c2ngela L\u00e2ngaro. Adolesc\u00eancia e abrigagem: tentativa de parentalidade no contexto p\u00fablico. Revista da Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica de Porto Alegre \u2013 Cl\u00ednica da Adolesc\u00eancia, Porto Alegre, APPOA, n. 23, p. 99-108, dez. 2002.OpenAI, ChatGPT para Rita Cruz, Output, 17 de fevereiro de 2026.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[257,249],"class_list":["post-1662","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-psicologia","tag-abrigagem","tag-adolescencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1662","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1662"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1662\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1725,"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1662\/revisions\/1725"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1662"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1662"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1662"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}