{"id":1623,"date":"2026-04-07T10:18:55","date_gmt":"2026-04-07T13:18:55","guid":{"rendered":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=1623"},"modified":"2026-04-07T10:18:55","modified_gmt":"2026-04-07T13:18:55","slug":"mulheres-que-amaram-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=1623","title":{"rendered":"Mulheres que amaram mulheres"},"content":{"rendered":"\n<p>Entre os s\u00e9culos XVIII e XIX, o avan\u00e7o da industrializa\u00e7\u00e3o e a expans\u00e3o do com\u00e9rcio contribu\u00edram para uma reorganiza\u00e7\u00e3o profunda da vida social, marcada por uma divis\u00e3o r\u00edgida dos pap\u00e9is de g\u00eanero. Consolidou-se, nesse per\u00edodo, a separa\u00e7\u00e3o entre esfera p\u00fablica e esfera privada: aos homens foi atribu\u00eddo o espa\u00e7o do trabalho remunerado, da pol\u00edtica e da vida intelectual p\u00fablica, enquanto \u00e0s mulheres coube o confinamento ao lar, \u00e0 maternidade e ao cuidado da fam\u00edlia. Essa divis\u00e3o, apresentada como natural, foi amplamente sustentada por discursos m\u00e9dicos, jur\u00eddicos e morais que refor\u00e7avam a ideia de uma feminilidade voltada \u00e0 domesticidade e \u00e0 depend\u00eancia (Scott, 1995; Perrot, 2007).<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a vida das mulheres passou a ser organizada em torno de rela\u00e7\u00f5es intensas no espa\u00e7o dom\u00e9stico e comunit\u00e1rio. Limitadas em sua circula\u00e7\u00e3o social e exclu\u00eddas de grande parte das experi\u00eancias p\u00fablicas, elas passaram a depender umas das outras para apoio emocional, companhia e reconhecimento. A conviv\u00eancia cotidiana favoreceu a forma\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos profundos entre mulheres, que muitas vezes assumiam contornos afetivos e rom\u00e2nticos, ainda que nem sempre fossem nomeados ou compreendidos a partir das categorias contempor\u00e2neas de sexualidade (Faderman, 1981; Vicinus, 1992).<\/p>\n\n\n\n<p>Essas rela\u00e7\u00f5es, por vezes descritas como \u201camizades rom\u00e2nticas\u201d, eram socialmente toleradas justamente por estarem inscritas no universo feminino e dom\u00e9stico, considerado dessexualizado ou moralmente seguro. No entanto, ao mesmo tempo em que eram permitidas, tais liga\u00e7\u00f5es revelam as formas pelas quais as mulheres encontraram brechas para construir intimidade, desejo e pertencimento em um mundo que restringia severamente suas possibilidades de autonomia individual e express\u00e3o afetiva (Foucault, 1988; Perrot, 2007).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a divis\u00e3o sexual do trabalho e a separa\u00e7\u00e3o entre p\u00fablico e privado n\u00e3o apenas organizaram as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero na modernidade industrial, mas tamb\u00e9m criaram condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para o surgimento e a legitima\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos afetivos intensos entre mulheres. Esses la\u00e7os podem ser compreendidos como respostas hist\u00f3ricas a um regime social que isolava as mulheres do espa\u00e7o p\u00fablico, ao mesmo tempo em que as reunia e aproximava no interior da vida dom\u00e9stica (Scott, 1995; Vicinus, 1992).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><strong>Para saber mais: <\/strong><br>FADARMAN, Lillian. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/05T77U32\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Surpassing the Love of Men: Romantic Friendship and Love Between Women from the Renaissance to the Present<\/a>. New York: William Morrow, 1981.<br>FOUCAULT, Michel. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/0dbN9bta\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Hist\u00f3ria da sexualidade I: A vontade de saber<\/a>. Rio de Janeiro: Graal, 1988.<br>PERROT, Michelle. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/03RQuUX9\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Minha hist\u00f3ria das mulheres<\/a>. S\u00e3o Paulo: Contexto, 2007.<br>SCOTT, Joan W. <a href=\"https:\/\/seer.ufrgs.br\/index.php\/educacaoerealidade\/article\/view\/71721\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">G\u00eanero: uma categoria \u00fatil de an\u00e1lise hist\u00f3rica<\/a>. Educa\u00e7\u00e3o &amp; Realidade, v. 20, n. 2, 1995.<br>VICINUS, Martha. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/0iYjLDTv\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Intimate Friends: Women Who Loved Women<\/a>, 1778\u20131928. Chicago: University of Chicago Press, 1992.<br>OpenAI, ChatGPT para Rita Cruz, Output, 17 de fevereiro de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre os s\u00e9culos XVIII e XIX, o avan\u00e7o da industrializa\u00e7\u00e3o e a expans\u00e3o do com\u00e9rcio contribu\u00edram para uma reorganiza\u00e7\u00e3o profunda da vida social, marcada por uma divis\u00e3o r\u00edgida dos pap\u00e9is de g\u00eanero. Consolidou-se, nesse per\u00edodo, a separa\u00e7\u00e3o entre esfera p\u00fablica e esfera privada: aos homens foi atribu\u00eddo o espa\u00e7o do trabalho remunerado, da pol\u00edtica e da vida intelectual p\u00fablica, enquanto \u00e0s mulheres coube o confinamento ao lar, \u00e0 maternidade e ao cuidado da fam\u00edlia. Essa divis\u00e3o, apresentada como natural, foi amplamente sustentada por discursos m\u00e9dicos, jur\u00eddicos e morais que refor\u00e7avam a ideia de uma feminilidade voltada \u00e0 domesticidade e \u00e0 depend\u00eancia (Scott, 1995; Perrot, 2007). Nesse contexto, a vida das mulheres passou a ser organizada em torno de rela\u00e7\u00f5es intensas no espa\u00e7o dom\u00e9stico e comunit\u00e1rio. Limitadas em sua circula\u00e7\u00e3o social e exclu\u00eddas de grande parte das experi\u00eancias p\u00fablicas, elas passaram a depender umas das outras para apoio emocional, companhia e reconhecimento. A conviv\u00eancia cotidiana favoreceu a forma\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos profundos entre mulheres, que muitas vezes assumiam contornos afetivos e rom\u00e2nticos, ainda que nem sempre fossem nomeados ou compreendidos a partir das categorias contempor\u00e2neas de sexualidade (Faderman, 1981; Vicinus, 1992). Essas rela\u00e7\u00f5es, por vezes descritas como \u201camizades rom\u00e2nticas\u201d, eram socialmente toleradas justamente por estarem inscritas no universo feminino e dom\u00e9stico, considerado dessexualizado ou moralmente seguro. No entanto, ao mesmo tempo em que eram permitidas, tais liga\u00e7\u00f5es revelam as formas pelas quais as mulheres encontraram brechas para construir intimidade, desejo e pertencimento em um mundo que restringia severamente suas possibilidades de autonomia individual e express\u00e3o afetiva (Foucault, 1988; Perrot, 2007). Assim, a divis\u00e3o sexual do trabalho e a separa\u00e7\u00e3o entre p\u00fablico e privado n\u00e3o apenas organizaram as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero na modernidade industrial, mas tamb\u00e9m criaram condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para o surgimento e a legitima\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos afetivos intensos entre mulheres. Esses la\u00e7os podem ser compreendidos como respostas hist\u00f3ricas a um regime social que isolava as mulheres do espa\u00e7o p\u00fablico, ao mesmo tempo em que as reunia e aproximava no interior da vida dom\u00e9stica (Scott, 1995; Vicinus, 1992). Para saber mais: FADARMAN, Lillian. Surpassing the Love of Men: Romantic Friendship and Love Between Women from the Renaissance to the Present. New York: William Morrow, 1981.FOUCAULT, Michel. Hist\u00f3ria da sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.PERROT, Michelle. Minha hist\u00f3ria das mulheres. S\u00e3o Paulo: Contexto, 2007.SCOTT, Joan W. G\u00eanero: uma categoria \u00fatil de an\u00e1lise hist\u00f3rica. Educa\u00e7\u00e3o &amp; Realidade, v. 20, n. 2, 1995.VICINUS, Martha. Intimate Friends: Women Who Loved Women, 1778\u20131928. 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