{"id":1453,"date":"2026-04-07T10:19:48","date_gmt":"2026-04-07T13:19:48","guid":{"rendered":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=1453"},"modified":"2026-04-07T10:19:48","modified_gmt":"2026-04-07T13:19:48","slug":"o-que-acontece-nas-alucinacoes-auditivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=1453","title":{"rendered":"O que acontece nas alucina\u00e7\u00f5es auditivas?"},"content":{"rendered":"\n<p>Em condi\u00e7\u00f5es normais, a audi\u00e7\u00e3o come\u00e7a quando as ondas sonoras entram pelo ouvido externo e fazem o t\u00edmpano vibrar. Essas vibra\u00e7\u00f5es s\u00e3o transmitidas e amplificadas pelos oss\u00edculos do ouvido m\u00e9dio at\u00e9 chegarem \u00e0 c\u00f3clea, uma estrutura do ouvido interno respons\u00e1vel por transformar o movimento mec\u00e2nico do som em impulsos el\u00e9tricos. Esses impulsos seguem pelo nervo auditivo at\u00e9 o c\u00e9rebro, alcan\u00e7ando o c\u00f3rtex auditivo, localizado no lobo temporal, onde o som \u00e9 reconhecido, diferenciado e interpretado como uma voz, um ru\u00eddo ou uma m\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas alucina\u00e7\u00f5es auditivas, esse circuito \u00e9 ativado de maneira at\u00edpica. Em vez de o est\u00edmulo sonoro vir do ambiente externo, o pr\u00f3prio c\u00e9rebro passa a gerar a experi\u00eancia auditiva internamente. Estudos de neuroimagem mostram que, quando uma pessoa relata estar ouvindo vozes, o c\u00f3rtex auditivo apresenta n\u00edveis de ativa\u00e7\u00e3o semelhantes aos observados quando ela est\u00e1 realmente escutando um som externo. Isso ajuda a explicar por que essas vozes s\u00e3o vividas como reais, claras e externas, e n\u00e3o como simples pensamentos (Allen et al., 2008).<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, costuma haver uma hiperatividade nas regi\u00f5es temporais associadas \u00e0 linguagem e \u00e0 percep\u00e7\u00e3o auditiva, combinada com falhas no funcionamento do c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal. O c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal exerce um papel de monitoramento da realidade, ajudando a distinguir entre aquilo que \u00e9 produzido internamente (como pensamentos, lembran\u00e7as ou imagina\u00e7\u00e3o) e aquilo que vem do mundo externo. Quando esse controle est\u00e1 enfraquecido, o c\u00e9rebro pode atribuir origem externa a conte\u00fados internos, fazendo com que pensamentos ou falas internas sejam percebidos como vozes alheias (Jardri et al., 2011).<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista da experi\u00eancia subjetiva, as vozes costumam ter caracter\u00edsticas bem definidas: podem soar masculinas ou femininas, conhecidas ou desconhecidas, pr\u00f3ximas ou distantes. Muitas vezes, comentam a\u00e7\u00f5es, fazem cr\u00edticas, d\u00e3o ordens ou emitem julgamentos. O impacto emocional dessas experi\u00eancias \u00e9 significativo. Quando as vozes s\u00e3o hostis ou amea\u00e7adoras, podem gerar medo, ansiedade, culpa ou confus\u00e3o intensa; em outros casos, podem ser percebidas como protetoras ou reconfortantes, o que mostra que o conte\u00fado emocional das alucina\u00e7\u00f5es est\u00e1 profundamente ligado \u00e0 hist\u00f3ria ps\u00edquica do indiv\u00edduo (Bentall, 2003).<\/p>\n\n\n\n<p>Em s\u00edntese, as alucina\u00e7\u00f5es auditivas n\u00e3o s\u00e3o um \u201couvir imagin\u00e1rio\u201d, mas o resultado de uma ativa\u00e7\u00e3o real dos circuitos cerebrais da audi\u00e7\u00e3o, combinada a altera\u00e7\u00f5es nos sistemas que monitoram a origem das experi\u00eancias mentais. Por isso, para quem as vivencia, as vozes possuem presen\u00e7a, identidade e for\u00e7a emocional compar\u00e1veis \u00e0s de um som real vindo do ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><strong>Para saber mais:<\/strong><br>Allen, P. et al. <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/17267934\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Neural correlates of the misattribution of speech in schizophrenia<\/a>. British Journal of Psychiatry, v. 192, p. 178\u2013186, 2008.<br>Jardri, R. et al. <a href=\"https:\/\/pmc.ncbi.nlm.nih.gov\/articles\/PMC6403092\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">The neural bases of auditory verbal hallucinations in schizophrenia<\/a>. The Lancet Psychiatry, v. 1, p. 79\u201389, 2011.<br>Bentall, R. P. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/1NTxLNo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Madness explained: Psychosis and human nature<\/a>. London: Penguin Books, 2003.<br>OpenAI, ChatGPT para Rita Cruz, Output, 17 de fevereiro de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em condi\u00e7\u00f5es normais, a audi\u00e7\u00e3o come\u00e7a quando as ondas sonoras entram pelo ouvido externo e fazem o t\u00edmpano vibrar. Essas vibra\u00e7\u00f5es s\u00e3o transmitidas e amplificadas pelos oss\u00edculos do ouvido m\u00e9dio at\u00e9 chegarem \u00e0 c\u00f3clea, uma estrutura do ouvido interno respons\u00e1vel por transformar o movimento mec\u00e2nico do som em impulsos el\u00e9tricos. Esses impulsos seguem pelo nervo auditivo at\u00e9 o c\u00e9rebro, alcan\u00e7ando o c\u00f3rtex auditivo, localizado no lobo temporal, onde o som \u00e9 reconhecido, diferenciado e interpretado como uma voz, um ru\u00eddo ou uma m\u00fasica. Nas alucina\u00e7\u00f5es auditivas, esse circuito \u00e9 ativado de maneira at\u00edpica. Em vez de o est\u00edmulo sonoro vir do ambiente externo, o pr\u00f3prio c\u00e9rebro passa a gerar a experi\u00eancia auditiva internamente. Estudos de neuroimagem mostram que, quando uma pessoa relata estar ouvindo vozes, o c\u00f3rtex auditivo apresenta n\u00edveis de ativa\u00e7\u00e3o semelhantes aos observados quando ela est\u00e1 realmente escutando um som externo. Isso ajuda a explicar por que essas vozes s\u00e3o vividas como reais, claras e externas, e n\u00e3o como simples pensamentos (Allen et al., 2008). Al\u00e9m disso, costuma haver uma hiperatividade nas regi\u00f5es temporais associadas \u00e0 linguagem e \u00e0 percep\u00e7\u00e3o auditiva, combinada com falhas no funcionamento do c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal. O c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal exerce um papel de monitoramento da realidade, ajudando a distinguir entre aquilo que \u00e9 produzido internamente (como pensamentos, lembran\u00e7as ou imagina\u00e7\u00e3o) e aquilo que vem do mundo externo. Quando esse controle est\u00e1 enfraquecido, o c\u00e9rebro pode atribuir origem externa a conte\u00fados internos, fazendo com que pensamentos ou falas internas sejam percebidos como vozes alheias (Jardri et al., 2011). Do ponto de vista da experi\u00eancia subjetiva, as vozes costumam ter caracter\u00edsticas bem definidas: podem soar masculinas ou femininas, conhecidas ou desconhecidas, pr\u00f3ximas ou distantes. Muitas vezes, comentam a\u00e7\u00f5es, fazem cr\u00edticas, d\u00e3o ordens ou emitem julgamentos. O impacto emocional dessas experi\u00eancias \u00e9 significativo. Quando as vozes s\u00e3o hostis ou amea\u00e7adoras, podem gerar medo, ansiedade, culpa ou confus\u00e3o intensa; em outros casos, podem ser percebidas como protetoras ou reconfortantes, o que mostra que o conte\u00fado emocional das alucina\u00e7\u00f5es est\u00e1 profundamente ligado \u00e0 hist\u00f3ria ps\u00edquica do indiv\u00edduo (Bentall, 2003). Em s\u00edntese, as alucina\u00e7\u00f5es auditivas n\u00e3o s\u00e3o um \u201couvir imagin\u00e1rio\u201d, mas o resultado de uma ativa\u00e7\u00e3o real dos circuitos cerebrais da audi\u00e7\u00e3o, combinada a altera\u00e7\u00f5es nos sistemas que monitoram a origem das experi\u00eancias mentais. Por isso, para quem as vivencia, as vozes possuem presen\u00e7a, identidade e for\u00e7a emocional compar\u00e1veis \u00e0s de um som real vindo do ambiente. Para saber mais:Allen, P. et al. Neural correlates of the misattribution of speech in schizophrenia. British Journal of Psychiatry, v. 192, p. 178\u2013186, 2008.Jardri, R. et al. The neural bases of auditory verbal hallucinations in schizophrenia. The Lancet Psychiatry, v. 1, p. 79\u201389, 2011.Bentall, R. P. Madness explained: Psychosis and human nature. London: Penguin Books, 2003.OpenAI, ChatGPT para Rita Cruz, Output, 17 de fevereiro de 2026.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[35,67,12],"tags":[190,16,188],"class_list":["post-1453","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-biologia","category-neuropsicologia","category-psicologia","tag-alucinacoes","tag-esquizofrenia","tag-psicose"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1453","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1453"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1453\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1757,"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1453\/revisions\/1757"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1453"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1453"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1453"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}