{"id":1437,"date":"2026-04-07T10:18:38","date_gmt":"2026-04-07T13:18:38","guid":{"rendered":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=1437"},"modified":"2026-04-07T10:18:38","modified_gmt":"2026-04-07T13:18:38","slug":"1437","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=1437","title":{"rendered":"Como podemos entender a paix\u00e3o?"},"content":{"rendered":"\n<p>A paix\u00e3o pode ser compreendida de maneira mais ampla quando observada a partir de v\u00e1rios n\u00edveis articulados (como o psicanal\u00edtico, o psicol\u00f3gico e o biol\u00f3gico), pois ela n\u00e3o \u00e9 apenas um sentimento intenso, mas uma experi\u00eancia complexa que envolve o corpo, a mente e a hist\u00f3ria subjetiva do indiv\u00edduo.<\/p>\n\n\n\n<p>No <strong>sentido psicanal\u00edtico<\/strong>, a paix\u00e3o est\u00e1 ligada \u00e0 din\u00e2mica do desejo e \u00e0s <strong>rela\u00e7\u00f5es inconscientes<\/strong> que o sujeito estabelece com o outro. Para Freud, a paix\u00e3o amorosa envolve um <strong>forte investimento libidinal<\/strong> no objeto amado, muitas vezes acompanhado de <strong>idealiza\u00e7\u00e3o<\/strong>. O outro passa a ser visto como portador de qualidades absolutas, e essa supervaloriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o diz respeito apenas \u00e0 pessoa real, mas \u00e0s fantasias, car\u00eancias e desejos inconscientes do sujeito. <strong>Lacan<\/strong> aprofunda essa leitura ao afirmar que, na paix\u00e3o, o sujeito ama no outro aquilo que lhe falta, isto \u00e9, o objeto do amor ocupa simbolicamente o lugar daquilo que o sujeito sente como <strong>aus\u00eancia em si mesmo<\/strong>. Por isso, a paix\u00e3o tende a ser marcada por depend\u00eancia, ci\u00fame, sofrimento e perda de limites entre o eu e o outro, podendo assumir um car\u00e1ter avassalador e, em alguns casos, autodestrutivo (Freud, 1914; Lacan, 1966).<\/p>\n\n\n\n<p>Do <strong>ponto de vista psicol\u00f3gico<\/strong>, especialmente nas abordagens contempor\u00e2neas, a paix\u00e3o \u00e9 entendida como um estado emocional intenso, caracterizado por forte <strong>ativa\u00e7\u00e3o afetiva<\/strong>, foco quase exclusivo no objeto amado e diminui\u00e7\u00e3o da capacidade cr\u00edtica. Ela se diferencia do amor maduro porque \u00e9 mais inst\u00e1vel, impulsiva e marcada por urg\u00eancia. Autores como <strong>Sternberg<\/strong> descrevem a paix\u00e3o como um dos componentes do amor, ao lado da intimidade e do compromisso, sendo respons\u00e1vel pela atra\u00e7\u00e3o intensa e pelo desejo, mas insuficiente, sozinha, para sustentar v\u00ednculos duradouros. Psicologicamente, a paix\u00e3o tende a reduzir a percep\u00e7\u00e3o de riscos, aumentar a impulsividade e gerar oscila\u00e7\u00f5es emocionais intensas, o que explica tanto seu car\u00e1ter encantador quanto seu potencial de sofrimento (Sternberg, 1986).<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 no <strong>plano biol\u00f3gico<\/strong>, a paix\u00e3o envolve uma verdadeira <strong>reorganiza\u00e7\u00e3o neuroqu\u00edmica<\/strong> do organismo. Estudos em neuroci\u00eancia mostram que, durante estados passionais, h\u00e1 aumento da atividade dopamin\u00e9rgica no sistema de recompensa do c\u00e9rebro, especialmente em \u00e1reas como o n\u00facleo accumbens. A dopamina est\u00e1 associada \u00e0 <strong>motiva\u00e7\u00e3o<\/strong>, ao prazer e \u00e0 expectativa, o que explica a sensa\u00e7\u00e3o de euforia, energia elevada e foco obsessivo no outro. Ao mesmo tempo, h\u00e1 redu\u00e7\u00e3o da serotonina, neurotransmissor ligado ao controle e \u00e0 estabilidade emocional, o que contribui para pensamentos repetitivos e comportamentos compulsivos t\u00edpicos da paix\u00e3o. Horm\u00f4nios como a noradrenalina tamb\u00e9m participam, intensificando a excita\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica, a acelera\u00e7\u00e3o card\u00edaca e a hipervigil\u00e2ncia emocional (Fisher, 2004).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a paix\u00e3o pode ser entendida como um estado de intensa mobiliza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e biol\u00f3gica, no qual o sujeito se v\u00ea tomado por for\u00e7as que ultrapassam o controle racional. Ela n\u00e3o \u00e9 patol\u00f3gica em si, mas representa uma fase ou uma forma de v\u00ednculo marcada por idealiza\u00e7\u00e3o, fus\u00e3o e alta ativa\u00e7\u00e3o emocional. Quando atravessada pela reflex\u00e3o, pelo tempo e pela alteridade, a paix\u00e3o pode se transformar em amor; quando fixada na depend\u00eancia e na perda do eu, pode se tornar fonte de sofrimento ps\u00edquico. Em todos os casos, ela revela algo fundamental sobre o desejo humano, sua vulnerabilidade e sua busca por completude.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><strong>Para saber mais:<\/strong><br>FREUD, Sigmund. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/fP86TBP\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Introdu\u00e7\u00e3o ao narcisismo<\/a>. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1914.<br>LACAN, Jacques. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/cgxhI6C\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Escritos<\/a>. Rio de Janeiro: Zahar, 1966.<br>STERNBERG, Robert J. <a href=\"https:\/\/psycnet.apa.org\/record\/1986-21992-001\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A triangular theory of love<\/a>. Psychological Review, v. 93, n. 2, p. 119\u2013135, 1986.<br>FISHER, Helen. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/fYWSQdB\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Why we love: the nature and chemistry of romantic love<\/a>. New York: Henry Holt, 2004.<br>OpenAI, ChatGPT para Rita Cruz, Output, 17 de fevereiro de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A paix\u00e3o pode ser compreendida de maneira mais ampla quando observada a partir de v\u00e1rios n\u00edveis articulados (como o psicanal\u00edtico, o psicol\u00f3gico e o biol\u00f3gico), pois ela n\u00e3o \u00e9 apenas um sentimento intenso, mas uma experi\u00eancia complexa que envolve o corpo, a mente e a hist\u00f3ria subjetiva do indiv\u00edduo. No sentido psicanal\u00edtico, a paix\u00e3o est\u00e1 ligada \u00e0 din\u00e2mica do desejo e \u00e0s rela\u00e7\u00f5es inconscientes que o sujeito estabelece com o outro. Para Freud, a paix\u00e3o amorosa envolve um forte investimento libidinal no objeto amado, muitas vezes acompanhado de idealiza\u00e7\u00e3o. O outro passa a ser visto como portador de qualidades absolutas, e essa supervaloriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o diz respeito apenas \u00e0 pessoa real, mas \u00e0s fantasias, car\u00eancias e desejos inconscientes do sujeito. Lacan aprofunda essa leitura ao afirmar que, na paix\u00e3o, o sujeito ama no outro aquilo que lhe falta, isto \u00e9, o objeto do amor ocupa simbolicamente o lugar daquilo que o sujeito sente como aus\u00eancia em si mesmo. Por isso, a paix\u00e3o tende a ser marcada por depend\u00eancia, ci\u00fame, sofrimento e perda de limites entre o eu e o outro, podendo assumir um car\u00e1ter avassalador e, em alguns casos, autodestrutivo (Freud, 1914; Lacan, 1966). Do ponto de vista psicol\u00f3gico, especialmente nas abordagens contempor\u00e2neas, a paix\u00e3o \u00e9 entendida como um estado emocional intenso, caracterizado por forte ativa\u00e7\u00e3o afetiva, foco quase exclusivo no objeto amado e diminui\u00e7\u00e3o da capacidade cr\u00edtica. Ela se diferencia do amor maduro porque \u00e9 mais inst\u00e1vel, impulsiva e marcada por urg\u00eancia. Autores como Sternberg descrevem a paix\u00e3o como um dos componentes do amor, ao lado da intimidade e do compromisso, sendo respons\u00e1vel pela atra\u00e7\u00e3o intensa e pelo desejo, mas insuficiente, sozinha, para sustentar v\u00ednculos duradouros. Psicologicamente, a paix\u00e3o tende a reduzir a percep\u00e7\u00e3o de riscos, aumentar a impulsividade e gerar oscila\u00e7\u00f5es emocionais intensas, o que explica tanto seu car\u00e1ter encantador quanto seu potencial de sofrimento (Sternberg, 1986). J\u00e1 no plano biol\u00f3gico, a paix\u00e3o envolve uma verdadeira reorganiza\u00e7\u00e3o neuroqu\u00edmica do organismo. Estudos em neuroci\u00eancia mostram que, durante estados passionais, h\u00e1 aumento da atividade dopamin\u00e9rgica no sistema de recompensa do c\u00e9rebro, especialmente em \u00e1reas como o n\u00facleo accumbens. A dopamina est\u00e1 associada \u00e0 motiva\u00e7\u00e3o, ao prazer e \u00e0 expectativa, o que explica a sensa\u00e7\u00e3o de euforia, energia elevada e foco obsessivo no outro. Ao mesmo tempo, h\u00e1 redu\u00e7\u00e3o da serotonina, neurotransmissor ligado ao controle e \u00e0 estabilidade emocional, o que contribui para pensamentos repetitivos e comportamentos compulsivos t\u00edpicos da paix\u00e3o. Horm\u00f4nios como a noradrenalina tamb\u00e9m participam, intensificando a excita\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica, a acelera\u00e7\u00e3o card\u00edaca e a hipervigil\u00e2ncia emocional (Fisher, 2004). Assim, a paix\u00e3o pode ser entendida como um estado de intensa mobiliza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e biol\u00f3gica, no qual o sujeito se v\u00ea tomado por for\u00e7as que ultrapassam o controle racional. Ela n\u00e3o \u00e9 patol\u00f3gica em si, mas representa uma fase ou uma forma de v\u00ednculo marcada por idealiza\u00e7\u00e3o, fus\u00e3o e alta ativa\u00e7\u00e3o emocional. Quando atravessada pela reflex\u00e3o, pelo tempo e pela alteridade, a paix\u00e3o pode se transformar em amor; quando fixada na depend\u00eancia e na perda do eu, pode se tornar fonte de sofrimento ps\u00edquico. Em todos os casos, ela revela algo fundamental sobre o desejo humano, sua vulnerabilidade e sua busca por completude. Para saber mais:FREUD, Sigmund. Introdu\u00e7\u00e3o ao narcisismo. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1914.LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1966.STERNBERG, Robert J. A triangular theory of love. Psychological Review, v. 93, n. 2, p. 119\u2013135, 1986.FISHER, Helen. Why we love: the nature and chemistry of romantic love. 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