{"id":1371,"date":"2026-04-07T10:18:54","date_gmt":"2026-04-07T13:18:54","guid":{"rendered":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=1371"},"modified":"2026-04-07T10:18:54","modified_gmt":"2026-04-07T13:18:54","slug":"engels-e-as-questoes-de-genero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=1371","title":{"rendered":"Engels e as quest\u00f5es de g\u00eanero"},"content":{"rendered":"\n<p>Friedrich Engels sustentava que as rela\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres n\u00e3o s\u00e3o naturais nem imut\u00e1veis, mas historicamente determinadas pelas formas de organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social. Em sua obra <em>A origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do Estado<\/em> (1884), Engels argumenta que, em muitas sociedades sem classes, especialmente aquelas baseadas em formas comunit\u00e1rias de produ\u00e7\u00e3o, as mulheres desfrutavam de maior <strong>autonomia e reconhecimento social<\/strong>. Isso ocorria porque o trabalho feminino (ligado \u00e0 subsist\u00eancia, ao cuidado e \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o da vida cotidiana) era socialmente necess\u00e1rio e valorizado no interior da comunidade (Engels, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Engels, essa situa\u00e7\u00e3o se transforma com o <strong>surgimento das sociedades de classe<\/strong>, que se consolidam historicamente com a forma\u00e7\u00e3o da propriedade privada e, mais tarde, com o capitalismo. \u00c0 medida que a produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica passa a se organizar em torno da <strong>acumula\u00e7\u00e3o de riqueza<\/strong>, o trabalho considerado \u201cprodutivo\u201d passa a ser aquele que gera <strong>excedente econ\u00f4mico<\/strong> e mercadorias para o mercado. Esse tipo de trabalho ocorre majoritariamente na esfera p\u00fablica e foi <strong>historicamente associado aos homens<\/strong> (Engels, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p>No capitalismo, essa distin\u00e7\u00e3o se aprofunda. O sistema passa a valorizar quase exclusivamente o trabalho assalariado, vis\u00edvel e mensur\u00e1vel em <strong>termos monet\u00e1rios<\/strong>. Em contrapartida, o trabalho reprodutivo e dom\u00e9stico, respons\u00e1vel por garantir a sobreviv\u00eancia cotidiana e a reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, \u00e9 deslocado para a esfera privada e naturalizado como dever feminino. Por n\u00e3o ser remunerado nem gerar mercadorias diretamente, esse trabalho passa a ser considerado secund\u00e1rio ou improdutivo, apesar de ser indispens\u00e1vel ao funcionamento do pr\u00f3prio sistema capitalista (Marx, 2013; Engels, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p>Engels argumenta que esse processo resultou na <strong>perda de status social das mulheres<\/strong>, fen\u00f4meno que ele chama de \u201ca grande derrota hist\u00f3rica do sexo feminino\u201d. A subordina\u00e7\u00e3o feminina n\u00e3o decorre, portanto, de diferen\u00e7as biol\u00f3gicas, mas do fato de que o capitalismo e as sociedades de classe passaram a conferir prest\u00edgio, poder e reconhecimento ao trabalho p\u00fablico, produtivo e propriet\u00e1rio (espa\u00e7os historicamente monopolizados pelos homens) enquanto relegaram o trabalho feminino \u00e0 invisibilidade (Engels, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a consolida\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia monog\u00e2mica patriarcal \u00e9 interpretada por Engels como uma institui\u00e7\u00e3o funcional \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da propriedade privada e da heran\u00e7a. O controle da sexualidade feminina e da reprodu\u00e7\u00e3o torna-se central para garantir a transmiss\u00e3o dos bens, refor\u00e7ando a depend\u00eancia econ\u00f4mica das mulheres e sua subordina\u00e7\u00e3o aos homens (Engels, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p>Em s\u00edntese, para Engels, a desigualdade de g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o universal da humanidade, mas uma consequ\u00eancia hist\u00f3rica do surgimento das sociedades de classe e do modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o, que redefiniu o valor do trabalho, a organiza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e as rela\u00e7\u00f5es entre os sexos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><strong>Para saber mais: <\/strong><br>ENGELS, Friedrich. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/dkDm3T0\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do Estado<\/a>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2019 [1884].<br>MARX, Karl. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/eakAwV8\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O capital, livro I<\/a>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<br>FEDERICI, Silvia. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/84Y3Cif\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Calib\u00e3 e a bruxa<\/a>. S\u00e3o Paulo: Elefante, 2017.<br>HIRATA, Helena; KERGOAT, Dani\u00e8le. <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/cp\/a\/cCztcWVvvtWGDvFqRmdsBWQ\/?format=pdf&amp;lang=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Novas configura\u00e7\u00f5es da divis\u00e3o sexual do trabalho<\/a>. Cadernos de Pesquisa, 2007.<br>OpenAI, ChatGPT para Rita Cruz, Output, 17 de fevereiro de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Friedrich Engels sustentava que as rela\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres n\u00e3o s\u00e3o naturais nem imut\u00e1veis, mas historicamente determinadas pelas formas de organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social. Em sua obra A origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do Estado (1884), Engels argumenta que, em muitas sociedades sem classes, especialmente aquelas baseadas em formas comunit\u00e1rias de produ\u00e7\u00e3o, as mulheres desfrutavam de maior autonomia e reconhecimento social. Isso ocorria porque o trabalho feminino (ligado \u00e0 subsist\u00eancia, ao cuidado e \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o da vida cotidiana) era socialmente necess\u00e1rio e valorizado no interior da comunidade (Engels, 2019). Segundo Engels, essa situa\u00e7\u00e3o se transforma com o surgimento das sociedades de classe, que se consolidam historicamente com a forma\u00e7\u00e3o da propriedade privada e, mais tarde, com o capitalismo. \u00c0 medida que a produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica passa a se organizar em torno da acumula\u00e7\u00e3o de riqueza, o trabalho considerado \u201cprodutivo\u201d passa a ser aquele que gera excedente econ\u00f4mico e mercadorias para o mercado. Esse tipo de trabalho ocorre majoritariamente na esfera p\u00fablica e foi historicamente associado aos homens (Engels, 2019). No capitalismo, essa distin\u00e7\u00e3o se aprofunda. O sistema passa a valorizar quase exclusivamente o trabalho assalariado, vis\u00edvel e mensur\u00e1vel em termos monet\u00e1rios. Em contrapartida, o trabalho reprodutivo e dom\u00e9stico, respons\u00e1vel por garantir a sobreviv\u00eancia cotidiana e a reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, \u00e9 deslocado para a esfera privada e naturalizado como dever feminino. Por n\u00e3o ser remunerado nem gerar mercadorias diretamente, esse trabalho passa a ser considerado secund\u00e1rio ou improdutivo, apesar de ser indispens\u00e1vel ao funcionamento do pr\u00f3prio sistema capitalista (Marx, 2013; Engels, 2019). Engels argumenta que esse processo resultou na perda de status social das mulheres, fen\u00f4meno que ele chama de \u201ca grande derrota hist\u00f3rica do sexo feminino\u201d. A subordina\u00e7\u00e3o feminina n\u00e3o decorre, portanto, de diferen\u00e7as biol\u00f3gicas, mas do fato de que o capitalismo e as sociedades de classe passaram a conferir prest\u00edgio, poder e reconhecimento ao trabalho p\u00fablico, produtivo e propriet\u00e1rio (espa\u00e7os historicamente monopolizados pelos homens) enquanto relegaram o trabalho feminino \u00e0 invisibilidade (Engels, 2019). Al\u00e9m disso, a consolida\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia monog\u00e2mica patriarcal \u00e9 interpretada por Engels como uma institui\u00e7\u00e3o funcional \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da propriedade privada e da heran\u00e7a. O controle da sexualidade feminina e da reprodu\u00e7\u00e3o torna-se central para garantir a transmiss\u00e3o dos bens, refor\u00e7ando a depend\u00eancia econ\u00f4mica das mulheres e sua subordina\u00e7\u00e3o aos homens (Engels, 2019). Em s\u00edntese, para Engels, a desigualdade de g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o universal da humanidade, mas uma consequ\u00eancia hist\u00f3rica do surgimento das sociedades de classe e do modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o, que redefiniu o valor do trabalho, a organiza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e as rela\u00e7\u00f5es entre os sexos. Para saber mais: ENGELS, Friedrich. A origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do Estado. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2019 [1884].MARX, Karl. O capital, livro I. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.FEDERICI, Silvia. Calib\u00e3 e a bruxa. S\u00e3o Paulo: Elefante, 2017.HIRATA, Helena; KERGOAT, Dani\u00e8le. Novas configura\u00e7\u00f5es da divis\u00e3o sexual do trabalho. 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