{"id":1360,"date":"2026-04-07T10:19:48","date_gmt":"2026-04-07T13:19:48","guid":{"rendered":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=1360"},"modified":"2026-04-07T10:19:48","modified_gmt":"2026-04-07T13:19:48","slug":"o-trabalho-domestico-nao-remunerado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=1360","title":{"rendered":"O trabalho dom\u00e9stico n\u00e3o remunerado"},"content":{"rendered":"\n<p>A antrop\u00f3loga norte-americana <strong>Karen Sacks<\/strong> critica o modo como o capitalismo desvaloriza e torna <strong>invis\u00edvel o trabalho dom\u00e9stico<\/strong> realizado majoritariamente por <strong>mulheres<\/strong>. Para ela, essa invisibilidade n\u00e3o \u00e9 um acidente, mas um elemento estrutural do sistema econ\u00f4mico. O trabalho dom\u00e9stico (cozinhar, limpar, cuidar de crian\u00e7as, idosos e doentes, organizar a vida cotidiana) n\u00e3o \u00e9 remunerado e, por isso, costuma ser exclu\u00eddo das estat\u00edsticas econ\u00f4micas e da no\u00e7\u00e3o tradicional de \u201ctrabalho produtivo\u201d (Sacks, 1979).<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, Sacks demonstra que esse trabalho \u00e9 fundamental para a <strong>reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho<\/strong>. \u00c9 no espa\u00e7o dom\u00e9stico que os trabalhadores s\u00e3o alimentados, cuidados, recuperam suas energias e t\u00eam suas condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de exist\u00eancia garantidas. Sem esse trabalho cotidiano, a for\u00e7a de trabalho simplesmente n\u00e3o poderia se apresentar diariamente ao mercado. Assim, embora n\u00e3o apare\u00e7a como produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, <strong>o trabalho dom\u00e9stico sustenta indiretamente toda a produ\u00e7\u00e3o capitalista<\/strong> (Sacks, 1979).<\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00edtica de Sacks dialoga com o <strong>marxismo feminista,<\/strong> que amplia a an\u00e1lise de Marx ao mostrar que o capitalismo depende n\u00e3o apenas do trabalho assalariado, mas tamb\u00e9m de uma vasta quantidade de trabalho n\u00e3o pago, realizado fora da esfera do mercado. Ao naturalizar o trabalho dom\u00e9stico como \u201camor\u201d, \u201cvoca\u00e7\u00e3o feminina\u201d ou \u201cobriga\u00e7\u00e3o moral\u201d, o sistema econ\u00f4mico consegue se beneficiar dele sem precisar <strong>remuner\u00e1-lo<\/strong>, reduzindo os custos da reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho (Federici, 2017).<\/p>\n\n\n\n<p>Desse modo, a desvaloriza\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 <strong>divis\u00e3o sexual do trabalho<\/strong>, que associa os homens \u00e0 produ\u00e7\u00e3o remunerada e as mulheres \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o da vida. Essa divis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 natural, mas hist\u00f3rica, e serve para manter <strong>desigualdades de g\u00eanero<\/strong> ao mesmo tempo em que sustenta a acumula\u00e7\u00e3o capitalista. Sacks enfatiza que reconhecer o trabalho dom\u00e9stico como trabalho \u00e9 um passo fundamental para compreender as bases reais da economia e para questionar a desigualdade estrutural entre homens e mulheres (Sacks, 1982).<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, quando Karen Sacks afirma que, sem o trabalho dom\u00e9stico, o sistema econ\u00f4mico n\u00e3o se sustentaria, ela est\u00e1 mostrando que a economia capitalista se apoia em uma base invis\u00edvel de trabalho feminino n\u00e3o remunerado, essencial \u00e0 sua reprodu\u00e7\u00e3o. Tornar esse trabalho vis\u00edvel \u00e9, ao mesmo tempo, um gesto te\u00f3rico e pol\u00edtico, pois revela que aquilo que parece \u201cfora da economia\u201d \u00e9, na verdade, uma de suas condi\u00e7\u00f5es centrais de exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><strong>Para saber mais: <\/strong><br>FEDERICI, Silvia. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/bo4t7ap\">Calib\u00e3 e a bruxa: mulheres, corpo e acumula\u00e7\u00e3o primitiva<\/a>. S\u00e3o Paulo: Elefante, 2017.<br>SACKS, Karen. Engels revisited: Women, the organization of production, and private property. In: LEACOCK, Eleanor; SAFA, Helen (orgs.). <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/59ZK50g\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Women\u2019s work: development and the division of labor by gender<\/a>. South Hadley: Bergin &amp; Garvey, 1986.<br>SACKS, Karen. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/eLQotlG\">Sisters and wives: the past and future of sexual equality<\/a>. Urbana: University of Illinois Press, 1982.<br>HIRATA, Helena; KERGOAT, Dani\u00e8le. <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/cp\/a\/cCztcWVvvtWGDvFqRmdsBWQ\/?format=pdf&amp;lang=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Novas configura\u00e7\u00f5es da divis\u00e3o sexual do trabalho<\/a>. Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, 2007.<br>MARX, Karl. <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1867\/capital\/index.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O capital<\/a>, livro I. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<br>OpenAI, ChatGPT para Rita Cruz, Output, 17 de fevereiro de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A antrop\u00f3loga norte-americana Karen Sacks critica o modo como o capitalismo desvaloriza e torna invis\u00edvel o trabalho dom\u00e9stico realizado majoritariamente por mulheres. Para ela, essa invisibilidade n\u00e3o \u00e9 um acidente, mas um elemento estrutural do sistema econ\u00f4mico. O trabalho dom\u00e9stico (cozinhar, limpar, cuidar de crian\u00e7as, idosos e doentes, organizar a vida cotidiana) n\u00e3o \u00e9 remunerado e, por isso, costuma ser exclu\u00eddo das estat\u00edsticas econ\u00f4micas e da no\u00e7\u00e3o tradicional de \u201ctrabalho produtivo\u201d (Sacks, 1979). No entanto, Sacks demonstra que esse trabalho \u00e9 fundamental para a reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. \u00c9 no espa\u00e7o dom\u00e9stico que os trabalhadores s\u00e3o alimentados, cuidados, recuperam suas energias e t\u00eam suas condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de exist\u00eancia garantidas. Sem esse trabalho cotidiano, a for\u00e7a de trabalho simplesmente n\u00e3o poderia se apresentar diariamente ao mercado. Assim, embora n\u00e3o apare\u00e7a como produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, o trabalho dom\u00e9stico sustenta indiretamente toda a produ\u00e7\u00e3o capitalista (Sacks, 1979). A cr\u00edtica de Sacks dialoga com o marxismo feminista, que amplia a an\u00e1lise de Marx ao mostrar que o capitalismo depende n\u00e3o apenas do trabalho assalariado, mas tamb\u00e9m de uma vasta quantidade de trabalho n\u00e3o pago, realizado fora da esfera do mercado. Ao naturalizar o trabalho dom\u00e9stico como \u201camor\u201d, \u201cvoca\u00e7\u00e3o feminina\u201d ou \u201cobriga\u00e7\u00e3o moral\u201d, o sistema econ\u00f4mico consegue se beneficiar dele sem precisar remuner\u00e1-lo, reduzindo os custos da reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho (Federici, 2017). Desse modo, a desvaloriza\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 divis\u00e3o sexual do trabalho, que associa os homens \u00e0 produ\u00e7\u00e3o remunerada e as mulheres \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o da vida. Essa divis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 natural, mas hist\u00f3rica, e serve para manter desigualdades de g\u00eanero ao mesmo tempo em que sustenta a acumula\u00e7\u00e3o capitalista. Sacks enfatiza que reconhecer o trabalho dom\u00e9stico como trabalho \u00e9 um passo fundamental para compreender as bases reais da economia e para questionar a desigualdade estrutural entre homens e mulheres (Sacks, 1982). Portanto, quando Karen Sacks afirma que, sem o trabalho dom\u00e9stico, o sistema econ\u00f4mico n\u00e3o se sustentaria, ela est\u00e1 mostrando que a economia capitalista se apoia em uma base invis\u00edvel de trabalho feminino n\u00e3o remunerado, essencial \u00e0 sua reprodu\u00e7\u00e3o. Tornar esse trabalho vis\u00edvel \u00e9, ao mesmo tempo, um gesto te\u00f3rico e pol\u00edtico, pois revela que aquilo que parece \u201cfora da economia\u201d \u00e9, na verdade, uma de suas condi\u00e7\u00f5es centrais de exist\u00eancia. Para saber mais: FEDERICI, Silvia. Calib\u00e3 e a bruxa: mulheres, corpo e acumula\u00e7\u00e3o primitiva. S\u00e3o Paulo: Elefante, 2017.SACKS, Karen. Engels revisited: Women, the organization of production, and private property. In: LEACOCK, Eleanor; SAFA, Helen (orgs.). Women\u2019s work: development and the division of labor by gender. South Hadley: Bergin &amp; Garvey, 1986.SACKS, Karen. Sisters and wives: the past and future of sexual equality. Urbana: University of Illinois Press, 1982.HIRATA, Helena; KERGOAT, Dani\u00e8le. Novas configura\u00e7\u00f5es da divis\u00e3o sexual do trabalho. Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, 2007.MARX, Karl. O capital, livro I. 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